sábado, 11 de julho de 2009

ANIMAIS

Para não dizer que não tenho nenhuma personagem animal, tenho duas: Euryanthe e Juba.

Euryanthe é uma cachorra da raça Husky Siberiano companheira de Ilya, no romance O processo de Ser. Ela fica no limite entre um animal muito inteligente e uma pessoa no corpo de um animal. Acho que não sei compor personalidades animais... Com isso, ela não é apenas o cachorro de estimação de Ilya, mas se torna mesmo uma companheira inseparável – e, neste caso especial, a única companheira possível, na vida e na morte. Ela é personagem componente da história, figura na lista de personagens da minha planilha e, sem ela, a história tomaria outros rumos ou nem seria possível. Ela funciona como uma espécie de consciência de Ilya, um elo de ligação entre o mundo interior de Ilya e a vida lá fora.

Juba é um mico-leão-dourado, amigo de Fernão, no romance Construir a terra, conquistar a vida. Diferente de Euryanthe, Juba é um elemento dispensável na história. Sua personalidade é ser um animal silvestre e a presença dele não provoca nenhuma alteração da trama. Na verdade, houve um momento em que eu simplesmente esqueci que o tinha incluído na história, então achei melhor contar que ele tinha ido embora. Eu o inventei porque achei que seria legal alguém ter um animal de estimação e eu gosto muito dessa nossa espécie ameaçada de extinção. A acolhida e adoção do mico por Fernão pode ser encarada como um desejo meu de preservação dessa espécie.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O CANHOTO

No momento, não estou escrevendo nada, nem tendo idéias para um próximo romance. Em março, terminei O canhoto, que rendeu 376 páginas e demorei 629 dias para escrever (quase dois anos inteiros), o que dá uma média de 0,6 páginas por dia, minha média habitual.

O canhoto se passa na Flandres do final do século XII e a personagem principal participa da Terceira Cruzada (1189-1192), o que me exigiu muita pesquisa durante todo o processo.

A história já existia desde 1988, com o nome de Mosteiro, mas estava suspensa (descartada) porque encontrei incoerências na caracterização das personagens e havia alguns clichês e deus ex-machina irritantes.

Então um dia, em 2006, eu lia uma descrição dos mosteiros cistercienses feita por Henri Focillon, no livro Arte do Ocidente: a idade média românica e gótica. A ambientação era tão detalhada que eu me vi andando por aqueles corredores e pensei "tenho que fazer uma história que se passe num mosteiro..." E em seguida lembrei "eu tenho uma história que se passa num mosteiro!" Resgatei o texto e reli algumas partes mas de fato não havia salvação. Mas, se ela estava suspensa, é porque eu tinha carinho por ela e não tinha conseguido descartar completamente. Só havia um jeito: re-escrever. A trama estava pronta, só precisava reformular as personagens e fazê-las agir de novo, de forma mais coerente. Para isso, busquei na Internet informações sobre o ambiente escolhido: Bruges, 1186. Foi quando me deparei com o primeiro problema.

Em 1988, quando escrevi Mosteiro, eu não tinha muito acesso a material sobre os vários assuntos que eu tinha que saber para uma história de tal envergadura. Li alguns livros da Biblioteca Nacional mas a vontade de escrever logo não me deixou pesquisar muito. Em 2006, com a Internet à minha disposição, me oferecendo rapidamente textos, meta-textos, fotografias e mapas, a pesquisa foi mais profunda e eu descobri que minha história francesa, feudal e rural tinha que se tornar uma história flamenga, citadina e urbana.

A primeira dificuldade a resolver foi os nomes das personagens, que eram em francês. Em Mosteiro, eu tinha François Beauvans, sua mulher Charlotte e os dois filhos Robert e Jean Michel - este último a personagem principal. Parecia fácil simplesmente traduzir mas não gostei de Jan Michael. Eu estava acostumada à sonoridade suave de Michel, enquanto Michael é um nome duro. Então o grande dilema: mudar o nome da personagem principal, o que significa mudar a personalidade e a imagem que tenho dela. Foi difícil, mas tive essa coragem. Como em Michel, eu queria um nome oxítono, que tornasse possível o ritmo que eu tinha no nome francês em flamengo. Uma amiga que morou na Holanda me deu uma lista com cinco sobrenomes para eu usar na história e eu escolhi Van de Linde para a família principal, ao mesmo tempo em que me decidia por Nicolaas, em lugar de Michel.

Depois tive que destituir o canhoto de sua posição de senhor feudal e fazê-lo filho de comerciante rico. A caracterização acabou sendo mais fácil e a ocupação profissional dele ao longo do percurso foi mais coerente, mas tive que incluir uma personagem para treiná-lo em esgrima para a Cruzada.

Também tive que estudar sobre os Beneditinos e escolher um mosteiro para Nicolaas ingressar, e fazer a vida dele no mosteiro conforme a Regra de São Bento (não era assim em Mosteiro).

Depois foi "só" guiar as personagens pela história já conhecida e planejada, aproveitando algumas falas, gestos e atitudes mais marcantes da primeira versão e o Mosteiro se tornou O canhoto.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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