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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

LITERATURA E ARTE

Esta é uma associação que eu sempre faço, não fosse eu historiadora da arte. Então, sempre que posso, incluo aspectos formais e estilísticos de construções arquitetônicas, cito artistas que eram ativos na época da história, quando não faço minhas personagens terem contato com as obras e os artistas. Aproveito também para situar as principais questões artísticas da época e o status social dos artistas. É também uma forma bem confortável que tenho de contextualizar a minha história.

A primeira história em que essa relação entre literatura e arte acontece é Tudo por causa de um quadro, de 1986. Como o próprio nome diz, tudo acontece porque o rapaz viu um quadro com o retrato da moça, apaixonou-se e pretende conquistá-la. Era uma história baseada num sonho, e não consegui dar-lhe muita consistência, por isso descartei. Cheguei a fazer uma segunda versão, que também não se sustentou. Em uma história sem nome de 1987, uma artista plástica pretende testar se a observação tátil do modelo funciona tão bem quanto a observação visual. Em Nem tudo que brilha... há um quadro, mas não o inseri na história da arte. Em O canhoto, também cuidei de descrever bem a estrutura e a decoração do mosteiro, que o caracterizam como cisterciense. Foi muito divertido, quando Nicolaas viaja pela Itália (perdido no mundo) e passa por Florença, "pátria" do Renascimento italiano porque, quando ele passou por lá, simplesmente não havia nada de renascentista para ele visitar, como turista. Olhando com olhos de hoje, é absurdo pensar que ele passou apenas meio dia na cidade porque "não há nada de interessante para se ver em Firenze". E há também uma outra história sem nome, de 1998, em que um órfão pobre de repente descobre que tem um dom excepcional e se torna um grande artista. Pensei em situar essa história no século XIV e de alguma forma relacionar minha personagem a Giotto: como aluno, como concorrente, mas não desenvolvi a idéia e deixei essa história suspensa.

Uma história em que usei bastante os aspectos artísticos na contextualização foi Tudo que o dinheiro pode comprar. Tenho, por exemplo, uma cena em que Miguel diz querer encomendar um retrato do filho. É a brecha para eu falar em Augusto Mueller, um dos maiores retratistas da primeira metade do século XIX, e a polêmica do gosto entre Vítor Meireles, requisitado retratista da segunda metade do século XIX, famoso por suas pinturas históricas e panoramas, e Pedro Américo, pintor histórico. Na hora de situar essa história no tempo, eu queria o final do século XIX, então não resisti e fiz parte dela acontecer em 1879, ano da Exposição Geral de Belas Artes em que foram apresentados dois dos quadros mais famosos da arte brasileira até o século XIX: a “Batalha dos Guararapes”, de Vítor Meireles, e a “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Minhas personagens, como o público da época, tomaram partido, atacaram e defenderam as obras e os artistas.

Acho que a relação mais intensa está em Construir a terra, conquistar a vida, em que um dos meninos desenha bem mas percebe que não pode seguir carreira devido à importância dada às artes plásticas na colônia (nenhuma importância). Prefiro não contar aqui nem quem é o menino, nem que solução encontrei para ele. Assim, não estrago a leitura do livro, quando eu o publicar. Foi muito interessante contrastar o Renascimento italiano – um dos momentos mais deslumbrantes da história da arte, quando o artista assume lugar de gênio e deixa de ser um artesão competente – e o ambiente cultural do Brasil na mesma época, em que os poucos artistas eram monges ou padres; as artes possíveis eram a arquitetura e, quando muito, a escultura devocional; as pinturas eram raras e se resumiam a retratos do rei e histórias de santos; as casas de pau-a-pique não eram decoradas artisticamente, então o único cliente era a Igreja, que tinha seus próprios artistas. “Quem vai querer comprar um desenho, mesmo que esteja bem feito?” –pergunta o artista, desconsolado, resignando-se a seguir outra profissão. Ele é meu único artista plástico e, por coincidência, houve um “mestre em artes” no Rio de Janeiro no início do século XVII com o mesmo nome. Mestre em artes, na época, não significava artista plástico, mas englobava várias habilidades manuais, inclusive o trabalho artesanal que hoje chamamos de arte colonial brasileira.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

LITERATURA E MÚSICA

Algumas pessoas escrevem ouvindo música, outras preferem o silêncio completo para criar. Alguns textos são inspirados por alguma música; alguns textos têm trilha sonora. Eu estou em todos os casos.

Ouvir música não me ajuda nem atrapalha, na maioria das vezes. Na verdade, qualquer ambiente me é propício à criação, uma vez que consigo, se necessário, ativar meu silêncio interior – que, às vezes, funciona como ruído interior, quando as cenas que estou criando se apossam da minha mente.

Quando comecei a escrever, tentava dar a cada história uma música que lhe pudesse servir de trilha sonora, como se o texto fosse um filme, com imagens e sons. É o caso da história nomeada Cheia de Charme e que, evidentemente, tem como trilha sonora a música “Cheia de charme”, de Guilherme Arantes. Neste caso, a comunhão história/música foi tão intensa e tão perfeita que a história acabou ficando com o mesmo nome que a música, ainda por cima porque nunca lhe dei um título. Há outros casos em que eu encontrei músicas que encaixavam bem nas histórias, mas acabei desistindo da prática, pois percebi que era uma informação inútil, já que eu não me referia à música durante a história, nem informava em lugar nenhum que tinha escolhido aquela música como trilha sonora para aquela história.

Algumas relações e associações, entretanto, acabam sendo inevitáveis, mesmo eu não procurando mais. Foi o que aconteceu, por exemplo, em Amor de Redenção. Na época, uma colega de trabalho assistiu a uma audição de “Concerto de Aranjuez”, de Joaquim Rodrigo, e me contou como ficou emocionada. Fiquei com vontade de ouvir a música em meu CD. E eis que eu comecei a ver as minhas personagens no segundo movimento! Ágila cavalgando ferozmente pelos planaltos espanhóis, e a chuva caindo fria sobre a pobre Alana. Então, toda vez que eu tinha uma cena difícil à frente, ou que não sabia muito bem como continuar, eu ouvia o “Concerto de Aranjuez” como uma forma de me impregnar com o clima da história e buscar “inspiração”. Mas não citei em lugar nenhum que a música tem relação com a história.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SÍMBOLOS

Desde as mitologias antigas, a literatura é carregada de simbologias. Personagens representam forças da natureza, acontecimentos são eventos cósmicos. Minhas histórias não são mitologias mas também são cheias de símbolos. Alguns eu acrescento conscientemente mas a grande maioria é de símbolos inconscientes. Todas as histórias têm alguma relação com o momento que estou vivendo, com meus dramas pessoais e problemas que tenho que resolver. Hoje, depois de alguns anos de análise psicológica, sou capaz de identificar alguns símbolos logo depois que eles aparecem mas outros eu só compreendo anos depois, com muita análise da estrutura da história e caracterização das personagens, e compreendendo muito bem o momento que eu estava vivendo quando escrevi. Um grande número de símbolos permanecem inacessíveis a mim, mesmo depois de todo esse trabalho. Algumas vezes eu consigo identificar que tal elemento é um símbolo, mas não consigo compreender o que ele significa.

É importante destacar que os símbolos não são óbvios. Casar não significa casar; matar não significa matar; personagens masculinas não são necessariamente homens reais; personagens femininas não são necessariamente mulheres reais. A troca de sexo, inclusive, é muito comum, além da mudança de papel social. Dessa forma, meu pai pode se tornar o patrão, minha prima pode se tornar o irmão, meu irmão pode se tornar a mãe, e também meu pai pode se tornar o pai, minha avó pode se tornar a irmã, e todas as possibilidades imagináveis. Eu mesma posso ser a personagem principal masculina ou feminina – às vezes alternadamente, ou simultaneamente as duas – além de estar diluída em todas as outras personagens, sejam homens, mulheres ou crianças.

Há casos também em que uma personagem simboliza várias coisas ao mesmo tempo. Em relação a uma personagem, representa uma pessoa; em relação a outra personagem, representa outra pessoa. Cada função e/ou cada papel da personagem se refere a uma pessoa real diferente, aglutinadas numa personagem que tem papéis sociais diferentes e se relaciona com várias outras personagens.

Fiz este texto propositadamente sem citar nenhum exemplo, fosse de personagem, situação ou história. Essa é a graça de escrever: despejo no papel meu inconsciente sob disfarces simbólicos tão complexos que o leitor só percebe a construção, a literatura, e não tem acesso pleno ao meu EU. Explicar aqui algumas simbologias retiraria delas a magia, e considero exposição excessiva. Seria não apenas me despir mas despir minha alma das máscaras que ela usa para se proteger, e isso é algo que não posso fazer publicamente. Contente-se o leitor em observar pela rótula da porta. Penetrar meu inconsciente é privilégio exclusivo de amigos muito próximos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

NASCIMENTOS

Já que falei nas mortes, vou falar também nos nascimentos que acontecem durante as histórias. São em bom número e, para fazer este texto, incluí essa coluna de informação na mesma tabela em que contabilizei o número de mortes, e descobri que há 41 histórias em que não nasce ninguém e 10 histórias em que nasce pelo menos uma pessoa. Ao total, são 44 personagens que nascem durante as histórias. Em seis casos, a história acabou antes que a criança nascesse, sendo que, em Tudo que o dinheiro pode comprar, outras crianças já tinham nascido, então ela aparece entre os 10 casos de nascimentos e entre os seis casos de crianças por nascer. Há apenas um caso de gestação perdida (é claro que não vou dizer em que história). A história com maior número de nascimentos é Construir a terra, conquistar a vida, em que nascem 17 pessoas. É interessante notar que não fazem parte de minhas histórias o nascimento de pessoas reais, mas só conto o nascimento das minhas personagens.

A primeira criança que nasceu numa história minha foi André, de uma história sem nome descartada que eu chamo de Juliana, o nome da personagem principal. Nas histórias sobreviventes, o primeiro bebê foi Clare Neville, em O destino pelo vão de uma janela. Meu “caçula” é Karl Günter, que nasceu em O canhoto (a história mais recente).

A certa altura do processo, desenvolvi uma espécie de “mania” com relação aos nomes das personagens nascidas no Brasil: o nome do bebê é sempre o mesmo da personagem principal do romance anterior. Curiosamente, os primogênitos vêm sendo sempre meninos. Acho que começou em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, quando o descendente de Ricardo também se chama Ricardo. A história seguinte passada no Rio de Janeiro foi Tudo que o dinheiro pode comprar e eu resolvi homenagear a personagem principal da história anterior. O nascimento seguinte no Brasil foi em Construir a terra, conquistar a vida, então o primeiro filho de Duarte se chama Miguel. Desde então, não nasceu mais nenhum brasileiro, mas eu já sei que o próximo que nascer se chamará Duarte – ou Eduardo, a forma moderna do nome. A escolha dos nomes das personagens é sempre muito bem pensada, e eu analiso a sonoridade, se é um nome forte ou fraco, doce ou rude, de forma que combine com a personalidade que estou construindo, mas os nomes das crianças é de certa forma exceção, porque, como as pessoas, as crianças das minhas histórias vão formando a personalidade à medida que crescem.

terça-feira, 11 de maio de 2010

PROTAGONISTAS E ANTAGONISTAS

Pela definição, protagonista é a personagem principal, o “mocinho”, o “herói”, o “bonzinho”, quem carrega a trama e conduz a história. É por ele que o leitor torce, para que ele chegue ao final feliz esperado. Antagonista é a personagem que se contrapõe à protagonista, criando empecilhos ao final feliz que a protagonista busca. É o “bandido”, o “vilão, o “malvado”.

Nas minhas histórias, em geral tenho um casal protagonista (o mocinho e seu par ou a mocinha e seu par). Às vezes tenho dois casais, quando são dois mocinhos (Duarte e Fernão; Curt e Karl) e seus pares. Mas o que posso dizer de meus antagonistas além de que não são óbvios? Muitas vezes os papéis se confundem, se invertem, se alternam. Minhas personagens vão além do rótulo de “bonzinho” e “malvado”. Em Pelo poder ou pela honra, Estienne e Fréderic são alternadamente o problema e a solução da disputa. Qual dos dois será o verdadeiro antagonista de Ninette?

Em O maior de todos, Curt e Karl são antagonistas um do outro, mas os dois juntos são os protagonistas da história. Nenhum dos dois é totalmente bom nem totalmente mau, nem sempre certos, nem sempre errados – como tudo na vida.

Achei bom o trabalho que fiz em O canhoto, ao falar de Hans Günter. Ele é herói e demônio, volta a ser herói, mostra-se um perdedor, um salvador, para, no fim, ser apenas humano.

E o que dizer quando o protagonista é o “vilão” da história, o “malvado”? É o que acontece em Vingança – como o próprio título já sugere. É interessante porque, se o protagonista é o vingador, então antagonistas são as vítimas, as pobres vítimas indefesas. De certa forma, é uma inversão, até que se conheçam os fatos que provocaram a vingança. Só então os “bonzinhos” vão para o lugar de protagonistas e os “mauzinhos” ficam no lugar de antagonistas, e o vingador pode ter esperança de perdão.

Já Ágila, em Amor de redenção, ocupa os dois lugares: é o protagonista da história, ao mesmo tempo em que age como antagonista de seu par e, portanto, de sua própria felicidade. Camila precisou assumir o lugar de protagonista para ajudar Ágila a decidir se chegaria ao final como seu par (protagonista) ou como antagonista.

Essa definição de papéis nunca é muito evidente porque muitos dos conflitos não são entre personagens, mas de uma personagem consigo mesma, ou entre personagem e meio social. E eu procuro sempre deixar as personagens sem todas as características definidas, para que os “bonzinhos” possam ter ataques de fúria, e os “mauzinhos” possam ter rompantes de generosidade. Procuro fazer minhas personagens imperfeitas e imprevisíveis, como são as pessoas de verdade; então fica difícil enquadrá-las nessas categorias fechadas.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TIPOS DE MORTES

Sim, vou falar de novo nas mortes que acontecem nas minhas histórias, já que são mesmo muitas. Considerando apenas as histórias que escrevi (em número de 51), tenho 19 histórias em que ninguém morre, e 32 histórias em que morre pelo menos uma pessoa. Ao todo, são 113 mortes. A história que contabiliza o maior número de mortes é O maior de todos, o que não me impressiona, por ser uma história em que há traição e tentativa de golpe de estado, e por estar situada na época da Peste Negra (16 mortes). É interessante que Construir a terra, conquistar a vida, com 876 páginas, tem apenas 13 mortes (proporcionalmente muito menos do que O maior de todos, que tem 160 páginas). Quando eu fui contar quantas pessoas morriam em cada história (sim, tenho esta e outras informações em uma tabela), percebi que há três categorias de mortos:

1) personagens fictícias que morrem durante a história – são minhas criações que morrem por necessidade da trama. Ao todo, são 65 mortes dessa categoria. De todas as 51 histórias que escrevi, há apenas uma personagem que não precisava morrer mas que eu quis matar, justificando que “a morte não leva só quem deve morrer”. Sempre choro ao reler esse capítulo de O maior de todos. Este é, portanto, meu único “assassinato”, pois eu podia ter poupado essa personagem e não o fiz.

2) personagens fictícias que morrem antes da história começar – são pais, mães, irmãos, ancestrais, amigos das personagens que estão agindo na história, e que são citados por elas, e têm alguma importância na condição da personagem, ou no desenrolar da trama. São ao todo 41 mortes nessa categoria. Por exemplo, os pais de Duarte (Construir a terra, conquistar a vida) que, ao morrerem, deixaram-no desamparado, o que o impeliu à vida de furtos; o Velho Araújo (Tudo que o dinheiro pode comprar), que fez Miguel ser egocêntrico e arrogante e, ao morrer, deixou-lhe uma vultuosa herança.

3) pessoas reais que morrem durante a história – embora essas mortes sejam contadas por mim e façam parte da história – às vezes a ponto de determinar eventos fictícios posteriores – não sou responsável por elas, pois a pessoa morreu de qualquer jeito, salvá-las não está a meu alcance, e não fui eu que as matei, mas a vida. Ao todo, são sete: o Conde de Flandres (O canhoto), que morre durante a Terceira Cruzada; e os governantes e jesuítas de Construir a terra, conquistar a vida: Estácio de Sá, Mem de Sá, o rei Dom Sebastião, o rei Dom Henrique, Araribóia, o Padre Manoel da Nóbrega.

Podemos concluir, portanto, que o grande número de mortes nas minhas histórias não é responsabilidade minha apenas, mas dessa lei da vida, que diz que todos os que estão vivos morrem um dia.

domingo, 21 de março de 2010

MEUS AMIGOS NAS HISTÓRIAS

Olhando retrospectivamente, é engraçado pensar que coloquei algumas amigas como personagens das minhas histórias. Isso aconteceu quatro vezes, sendo que duas vezes a pedido da própria amiga.

A primeira vez foi em 1985, na história Princesa do Mar. Eu contei a minha amiga Gisela sobre a história e ela me pediu para ser incluída nela. Deixei-a também escolher o nome e as características da personagem que seria seu par-romântico. Hoje, esta história está descartada.

A segunda vez foi em 1993, na história Amor maior que o amor. Eu tinha uma cena em que a mocinha estava esperando suas amigas chegarem. Para não ter o trabalho de criar duas ou três personagens que eu não ia usar novamente, coloquei minhas amigas Cláudia, Márcia, Nadja e Rita na cena, cada uma com suas características reais, seu jeito de agir e falar. Depois que estava feito, contei a elas e elas se reconheceram na minha descrição e gostaram de participar dessa minha história que hoje está descartada.

A terceira vez foi no mesmo ano de 1993, em História do mundo, em que eu incluí minha amiga Luciana. As características da Luciana personagem e da Luciana real não são as mesmas, mas o relacionamento entre a Luciana personagem e Cristina é como o entre a Luciana real e eu.

Finalmente, em 2003 atendi ao pedido de minha amiga Ana Cláudia e a incluí como personagem em Amor de redenção. Também a pedido dela, a personagem se chama apenas Ana. Mas, da verdadeira Ana, só aproveitei a descrição física e o nome, pois a Ana-personagem é mais infantil do que a Ana-real. Mas talvez minha amiga tenha sido assim quando tinha a idade da personagem.

Nas quatro vezes, as minhas amigas são amigas da personagem principal feminina, o que não quer dizer que eu esteja retratada nessa personagem principal, mais do que nas outras personagens. Na verdade, eu sou todas as personagens de todas as histórias, exceto essas que são reais, sejam pessoas que eu conheço ou pessoas ilustres da história universal.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

REI ARTUR

É claro que eu já tinha ouvido falar no Rei Artur e seus Cavaleiros da Távola Redonda mas nunca tinha lido nenhum livro com as histórias deles até dezembro de 1988, quando uma amiga minha imaginou uma história em que os cavaleiros se reencontrassem nos dias de hoje, encarnados em outros corpos, e caberia ao Rei Artur identificá-los, encontrá-los espalhados pelo mundo e reuni-los, para restaurar a Távola Redonda e seu reino de Camelot. Ela chegou a me dar a caracterização de algumas personagens, e me deixou livre para criar as outras e fazer todo o percurso da história. Eu achei a idéia interessante e resolvi escrever.

A primeira coisa a fazer foi ler os Romances de Cavalaria para conhecer as personagens e escolher quais usaria na minha história. Comecei a procurar textos, livros e obras relacionadas e encontrei Richard Wagner, e sua ópera Tristão e Isolda, cujo prelúdio se tornou uma de minhas músicas favoritas. Depois li adaptações da história de Artur e dos Cavaleiros, até começar a encontrar os romances nas livrarias. Comprei e li tudo o que pude: 1) romances da época: Chréstien de Troyes (Perceval ou o conto do Graal, Lancelot o cavaleiro da charrete, Erec e Enide, Cligès ou a que se fingiu de morta, Iwain o cavaleiro do leão), Thomas Malory (Morte de Artur), Wolfrand Von Eschenbach (Parsifal), Robert de Boron (Merlin), A morte do Rei Artur, de autor anônimo, e ainda Afonso Lopes Vieira (O romance de Amadis); 2) romances organizados nos tempos modernos, a partir de textos medievais: Joseph Bédier (Romance de Tristão e Isolda), Dorothea e Friedrich Schlegel (A história do mago Merlin); 3) um estudo de Jean Markale (Merlin, o mago)

A lista de cavaleiros aumentava e diminuía, à medida que eu lia: aumentava porque eu queria incluir todos os que eu achava interessantes; diminuía porque eu entendia que só podia ficar com os principais. Criei também uma personagem não prevista pela minha amiga: Richard Crawford, um jovem aficcionado pela Távola Redonda para ajudar Artur em sua missão.

Como já citei aqui, em 11 de agosto, no texto sobre as histórias encomendadas, esta história se passava no futuro – no caso, o que era futuro quando ela foi criada: começava em 1997 e terminava em 2001, mais precisamente no dia 1/1/2001, o dia-mês-ano-década-século-milênio em que a vida de todos os envolvidos mudaria, pois seria quando Artur voltaria a reinar sobre a Inglaterra. Eu queria que as pessoas lessem com a expectativa de que o que eu escrevi realmente aconteceria, e esperassem pelo dia 16/4/1997 (o dia em que eu digo que Artur volta de Avalon para recuperar seu reino) para saber se de fato ele voltaria: se eu tinha apenas contado uma história ou feito uma profecia. No fim, só eu acompanhei as datas, esperando para ver se algum jornal noticiava a volta de Artur ao nosso mundo. Mas a História é muito cruel e nunca registra a passagem das minhas personagens pelo mundo e seus feitos notáveis. De qualquer forma, para mim, o dia 16/4 se tornou o Dia de Artur, quando lembro que ele voltou de Avalon, e Richard Crawford o ajudou a encontrar os Cavaleiros da Távola Redonda e a recuperar o Santo Graal para, com ele, conquistar o poder sobre a Bretanha e sobre todo o mundo. É uma pena que os historiadores não tenham registrado tudo o que aconteceu entre 1997 e 2000.

De tanto ler, fiquei impregnada com o estilo dos escritores e com o tipo de história que eles escreveram, e acabei criando, em 1989, Sir Haliwain de Nova Gália, um herói cavaleiresco capaz de competir com Sir Lancelot do Lago e Sir Tristão de Leonis, os melhores cavaleiros do mundo de acordo com todos os Romances de Cavalaria. Haliwain liberta donzelas, defende a justiça, persegue e vence os maus cavaleiros.

Achei que ia ser um caso isolado mas, em 1994, aconteceu de novo, e eu criei Sir Linart da Bretanha, o inverso do ideal da Cavalaria: um cavaleiro fraco, arrogante, que busca justiça em forma de vingança, com defeitos que não cabem num bom cavaleiro. No mesmo ano, fechei a trilogia, ao criar Sir Daluvian de Penthièvre e Sir Denevole de Norfolk, cavaleiros-cantores que dão mais valor à poesia do que aos combates. Enquanto Haliwain vence todos os combates, Linart perde todos, e Daluvian e Denevole preferem não lutar – mas, quando lutam, vencem. Comecei com o estereótipo e depois fui subvertendo o modelo.

Infelizmente, eu acabei de ler os Romances de Cavalaria, e a última história ficou incompleta pois perdi o pique do estilo. Mas gosto do projeto e considero-a sobrevivente, aguardando o momento de ser completada.

A questão é que, antes de ler os Romances, eu ouvi Wagner e me encantei. Então minha história preferida se tornou Tristão e Isolda, e o cavaleiro preferido, Sir Tristan de Leonis. Na impossibilidade de criá-lo, restou-me louvá-lo através de outros cavaleiros. Então os três “romances de cavalaria” que escrevi são uma forma de homenagear meu cavaleiro favorito. Ele aparece nas três histórias em posição de destaque, de forma que suas qualidades cavaleirescas sejam destacadas, e a irreversibilidade de seu amor sem culpa pela Rainha Iseu (prefiro a grafia em português arcaico). Não sou poeta, mas escrevi um poema para ele, que será publicado no livro que reúne as poesias que ousei fazer. E se por acaso não ficou óbvio nos romances que minha intenção era louvá-lo, acabo de confessar aqui esse amor irrestrito, infinito, ideal, irreal, impossível e, portanto, inútil.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

MORTES

Muitas pessoas que lêem meus livros ficam horrorizadas com a quantidade de mortes que há, e a forma aparentemente fria como eu descrevo alguns detalhes dessas mortes. As pessoas acham que só os maus morrem, como se a morte fosse um castigo. É o hábito dos contos de fadas e da telenovela brasileira: o vilão enlouquece ou morre; eventualmente é preso. Não tenho vilões óbvios, e não considero a morte uma punição: a morte é uma etapa da vida, e pode acontecer em qualquer idade, por qualquer motivo, e em geral encontra a pessoa despreparada. Eu apenas reproduzo o fato da vida, não sou uma “assassina fria”.

Gostei muito quando Ariano Suassuna, numa entrevista, assumiu que mata muitas personagens. Ele contou que a primeira história que escreveu era um conto com três personagens e as três morriam no decorrer da história – um dos motivos de ser um conto: com as três mortes, não sobrou nenhuma personagem para conduzir a história. Ele também citou o caso do “Auto da Compadecida”, que se tornou mais conhecido depois do filme de Guel Arraes, produzido em 2000: na parte mais importante da história, quando a Compadecida atua, todas as personagens estão mortas, e a maioria permanece morta. Então agora, quando me acusam de matar muitas personagens, eu respondo que estou em boa companhia.

A quantidade de mortes também me impressionava um pouco, inclusive porque eu choro por todas as personagens que eu mato, sofro com as personagens que ficam, uma atitude estranha para um “serial-killer”. Perguntava-me também como eu, uma pessoa tão meiga e doce, poderia ter tanta violência precisando explodir dessa forma. Então, na última morte que contei (em O Canhoto), percebi qual é a questão. Não há violência que precisa ser extravazada. Eu não mato as personagens: eu as faço morrer para que eu possa chorar por elas, para que eu possa fazer na ficção um luto que eu não fiz na vida real, quando estava ainda sob o domínio do inconsciente – e é o inconsciente quem se expressa nas minhas histórias.

Desde que tomei consciência desse fato, estou fazendo o luto na vida real e me libertando dessa melancolia, que me acompanhou a vida inteira. Quando o luto estiver feito, eu provavelmente não precisarei mais matar minhas personagens – pelo menos não para esse fim. Se elas morrerem, será por necessidade da trama, não para suprir alguma carência minha.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE ESTILO

Primeira postagem do ano e eu deixei passar o dia combinado... Férias são um problema... Mas vamos falar de estilo.

Segundo Mário Quintana, “estilo é a deficiência que faz um sujeito escrever sempre do mesmo jeito”. É verdade. De tanto repetir os procedimentos, eles viram fórmulas e configuram um estilo. Por fim, só sabemos escrever dessa forma, que acaba se tornando mais fácil, pela prática. Então aprimorar meu estilo próprio é descobrir minhas deficiências e investir nelas; e encontrar a forma que me é mais simples, fácil e prazerosa. Mesmo quando tento implementar mudanças na forma de escrever, quando percebo, estou fazendo do jeito que sempre faço. Por causa deste blog, tenho refletido sobre meus processos, e chegou a hora de apontar alguns hábitos que configuram aspectos que podem ser considerados estilo. Perdoem-me os críticos literários e especialistas, se meu linguajar não é técnico nem correto: nunca estudei análise literária formalmente: minha experiência é empírica, de leitora amadora.

Quero levantar alguns pontos característicos:

1) os inícios: gosto de jogar o leitor de para-quedas no meio da ação. Quando o livro começa, a história já começou e o leitor “pega o bonde andando”, e tem que rapidamente inteirar-se do que está acontecendo. Foi assim em O destino pelo vão de uma janela: “De repente, um vulto entra pela janela do quarto da jovem”; em O maior de todos: “O conde ia apressado pelos corredores escuros do castelo”; em Primeiro a honra: “Em prantos, a jovem entrou no quarto da amiga”; em Construir a terra, conquistar a vida: “O prisioneiro foi retirado da cela imunda”; em A noiva trocada: “O carro sacudia na estrada esburacada”. O início de O canhoto também é assim, com Nicolaas fugindo para esconder-se no quarto, seguido por sua mãe.

2) descrição física das personagens: as descrições são curtas e contam só as características mais expressivas das personagens: o que as faz diferentes das outras pessoas. Também não gosto de fazer um parágrafo para descrever a personagem: me faz lembrar as redações da escola, que eu odiava fazer. Prefiro que as características da personagem apareçam em algum diálogo ou no meio de uma cena, ou quando significam alguma coisa para o desenvolvimento da história. Por exemplo: em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Fernão têm cada um seu parágrafo próprio com a descrição de sua aparência (eu estava tentando ter um estilo diferente) mas Inês, por exemplo, é descrita num diálogo em que suas características estavam sendo criticadas e defendidas. Dos irmãos mestiços, sabemos que um é o mais branco dos irmãos; outro, o mais moreno deles; um tem traços portugueses e cor indígena, mas os detalhes dessas misturas não é contado: cada leitor imagine como quiser. Em O canhoto: de Nicolaas só sabemos a cor dos olhos e cabelos, e que é canhoto. Ainda assim, essas informações são dadas ao longo das 376 páginas manuscritas. Ester não é descrita, nem Juan Miguel, nem Robrecht, e também sabemos pouco sobre Maurits, as personagens que rodeiam Nicolaas mais de perto. É algo que terei que rever quando for digitar essa história, e descrever as personagens um pouco mais: elas também não podem ser tão pobres em descrição. É preciso dar pistas para que o leitor possa formar a imagem das personagens, para que elas adquiram corpo e existência física concreta. A pintura que faço das personagens não é um quadro renascentista, em que os fios de cabelo são desenhados um a um, tudo em detalhes, mas está mais próximo de um quadro impressionista, em que algumas poucas pinceladas dão uma visão geral da personagem, deixando espaço para que o leitor use sua imaginação e seu conhecimento do mundo para completar a descrição.

3) descrição psicológica das personagens: os aspectos psicológicos das personagens eu absolutamente não descrevo, para não rotulá-las. Pelo que elas pensam, dizem e fazem, e pela forma como se movem e agem é possível ao leitor perceber se a personagem é calma, agitada, alegre, melancólica, neurótica, nervosa, medrosa, insegura, etc. Às vezes, alguma personagem rotula outra, mas fica a critério do leitor aceitar a opinião dessa personagem ou ter a sua própria. Fernão, por exemplo, diz que Duarte tem bom senso mas talvez o leitor ache que as ações de Duarte não sejam tão sensatas assim e prefira caracterizá-lo de outra forma. Willem diz que Maurits é subversivo mas Nicolaas o acha admirável. Cabe ao leitor escolher se concorda com um dos dois ou se tem opinião diversa. O que não pode é eu, enquanto escritora e “mãe” de todos eles dizer o que penso deles: o leitor acreditaria sem refletir e todo meu trabalho de dizer em linhas e entrelinhas se tornaria inútil.

4) tempo da narração: faço a narração no passado, contando o que as personagens disseram e fizeram. Acho mais tranqüilo e confortável. Quando eu comecei a escrever, misturava narração no presente e no passado, conforme o tipo de cena: passado para cenas calmas, presente para cenas tensas e de ação. Com a prática, acho que aprendi a criar tensão e ação mesmo usando o tempo passado, então só em O destino pelo vão de uma janela essa mistura permaneceu: quando fui publicar, não quis que o texto perdesse suas características originais.

5) clichês: entrei em pânico quando me disseram que eu usava muitos clichês. Tive que rever o que eu já tinha escrito e o que estava escrevendo, para encontrá-los e eliminá-los, tanto quanto possível. Desde então, tenho sido muito mais cuidadosa para nem produzi-los. Prefiro não fazer uma imagem a fazer um clichê. Nesse ponto me ajudou muito o Blog do Romance, que não existe mais, ao disponibilizar listagens de clichês usados por outros autores em suas obras. Ao ver a falha apontada no outro, me corrigi. É interessante que eu usava os clichês simplesmente por não saber que são clichês, e que isso empobrecia a minha escrita. Uma vez com a consciência do erro, ficou mais fácil evitá-lo.

6) ação: minha narrativa tem por base os diálogos. É neles que as personagens são nomeadas. Antes da pessoa ser citada, ela não tem nome; é apenas “um vulto” (Gustave) que entra pela janela do quarto “da jovem”(Marie); “o prisioneiro”(Duarte) que tem as mãos amarradas para trás; “o conde” (Legrant) que vai apressado pelos corredores escuros do castelo; “a jovem” (Rosala) que entra chorando no quarto “da amiga” (Constance).

É nos diálogos também que eu construo os conflitos, e que as características psicológicas das personagens se expressam. É claro que as personagens não ficam todo tempo falando. Elas também se movem, andam, pensam em silêncio, brigam, correm, etc, e isso é narrado sem diálogos. Considerando essa minha predileção por diálogos, posso dizer que meu estilo tem algo de teatral, por se basear em cenas de interação entre as personagens, mediada pela fala. O Prof. Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, apontou isso quando viu um trecho de Construir a terra, conquistar a vida, ressaltando que o grande mestre do diálogo é Shakespeare, um autor que eu naturalmente não pretendo ombrear.

Bem, devo ter deixado de discorrer sobre algum aspecto de análise estilística, que não me ocorre agora. Se meus leitores apontarem meus esquecimentos, terei prazer em complementar as informações.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.

Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.

O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.

O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.

Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.

Nem tudo que brilha... foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.

O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.

O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.

Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.

Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.

A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.

Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.

Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.

Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].

O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.

Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.

Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:

Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.

História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.

Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.

O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.

À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.

sábado, 21 de novembro de 2009

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: "o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar". As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história.

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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