terça-feira, 11 de agosto de 2009

HISTÓRIAS ENCOMENDADAS

Por cinco vezes, pessoas deram-me idéias para escrever. Deram-me já prontos personagens, ambientação, trama. Só uma eu consegui escrever – a primeira, porque a absorvi como minha, e acabei fazendo muitos acréscimos além do que estava planejado. Tanto que A nova Camelot se tornou O sonho de Richard. É uma história de 1988, que se passava no futuro, entre os anos de 1997 e 2000 – terminava na virada do milênio e isso era importante. O que era futuro virou passado, sem que eu tivesse acabado de escrever, por isso a descartei. Mas às vezes fico pensando se devia chamá-la de volta, e terminar de escrever. O problema é que faz parte dela ser no futuro, e eu dei um significado especial à virada do milênio. E a próxima virada está tão longe... não quero ir tão para o futuro assim.

As outras quatro histórias eu cheguei a recolher informação, pesquisar, inventar. Uma outra até cheguei a começar a escrever. Mas a verdade é que eram estímulos exteriores a mim, e por isso não consegui levar adiante. Outro dia reli algumas anotações que fiz sobre uma dessas – a história de Didier e sua mãe Vivianne – que me foi dada em 1993, e alguma coisa falou dentro de mim. Acho que meu inconsciente se identificou com o que eu li, e eu já comecei a inventar cenas e refazer o que eu tinha feito. Como é uma história que requer muita pesquisa, pois se passa na Europa no século XVI – e ainda por cima as personagens e a trama não são minhas – marquei-a como suspensa, para voltar a ela algum dia. Talvez seja minha próxima história, não sei. Curioso é que a pessoa que me deu esta história é a mesma que me deu A nova Camelot.

Também em 1993, duas meninas me pediram uma peça de teatro para elas representarem com os primos. Deram-me as personagens e a trama e eu comecei a escrever, mas achei que estava entrando em temas estranhos à proposta delas, então também desisti.

Em 2003, um prédio antigo desabou na Rua do Rosário, centro do Rio de Janeiro. Meus colegas de trabalho sugeriram que eu fizesse uma história com isso. Achei boa a idéia, acompanhei e copiei as notícias, inventei personagens e uma trama mas não gostei do que fiz. Então descartei sem nem escrever.

E recentemente, em 2006, meu pai me deu uma sugestão mas eu teria que “brincar” com personagens reais, sobre os quais há muitos estudos e livros escritos, e eu achei perigoso me meter a fazer ficção com gente que existiu e fatos reais. Até cheguei a pensar nela, mas é difícil inventar e ao mesmo tempo ser fiel ao que dizem os livros. Então desisti.

Foi analisando esses fatos – e outras questões também, é claro – que cheguei à conclusão de que meu processo é de fato inconsciente, e que eu não consigo escrever por encomenda.

sábado, 1 de agosto de 2009

PERSONAGENS REAIS E FICTÍCIAS

A grande maioria de minhas personagens é fictícia. Não todas porque às vezes eles se encontram com pessoas reais e eu sou obrigada a dar vida a quem existiu de fato. Sempre evito mexer com pessoas reais, porque acho temerário vir eu contar que eles disseram ou fizeram isso e aquilo. Deixo essa tarefa aos historiadores, eu sou ficcionista. Nas minhas histórias, as personagens reais são citadas e às vezes elas até aparecem, mas apenas em “participações especiais”, e, mesmo assim, peço-lhes desculpas pela minha arrogância de supor que eles disseram e fizeram o que eu conto. É verdade que a presença delas ajuda a dar credibilidade à minha ambientação, mas mesmo assim eu evito.

A primeira vez que usei personagens reais foi em 1986, na segunda versão daquela “história adulta” que inventei com 13 anos. A pessoa real era o Rei Edward Tudor, o Sexto, da Inglaterra, e ele aparecia “numa idade que ele nunca teve, num tempo em que ele já era só lembrança”, como eu mesma registrei na época. Ou seja, usei de forma errada, e este foi um dos motivos do descarte da história.

A segunda vez foi em Mosteiro, quando Michel encontrou o Rei Philippe II da França. Desta vez, tentei compreender a personalidade e o comportamento da pessoa real para fazê-lo o mais verossímel possível, e não creio que tenha errado muito, se errei. O comportamento dele com Michel foi coerente com tudo o que li sobre ele.

Depois veio o desafio de recriar as personagens dos Romances de Cavalaria do Ciclo Arturiano, para A nova Camelot. Me envolvi tanto e fiquei tão impregnada com as personagens que fiz três romances de cavalaria, misturando minhas personagens fictícias aos cavaleiros lendários e ao próprio Rei Artur. Depois reuni essas três histórias em forma de romance de cavalaria – Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do cavaleiro bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores - num único volume chamado Biblioteca de Kerdeor, seguindo a tradição de chamar de “biblioteca” as coletâneas de textos medievais.

Incluí personagens reais também em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, em que apareceram Joaquim Manuel de Macedo lançando “A Moreninha” e Machado de Assis ainda menino.

Vivianne (1993) era para contar a história de pessoas que viveram no século XVI. Todas as personagens eram reais. Não consegui escrever.

A história com maior número de pessoas reais contracenando com minhas personagens fictícias é Construir a terra, conquistar a vida. Nela aparecem jesuítas e governantes em estreita relação com Duarte e Fernão, as personagens principais dessa história que se passa no Rio de Janeiro do século XVI.

E finalmente O Canhoto tem a participação de Filips van de Elzas, Conde de Flandres, e de Hendrik I, Duque de Brabante. Creio ter sido fiel às informações que consegui sobre eles, e tê-los feito agir e falar de forma coerente a quem eles foram de fato. Mesmo assim, devo a eles muitas desculpas por tê-los feito participar tão ativamente de eventos decisivos da trama. Também são citados o Rei Philippe II da França e o Rei Richard I da Inglaterra, the Lionheart, ao lado de quem Nicolaas luta na Terceira Cruzada da Terra Santa.

É interessante notar que as pessoas reais só aparecem nas histórias ambientadas no passado. Talvez porque a presença delas ajude a dar maior verossimilhança ao que estou escrevendo. Talvez eu pense que não preciso usar pessoas reais nas histórias que se passam no meu tempo. Talvez as histórias do presente tenham a ambientação menos elaborada, porque parece que eu parto do princípio de que o presente é óbvio para o leitor, mas não o passado. Talvez as pessoas reais do presente não sejam tão importantes para o desenrolar das minhas tramas. Na verdade, não sei explicar.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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