sábado, 1 de maio de 2010

AMOR DE REDENÇÃO

Aproveitando que estou neste blog abrindo meu coração e contando meus segredos, tenho mais um segredo a revelar: às vezes eu acompanho tele-novelas, mas só quando todo mundo as acha ruins. Não gosto das novelas que as pessoas gostam e acompanham, interessadas na trama, no desenrolar dos acontecimentos: estas para mim são chatas e eu não aceito nelas os clichês, lugares-comuns, deus-ex-machina. Já as novelas “esculhambadas”, que de certa forma assumem sua função de ficção para divertir, e não para retratar a vida, nem para fazer uma crítica à situação social, essas me agradam. E foi uma dessas novelas, que as pessoas consideravam fantasiosa, boba e até não-construtiva (são comentários que ouvi, na época) que me deu inspiração para escrever uma história.

Em 2002/2003, a Rede Globo exibiu O beijo do vampiro, de Antônio Calmon, em que Tarcísio Meira interpretava o vampiro Boris Vladescu, criatura empenhada em conseguir a qualquer custo o amor de Lívia, interpretada por Flávia Alessandra, que era a reencarnação do amor da vida dele, a Princesa Cecília. Por fim, ela o fazia entender que nunca poderia amá-lo, porque ele era o Mal, e ele terminava renunciando a ela, pois era sua natureza ser mau e ele não poderia mudar. Discordei. Eu acredito no Amor, e que o Amor é capaz de vencer até o Mal – provavelmente devido à minha formação cristã. Então eu quis repetir a história da novela, mas com um final diferente, em que o Amor que ele sente por ela é capaz de transformar o Mal em Bem.

Não queria uma personagem vampiro, nem todas as tramas secundárias, necessárias à telenovela. Então criei uma adolescente para ser a amada que reencarna, e pensei como construir um homem que fosse mau como um vampiro, sem o ser, e que de alguma forma estivesse vivo há cerca de 1000 anos – mais ou menos como o vampiro da novela.

Recuar cerca de 1000 anos, a partir de 2003, ano em que eu estava, me põe na Idade Média (de novo!). Sempre que preciso recuar à Idade Média, meu primeiro destino é a França. Por isso tenho evitado o lugar, embora muitas vezes acabe ficando pelas redondezas (Nicolaas em Flandres, Legrant na fronteira com a Alemanha). Então, para variar, escolhi a Espanha visigoda, que termina em 711 com a invasão dos árabes. Li muitos textos, pesquisei fotos e mapas para contextualizar bem essa fase da história, e criei Ágila, um guerreiro impiedoso, thiufadi do Rei Leovigildo, que oscila entre tratar mal sua mulher e maltratá-la, embora a ame. Criei também um artifício demoníaco – um verdadeiro diabolus-ex-machina – para justificar a imortalidade dele até ele encontrar Camila em 2003, a adolescente que vai fazê-lo entender que ela não pode amar o Mal. É quando começa a luta entre o Bem e o Mal, entre o que Ágila é e o que ele quer ser. Tentei não ser simplista nem maniqueísta nesse duelo tão batido entre Bem e Mal. Justifiquei as maldades de Ágila, louvei o diabo, enfraqueci a bondade, culpei o amor, na tentativa de mostrar as várias possibilidades dos sentimentos, e a relatividade dos conceitos de Bem e Mal. Mas, como sou cristã, no final a vitória pertence a Deus e àqueles que Ele ama.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TIPOS DE MORTES

Sim, vou falar de novo nas mortes que acontecem nas minhas histórias, já que são mesmo muitas. Considerando apenas as histórias que escrevi (em número de 51), tenho 19 histórias em que ninguém morre, e 32 histórias em que morre pelo menos uma pessoa. Ao todo, são 113 mortes. A história que contabiliza o maior número de mortes é O maior de todos, o que não me impressiona, por ser uma história em que há traição e tentativa de golpe de estado, e por estar situada na época da Peste Negra (16 mortes). É interessante que Construir a terra, conquistar a vida, com 876 páginas, tem apenas 13 mortes (proporcionalmente muito menos do que O maior de todos, que tem 160 páginas). Quando eu fui contar quantas pessoas morriam em cada história (sim, tenho esta e outras informações em uma tabela), percebi que há três categorias de mortos:

1) personagens fictícias que morrem durante a história – são minhas criações que morrem por necessidade da trama. Ao todo, são 65 mortes dessa categoria. De todas as 51 histórias que escrevi, há apenas uma personagem que não precisava morrer mas que eu quis matar, justificando que “a morte não leva só quem deve morrer”. Sempre choro ao reler esse capítulo de O maior de todos. Este é, portanto, meu único “assassinato”, pois eu podia ter poupado essa personagem e não o fiz.

2) personagens fictícias que morrem antes da história começar – são pais, mães, irmãos, ancestrais, amigos das personagens que estão agindo na história, e que são citados por elas, e têm alguma importância na condição da personagem, ou no desenrolar da trama. São ao todo 41 mortes nessa categoria. Por exemplo, os pais de Duarte (Construir a terra, conquistar a vida) que, ao morrerem, deixaram-no desamparado, o que o impeliu à vida de furtos; o Velho Araújo (Tudo que o dinheiro pode comprar), que fez Miguel ser egocêntrico e arrogante e, ao morrer, deixou-lhe uma vultuosa herança.

3) pessoas reais que morrem durante a história – embora essas mortes sejam contadas por mim e façam parte da história – às vezes a ponto de determinar eventos fictícios posteriores – não sou responsável por elas, pois a pessoa morreu de qualquer jeito, salvá-las não está a meu alcance, e não fui eu que as matei, mas a vida. Ao todo, são sete: o Conde de Flandres (O canhoto), que morre durante a Terceira Cruzada; e os governantes e jesuítas de Construir a terra, conquistar a vida: Estácio de Sá, Mem de Sá, o rei Dom Sebastião, o rei Dom Henrique, Araribóia, o Padre Manoel da Nóbrega.

Podemos concluir, portanto, que o grande número de mortes nas minhas histórias não é responsabilidade minha apenas, mas dessa lei da vida, que diz que todos os que estão vivos morrem um dia.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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