sexta-feira, 2 de julho de 2010

COMO SE FAZ UM ROMANCE HISTÓRICO?

A meu ver, todos os romances são históricos. É claro que são exceção aqueles ambientados fora do tempo/espaço, os romances de ficção e os de fantasia.

Quando se fala em romance histórico, a primeira impressão é de que se trata de uma história ambientada no passado. Mas as histórias do presente também expressam a realidade de uma época, de uma visão de mundo e de um modo de pensar.

À primeira vista também, é mais fácil escrever ambientando a história no tempo presente, pois a contextualização é mais simples, uma vez que se considera que conhecemos a época que estamos vivendo. Ah, sim, conhecemos, mas quanto do que sabemos colocamos no romance? Muitas vezes, pelo contexto ser natural tanto para o escritor como para o leitor, deixamos os detalhes de fora, escondidos, mal-explicados só nas entrelinhas. Precisamos sempre pensar como fizeram os romancistas do século XIX, que nos deixaram um panorama bem delineado e detalhado da época em que viveram. Até mesmo a pesquisa histórica científica pode se basear nos livros da época para reconstruir o que foi o século XIX.

O cuidado para se escrever uma história ambientada no presente ou no passado deve ser o mesmo: contextualizar bem. Para isso, é importante que o autor tenha bom conhecimento de aspectos da época escolhida: sociedade, economia, filosofia, política, religião, arte, literatura, e que considere que o leitor não tem conhecimento específico nenhum, e aprenderá o que é aquela época lendo o livro. É preciso, no entanto, cuidado para não transformar a obra literária num livro didático escolar. Deve-se evitar explicação durante a narração. Ao invés disso, é melhor fazer as personagens agirem com naturalidade naquele ambiente. Em vez de dizer que a sociedade era patriarcal, construa uma cena em que o desejo do patriarca prevalece sobre todos os outros, e um filho indignado contendo a raiva e submetendo-se à vontade do pai. Outro artifício interessante é juntar duas pessoas de grupos diferentes, e uma explicar à outra certos aspectos. O cuidado aqui é para que a explicação não se torne uma aula, nem tenha tom didático. As comparações são maçantes: “você é um guelfo e por isso pensa assim. Eu sou um gibelino e por isso penso assado” e também é melhor que sejam evitadas.

Em Construir a terra, conquistar a vida, o caráter guerreiro da cultura de Ayraci é expresso na atitude dela, quando ela reclama por Duarte prezar a paz; no critério de escolha dos nomes dos filhos deles; no que ela decide que quer como prova de amor; em tudo o que Duarte faz para agradá-la e viver bem com ela.

Gostei de como contextualizei o caráter mercador de Nicolaas, em O canhoto. No século XII, época da história, os mercadores não eram mais uma escória de aproveitadores, como no início do século XI, mas também não eram todos comerciantes respeitáveis. Um centro mercantil importante como era Bruges (em Flandres, atual Bélgica) não teria certamente só um tipo de mercador. Havia, provavelmente, os honestos e os desonestos, e os honestos por certo seriam bastante respeitáveis – como eu queria que fosse a família e o próprio Nicolaas. Então, quando ele encontra Miguel, o espadachim, vemos a situação dos mercadores do século XII por um outro ponto de vista – o dos guerreiros, e vemos como o limite entre honestidade e desonestidade ainda era bem tênue. Nesse mesmo encontro, tive a oportunidade de explicar a situação dos heróis guerreiros pelo ponto de vista de um mercador que dá mais valor ao dinheiro do que ao orgulho, para mostrar que o limite entre a honra e a arrogância também era muito tênue. Esses encontros de culturas e visões de mundo diferentes são perfeitos para desenvolver a contextualização sem cair no didatismo óbvio e maçante. Enquanto cada um defende seu ponto de vista, eu aproveito para explicar tudo o que eu quero.

A construção do romance histórico é igual à construção de qualquer outro romance. A diferença é que as personagens do passado agem de forma diferente de nós e, estranhamente, acham isso muito natural...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SÍMBOLOS

Desde as mitologias antigas, a literatura é carregada de simbologias. Personagens representam forças da natureza, acontecimentos são eventos cósmicos. Minhas histórias não são mitologias mas também são cheias de símbolos. Alguns eu acrescento conscientemente mas a grande maioria é de símbolos inconscientes. Todas as histórias têm alguma relação com o momento que estou vivendo, com meus dramas pessoais e problemas que tenho que resolver. Hoje, depois de alguns anos de análise psicológica, sou capaz de identificar alguns símbolos logo depois que eles aparecem mas outros eu só compreendo anos depois, com muita análise da estrutura da história e caracterização das personagens, e compreendendo muito bem o momento que eu estava vivendo quando escrevi. Um grande número de símbolos permanecem inacessíveis a mim, mesmo depois de todo esse trabalho. Algumas vezes eu consigo identificar que tal elemento é um símbolo, mas não consigo compreender o que ele significa.

É importante destacar que os símbolos não são óbvios. Casar não significa casar; matar não significa matar; personagens masculinas não são necessariamente homens reais; personagens femininas não são necessariamente mulheres reais. A troca de sexo, inclusive, é muito comum, além da mudança de papel social. Dessa forma, meu pai pode se tornar o patrão, minha prima pode se tornar o irmão, meu irmão pode se tornar a mãe, e também meu pai pode se tornar o pai, minha avó pode se tornar a irmã, e todas as possibilidades imagináveis. Eu mesma posso ser a personagem principal masculina ou feminina – às vezes alternadamente, ou simultaneamente as duas – além de estar diluída em todas as outras personagens, sejam homens, mulheres ou crianças.

Há casos também em que uma personagem simboliza várias coisas ao mesmo tempo. Em relação a uma personagem, representa uma pessoa; em relação a outra personagem, representa outra pessoa. Cada função e/ou cada papel da personagem se refere a uma pessoa real diferente, aglutinadas numa personagem que tem papéis sociais diferentes e se relaciona com várias outras personagens.

Fiz este texto propositadamente sem citar nenhum exemplo, fosse de personagem, situação ou história. Essa é a graça de escrever: despejo no papel meu inconsciente sob disfarces simbólicos tão complexos que o leitor só percebe a construção, a literatura, e não tem acesso pleno ao meu EU. Explicar aqui algumas simbologias retiraria delas a magia, e considero exposição excessiva. Seria não apenas me despir mas despir minha alma das máscaras que ela usa para se proteger, e isso é algo que não posso fazer publicamente. Contente-se o leitor em observar pela rótula da porta. Penetrar meu inconsciente é privilégio exclusivo de amigos muito próximos.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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