segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

JUAN MIGUEL TORRES

Acho importante dizer uma palavra sobre essa personagem. Não que ela seja mais significativa do que as outras, mas é minha criação mais recente, e tudo na composição dela tem um motivo, que quero contar aqui.

Juan Miguel Torres é personagem de O canhoto, que já foi falada aqui em 1/7/2009, quando contei que é reescrita de uma história de 1988, chamada Mosteiro. Aproveitei de Mosteiro todas as personagens, e fiz apenas ajustes de caracterização, inclusive por causa da re-contextualização da história numa Brugge urbana e flamenga. Jean Michel Beauvans, a personagem principal de Mosteiro era filho de nobre, e sua formação incluía a preparação militar, mesmo ele sendo um canhoto que usa mal a mão direita. Mas Jan Nicolaas van de Linde, personagem principal de O canhoto é um filho de negociante que, por ser um canhoto que usa mal a mão direita, tem dificuldades até mesmo com facas de mesa para cortar o pão. Ou seja, ele nunca empunharia uma espada sem por em risco, em primeiro lugar, a própria vida. Mas a participação dele na Terceira Cruzada da Terra Santa era fundamental para o desenvolvimento da trama. Então eu tive a necessidade de criar para ele um professor de esgrima, que o iniciasse na arte da guerra. Essa personagem nova seria um especialista militar, e seu destino era morrer em batalha, atravessado por uma espada sarracena.

A primeira escolha foi quanto à nacionalidade. Pelos meus planos, Nicolaas e o professor se encontrariam na Itália, mais precisamente em Gênova, cidade mercadora onde Nicolaas poderia trabalhar e se sustentar. Diante disso, a escolha óbvia para esse espadachim era que ele fosse italiano. Mas Nicolaas chega a Gênova em exílio, então achei melhor que esse professor também fosse um estrangeiro, para que eles tivessem algo em comum que os aproximasse, e tornasse possível uma amizade, e o treinamento de esgrima seria conseqüência da amizade, pois Nicolaas – um mercador - nunca procuraria aulas de esgrima, nem pensaria em ir para a Cruzada. Então as alternativas mais próximas passaram a ser francês e alemão, para não mexer com os eslavos do leste. Mas então eu me lembrei de que a Espanha vivia a Reconquista, e um professor espanhol poderia ter toda a família envolvida com treinamentos e guerra, e isso faria dele um bom professor e guerreiro. Além disso, desenvolvi um carinho especial pela Espanha depois que estudei os visigodos, para escrever Amor de redenção.

A escolha do nome Juan Miguel é referência e homenagem a Jean Michel, a personagem principal de Mosteiro. E assim, ele também é João, como Jean Michel, Jan Nicolaas e Hans Günter (o outro grande amigo de Nicolaas, que aparece em outro ponto da história). O sobrenome Torres dá à família a solidez defensiva necessária a quem luta pela expansão de seu território.

Quis que Miguel e Nicolaas tivessem idade e biotipo parecido, para que o relacionamento entre eles não se caracterizasse como mestre-discípulo, mas fosse uma relação entre iguais.

Isso feito, precisava explicar o que um espanhol com esse perfil estaria fazendo em Gênova, e tinha que dar a ele algum problema que Nicolaas pudesse ajudar a resolver, já que Miguel o ensinaria a lutar. Então inventei para ele uma “história anterior” que explicasse a saída da Espanha, a chegada a Gênova, e isso fazia parte do problema de porquê ele não voltava para a Espanha.

Tudo definido, a personagem estava pronta para entrar na história e cumprir seu papel junto a Nicolaas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

TRANSFORMAR CONTOS EM ROMANCES

Este é o projeto que tenho para dois dos meus contos: História do mundo e À procura. Parecia uma tarefa fácil, já que, como disse aqui em 11/11/2009, a única diferença entre meus contos e meus romances é o número de páginas, e não a estrutura. Acontece que há uma série de outros elementos que são menos desenvolvidos nos meus contos – daí o menor número de páginas. Por isso mesmo parecia fácil: bastaria descrever a ambientação, desenvolver melhor a caracterização das personagens, acrescentar alguns diálogos para confirmar as informações e pronto: o conto tinha virado romance. Parecia fácil...
Aproveitando que não estou envolvida em nenhum projeto de criação e escrita, pensei executar logo essa tarefa, e resolver a vida das duas histórias que acabam ficando no limbo. Foi quando descobri que essa transformação não é nada fácil. Percebi que, se não descrevi o ambiente, nem as personagens, é porque esses elementos não são importantes e, na verdade, eu nem sei direito onde a história se passa, nem qual o aspecto físico das personagens. Então não é uma questão de desenvolver: em alguns casos é preciso criar!!
Quando estava revisando o texto sobre os TÍTULOS, percebi que não constavam os contos e resolvi inclui-los. E foi explicando o título de À procura que eu encontrei o gancho para desenvolver a caracterização das personagens: a procura individual de cada um. De repente eu vi as personagens interagindo novamente, cada qual conforme seu objetivo pessoal. Foi como uma luz que se acendesse, e eu peguei uma folha em branco para registrar a idéia – anotar o que cada um procura.
Preciso também situar melhor o local da expedição, com o nome da cidade, nome da gruta – ou das grutas, conforme o local que vou escolher. Então, sabendo exatamente onde a história se passa, poderei acrescentar características regionais às personagens, como entonações e vocabulário.
E não bastará acrescentar as partes novas no texto que já existe: será preciso reescrever, como fiz com O canhoto. É claro que a seqüência de eventos é a mesma, e vou aproveitar todo texto que puder – afinal, o original não é um texto descartado (ruim) – mas o trabalho será realmente de reescrita.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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