terça-feira, 11 de agosto de 2009

FLASHBACK

É um recurso que não costumo usar. Prefiro usar a seqüência cronológica e contar os eventos do mais antigo para o mais recente. Usei apenas duas vezes, sendo que, em Nem tudo que brilha..., o flashback se resume a um diálogo curto para explicar como o casal combinou adquirir a casa em que moram.

Flashback verdadeiro então só fiz em Amor de redenção, quando escrevi um capítulo inteiro para contar fatos do passado que explicam a fixação de Ágila por Camila. Aliás, esta é uma história temporalmente interessante, porque foi a única vez que a história passou por mim. Ela começa no passado, passa pelo presente e só termina no futuro. Foi assim: comecei a escrever no final de maio, e fiz a primeira cena acontecer no início de maio. O capítulo II é o flashback, que acontece no século VI. Depois eu volto para o presente, e vou contando linearmente. Mas houve uma hora – as férias de julho de Camila, que contei em dois parágrafos, em que a história passou à minha frente: eu estava no mês de junho e Camila já estava de volta às aulas em agosto. Lembro que, a certa altura, perguntei a um colega de trabalho: “você acha que no dia 14 de agosto vai chover?” É claro que ele me olhou sem entender nada e educadamente respondeu “não sei”. É que nós estávamos vivendo no mês de junho, mas a história já estava acontecendo no mês de agosto. E, como é uma história de longa duração, eu a projetei para o futuro, contando resumidamente o que acontecerá às personagens durante os anos seguintes, pois é no futuro que o conflito de Ágila será realmente resolvido. Então hoje a história, embora terminada no papel, ainda está acontecendo.

HISTÓRIAS ENCOMENDADAS

Por cinco vezes, pessoas deram-me idéias para escrever. Deram-me já prontos personagens, ambientação, trama. Só uma eu consegui escrever – a primeira, porque a absorvi como minha, e acabei fazendo muitos acréscimos além do que estava planejado. Tanto que A nova Camelot se tornou O sonho de Richard. É uma história de 1988, que se passava no futuro, entre os anos de 1997 e 2000 – terminava na virada do milênio e isso era importante. O que era futuro virou passado, sem que eu tivesse acabado de escrever, por isso a descartei. Mas às vezes fico pensando se devia chamá-la de volta, e terminar de escrever. O problema é que faz parte dela ser no futuro, e eu dei um significado especial à virada do milênio. E a próxima virada está tão longe... não quero ir tão para o futuro assim.

As outras quatro histórias eu cheguei a recolher informação, pesquisar, inventar. Uma outra até cheguei a começar a escrever. Mas a verdade é que eram estímulos exteriores a mim, e por isso não consegui levar adiante. Outro dia reli algumas anotações que fiz sobre uma dessas – a história de Didier e sua mãe Vivianne – que me foi dada em 1993, e alguma coisa falou dentro de mim. Acho que meu inconsciente se identificou com o que eu li, e eu já comecei a inventar cenas e refazer o que eu tinha feito. Como é uma história que requer muita pesquisa, pois se passa na Europa no século XVI – e ainda por cima as personagens e a trama não são minhas – marquei-a como suspensa, para voltar a ela algum dia. Talvez seja minha próxima história, não sei. Curioso é que a pessoa que me deu esta história é a mesma que me deu A nova Camelot.

Também em 1993, duas meninas me pediram uma peça de teatro para elas representarem com os primos. Deram-me as personagens e a trama e eu comecei a escrever, mas achei que estava entrando em temas estranhos à proposta delas, então também desisti.

Em 2003, um prédio antigo desabou na Rua do Rosário, centro do Rio de Janeiro. Meus colegas de trabalho sugeriram que eu fizesse uma história com isso. Achei boa a idéia, acompanhei e copiei as notícias, inventei personagens e uma trama mas não gostei do que fiz. Então descartei sem nem escrever.

E recentemente, em 2006, meu pai me deu uma sugestão mas eu teria que “brincar” com personagens reais, sobre os quais há muitos estudos e livros escritos, e eu achei perigoso me meter a fazer ficção com gente que existiu e fatos reais. Até cheguei a pensar nela, mas é difícil inventar e ao mesmo tempo ser fiel ao que dizem os livros. Então desisti.

Foi analisando esses fatos – e outras questões também, é claro – que cheguei à conclusão de que meu processo é de fato inconsciente, e que eu não consigo escrever por encomenda.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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