segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A NOIVA TROCADA

Considero que é a história mais “água com açúcar” que eu tenho. A trama é simples, e baseia-se num mal-entendido (veja a sinopse aqui).

A primeira pergunta foi: onde vou situar essa história? Em que tempo e lugar isso pode acontecer naturalmente? Eu poderia pesquisar culturas atuais “exóticas”, em que o casamento arranjado pelos pais é uma prática comum, ou podia simplesmente recuar no tempo, quando o mundo ocidental também tinha essa prática. De qualquer forma, teria que pesquisar e estaria fora do aqui e agora. Como eu estava escrevendo Construir a terra, conquistar a vida, que se passa no Rio de Janeiro do século XVI – então eu já estava pesquisando esse ambiente, achei essa alternativa mais prática, e resolvi situar a história no Rio de Janeiro, durante o reinado de D. Henrique, entre a morte de D. Sebastião e a União das Coroas Ibéricas.

Assim, Maria Assunción Hernandez é uma espanhola, filha de portugueses, que vem para o Brasil casar-se com Henrique Carvalho, um português rico que vive e trabalho no Rio de Janeiro. Toda a história acontece numa semana, no mesmo lugar: a fazenda de Henrique, exceto a primeira e a última cena, que acontecem na cidade. São poucas personagens: além do triângulo principal, mais 4 personagens participam da história, e há uns outros que são apenas citados – irmãos e pais do casal principal. Considero que misturei elementos de conto e romance, pois as personagens principais são mais desenvolvidas do que no conto e a trama, embora linear (elemento do conto), é mais elaborada (elemento do romance), ao mesmo tempo que há unidade espacial e temporal (elementos do conto).

Usei essa forma mista também em À procura (conto) e Vingança. Gosto dela porque é simples como um conto mas me deixa espaço para desenvolver as personagens e me estender em número de páginas. Em geral, não me preocupo com forma, mas gosto quando a história que eu quero contar cabe nesse formato.

JUAN MIGUEL TORRES

Acho importante dizer uma palavra sobre essa personagem. Não que ela seja mais significativa do que as outras, mas é minha criação mais recente, e tudo na composição dela tem um motivo, que quero contar aqui.

Juan Miguel Torres é personagem de O canhoto, que já foi falada aqui em 1/7/2009, quando contei que é reescrita de uma história de 1988, chamada Mosteiro. Aproveitei de Mosteiro todas as personagens, e fiz apenas ajustes de caracterização, inclusive por causa da re-contextualização da história numa Brugge urbana e flamenga. Jean Michel Beauvans, a personagem principal de Mosteiro era filho de nobre, e sua formação incluía a preparação militar, mesmo ele sendo um canhoto que usa mal a mão direita. Mas Jan Nicolaas van de Linde, personagem principal de O canhoto é um filho de negociante que, por ser um canhoto que usa mal a mão direita, tem dificuldades até mesmo com facas de mesa para cortar o pão. Ou seja, ele nunca empunharia uma espada sem por em risco, em primeiro lugar, a própria vida. Mas a participação dele na Terceira Cruzada da Terra Santa era fundamental para o desenvolvimento da trama. Então eu tive a necessidade de criar para ele um professor de esgrima, que o iniciasse na arte da guerra. Essa personagem nova seria um especialista militar, e seu destino era morrer em batalha, atravessado por uma espada sarracena.

A primeira escolha foi quanto à nacionalidade. Pelos meus planos, Nicolaas e o professor se encontrariam na Itália, mais precisamente em Gênova, cidade mercadora onde Nicolaas poderia trabalhar e se sustentar. Diante disso, a escolha óbvia para esse espadachim era que ele fosse italiano. Mas Nicolaas chega a Gênova em exílio, então achei melhor que esse professor também fosse um estrangeiro, para que eles tivessem algo em comum que os aproximasse, e tornasse possível uma amizade, e o treinamento de esgrima seria conseqüência da amizade, pois Nicolaas – um mercador - nunca procuraria aulas de esgrima, nem pensaria em ir para a Cruzada. Então as alternativas mais próximas passaram a ser francês e alemão, para não mexer com os eslavos do leste. Mas então eu me lembrei de que a Espanha vivia a Reconquista, e um professor espanhol poderia ter toda a família envolvida com treinamentos e guerra, e isso faria dele um bom professor e guerreiro. Além disso, desenvolvi um carinho especial pela Espanha depois que estudei os visigodos, para escrever Amor de redenção.

A escolha do nome Juan Miguel é referência e homenagem a Jean Michel, a personagem principal de Mosteiro. E assim, ele também é João, como Jean Michel, Jan Nicolaas e Hans Günter (o outro grande amigo de Nicolaas, que aparece em outro ponto da história). O sobrenome Torres dá à família a solidez defensiva necessária a quem luta pela expansão de seu território.

Quis que Miguel e Nicolaas tivessem idade e biotipo parecido, para que o relacionamento entre eles não se caracterizasse como mestre-discípulo, mas fosse uma relação entre iguais.

Isso feito, precisava explicar o que um espanhol com esse perfil estaria fazendo em Gênova, e tinha que dar a ele algum problema que Nicolaas pudesse ajudar a resolver, já que Miguel o ensinaria a lutar. Então inventei para ele uma “história anterior” que explicasse a saída da Espanha, a chegada a Gênova, e isso fazia parte do problema de porquê ele não voltava para a Espanha.

Tudo definido, a personagem estava pronta para entrar na história e cumprir seu papel junto a Nicolaas.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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