sábado, 11 de setembro de 2010

ASTROLOGIA, ACUPUNTURA E OUTROS “BICHOS”

Sempre acho tentador tentar descobrir, pelas características, pelo comportamento e pelos gestos, qual o signo das minhas personagens. Nunca o resultado é satisfatório. Como não penso nisso ao construir as personagens, elas acabam tendo características de vários signos – ou de nenhum em especial. Como uma coisa leva a outra, minhas personagens não fazem aniversário. Melhor dizendo, elas envelhecem e fazem anos, sim, mas eu não conto o dia e o mês. Às vezes, eu digo apenas que alguém nasceu no verão ou no outono, mas isso significa pouco para determinar um signo. Uma pequena exceção pode ser feita às personagens que nascem durante as histórias, que às vezes têm uma data de nascimento mais exata. Até para o horóscopo chinês é difícil definir, pois o ano chinês é diferente do nosso ano ocidental. Minhas personagens em geral têm ano de nascimento mas, como não sei se nasceram no início, no meio ou no final do ano, não posso enquadrá-las corretamente no horóscopo chinês. Definir signos para as personagens é uma forma de classificá-las, além de caracterizá-las.

Jorge Luís Borges tem um conto chamado Congresso do mundo, em que as personagens representam categorias de pessoas, e uma personagem pode representar mais de uma categoria ao mesmo tempo. É uma ideia que acho interessante, e que encaixa bem na minha maneira de pensar e organizar as informações por padrões. Assim, Duarte, por exemplo, representa os portugueses que vivem no Brasil, os degredados, os que se casam com índias, os que têm filhos mestiços, os que vivem no Rio de Janeiro, os que moram no Morro do Castelo, os que lutaram com Estácio de Sá em 1567, e tantas outras categorias que expressam suas características e seus feitos.

Nos últimos três anos, venho me envolvendo com a medicina tradicional chinesa (MTC), pois resolvi tratar meus problemas de saúde com acupuntura. Como eu gosto de perguntar e meu acupunturista gosta de explicar, venho aprendendo muito com ele, e por minha conta, fazendo leituras complementares. Tenho usado a MTC para auto-conhecimento, compreendendo como meus problemas de saúde física e emocional estão entrelaçados, o que se torna chave para resolvê-los (pela acupuntura). Levo para meu acupunturista auto-análises de personalidade que o ajudam a escolher os pontos para o tratamento. Minhas análises se baseiam muito nos aspectos emocionais e psicológicos, e eu gosto de analisar também familiares próximos, e chego a conclusões de “tratamento”: Fulana precisa tonificar o rim para melhorar a auto-estima. Beltrano é muito ansioso, é preciso dispersar a energia do baço. Cicrano está com excesso de yang no fígado, por isso está tão nervoso. Então, há algumas semanas, meu acupunturista me emprestou o livro Acupuntura e psicologia, de Yves Requena, que traz, entre outras explicações, uma descrição das cinco constituições e dos seis temperamentos da MTC. Achei muito interessante confirmar que tenho constituição Metal, com um pouco de Terra e de Água. Agora estou lendo sobre os temperamentos e, sem sentir, comecei a associar características dos temperamentos a minhas personagens. Então pensei que posso usar essas características na hora de compor as personagens. Assim, a classificação não será óbvia – como é atribuir às personagens um signo – e eu terei um parâmetro de comportamento físico, intelectual, emocional e psicológico para me guiar, além de algumas características físicas, o que pode até facilitar meu trabalho de composição. É algo que vou experimentar na próxima história que eu criar, quando partir do zero em todos os aspectos. Até lá, já terei organizado as informações e terei estudado-as e compreendido a estrutura principal de cada temperamento, para conseguir criar personagens que se encaixem bem (não pretendo fazer personagens-protótipos) nas características. Ou será que todas as minhas personagens, passadas e futuras, estão para sempre fadadas a ter temperamento Yang Ming como eu?

sábado, 21 de agosto de 2010

RELEITURAS

É preciso reconhecer que muitas vezes não é possível ter todas as idéias originais. Muitas vezes, faço releituras de obras que já existem – livros, músicas, filmes, tele-novelas. Naturalmente não pretendo imitar as obras originais, mas justamente experimentar finais diferentes, mudar o ambiente, alterar aspectos de caracterização das personagens. É algo que comecei a fazer ainda em 1986, e é uma prática que me rendeu 28 histórias, das quais são sobreviventes Nem tudo que brilha..., Amor de redenção e o Ciclo de Kerdeor (Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores). É interessante que muitas vezes o nome da história é também o nome da obra em que foi inspirada – sinal de que quis manter a referência com o original. Vou citar aqui apenas as histórias descartadas, uma vez que a explicação das histórias sobreviventes já foi feita em textos próprios.

Baseadas em filmes, tenho: 1) Viagem à lenda da concha, de 1986, como os filmes juvenis da época, em que grupos de crianças e adolescentes vivem aventuras. Há também uma certa inspiração no livro Viagem ao centro da terra, de Jules Verne; 2) O circo, de 1987, inspirado em Trapézio, de Carol Reed; 3) Luzes da cidade, de 1995, como a de Charles Chaplin; 4) Nunca te vi, de 1988, como o filme de David Hugh Jones; 5) Simultaneidade, de 1995, é baseada em Uma noite alucinante, de Sam Raimi, que eu gravei por engano e assisti em FastForward, procurando o filme que eu queria ter gravado, e baseada em Alone in the Dark, jogo para computador, numa versão para DOS ou Windows 3.1, que eu conheci em 1993.

Baseada em livros, tenho: 1) Alan e as sete brancas-de-neve, de 1986, numa inversão subversiva do conto infantil; 2) Gêmeos, de 1987, inspirado em Os irmãos corsos, de Alexandre Dumas; 3) Rebecca, de 1987, inspirada no livro homônimo de Daphne du Maurier; 4) Crime e Castigo, de 1991, com um final diferente para a trama de Fiodor Dostoiewsky; 5) Senhora, de 1993, como a de José de Alencar; 6) A megera domada, de 1996, baseada em William Shakespeare; 7) A Bela e a Fera me rendeu duas versões, uma em 1996 e outra em 1997. Alterei a caracterização da Fera e a ambientação da história. Gosto do resultado, mas ainda não o bastante para escrever; 8) Europe também tem duas versões, uma de 1994 e outra de 2003, e a fonte é o conto Europe (falta-me o nome do autor!), com uma pitada do filme Como água para chocolate, de Alfonso Arau; 9) Solitário, de 2003, é inspirada na história de Santo Onofre, contada por Eça de Queiroz; 10) Luz, de 1988, se inspirava em David Copperfield, de Charles Dickens; 11) A casa bem assombrada, de 1989; Chuva, de 1986 e A morte não basta, de 1992 são todas baseadas em O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë.

Baseadas em música, tenho 1) Virgem do templo, de 1996, baseada na ópera Norma, de Vincenzo Bellini; 2) I drove all night, de 1994, como o clipe da música de Roy Orbison; 3) Dona, de 1994, inspirada na canção do grupo Roupa Nova.

Baseadas em arte, tenho 1) Desastres da guerra, de 1997, inspirada na série de gravuras de Francisco de Goya y Lucientes.

Muitas vezes, faço essa opção de utilizar uma ideia de outra pessoa para passar o tempo, como uma brincadeira; outras vezes, estou mesmo testando se consigo fazer diferente com a mesma qualidade do que já foi feito (e consagrado). A verdade é que eu invento muito mas escrevo pouco: sou muito crítica com o que faço. Se não fico 100% satisfeita, a história acaba descartada ou, com sorte, fica suspensa, esperando eu modificar até considerar boa.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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