terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS COM MUITAS E POUCAS PERSONAGENS

Outro dia, anotei na minha listagem geral alguns nomes de personagens que estavam faltando em O canhoto. Então tive a ideia de fazer este texto, para refletir se há diferença de tratamento entre histórias com poucas personagens e histórias com algumas personagens principais, várias personagens secundárias e muitas personagens coadjuvantes e figurantes. E também descobrir o que para mim são muitas e poucas personagens.

Naturalmente, os contos e histórias curtas têm menos personagens. E naturalmente também, a história com mais personagens é Construir a terra, conquistar a vida, pois são 25 anos e uma cidade inteira envolvida em 895 páginas manuscritas. São ao todo 72 personagens, incluindo as pessoas reais (jesuítas e governantes que têm alguma fala), divididos em 10 grupos. Tentei contar o número de famílias, mas fica confuso, pois as famílias de Duarte e Fernão, ao longo da história, vão se misturando a outras famílias, com o casamento dos filhos, que se tornam também novas famílias. Então Maria, por exemplo, no início pertence à família de Duarte, e João pertence à família de Manoel Machado mas, ao se casarem, se tornam uma terceira família. Diante disso, cada pessoa representa uma família, ao mesmo tempo que cada casal forma uma família. É mais simples dizer que é muita gente e muitas famílias se entrelaçando, como acontece também na vida real.

Acho que a primeira história que escrevi foi a mais sintética de todas, embora, pela estrutura, não fosse um conto. Havia apenas o casal protagonista e o antagonista. Três personagens e as areias do deserto. Não tenho nada mais minimalista.

A Nova Camelot, que se tornou A volta dos cavaleiros da Távola Redonda, que se tornou O sonho de Richard e que hoje está descartada tem a peculiaridade de ter personagens duplas, uma vez que cada uma é ela mesma e o cavaleiro que foi, e eles agem às vezes como um, às vezes como outro, às vezes como os dois juntos. Comecei com 9 personagens duplas + 2 simples (Richard e Artus), passei para 18 duplas + 5 simples (Richard, Artus e os magos) para terminar com 12 duplas + 4 simples (Richard, Artus e os magos).

Quando escrevi Mosteiro, tinha 21 personagens, organizados em 5 núcleos familiares. Dessas 21, 4 são as mais importantes (Michel a principal e mais 3 secundárias). Ao re-escrever e transformá-la em O canhoto, o número de personagens aumentou para 38 e mais duas personagens ganharam importância. Algumas famílias e grupos sociais também se desenvolveram, chegando ao número de oito.

Outra história com muitas personagens é O maior de todos, com o número de 36. Afinal, toda a corte está envolvida, há nobres e povo, ministros, traidores, crianças que nascem.

Sempre que há muitas personagens, a maioria delas não é desenvolvida. A verdade é que não dá para se trabalhar bem com mais de 10 personagens importantes, pelo menos não em menos de 500 páginas (Construir a terra, conquistar a vida tem 14 personagens importantes e 895 páginas para resolver a vida de todos). Personagens importantes têm aspecto físico, características psicológicas e emocionais, problemas a resolver, conflitos próprios. Quando estou escrevendo a história, vou criando personagens à medida que vou precisando delas, sem pensar no número, e vou desenvolvendo-as quando necessário. Histórias com mais conflitos pedem mais personagens. Por outro lado, histórias com mais personagens me possibilitam criar mais conflitos. No fim, uma coisa gera a outra, às vezes uma precede, às vezes outra, sem regra fixa.

Mas percebi que esse número alto de personagens (mais de 30) é exceção, pois a maioria das histórias sobreviventes tem menos. Como em geral tenho um casal protagonista, acabo ficando com apenas esses dois núcleos familiares e mais um ou dois grupos sociais (ambiente de trabalho, amigos, antagonista, comunidade social, etc). É o que acontece em Fábrica, O Aro de Ouro, Primeiro a honra, Vingança, O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, Amor de redenção.

Em O processo de Ser, tenho só um grupo familiar e alguns amigos – já que um dos temas é o isolamento e a vida interior. Em Nem tudo que brilha... também fui bem sintética, com o casal protagonista, um amigo, dois empregados e a casa misteriosa com seus antigos moradores já falecidos. À procura também é interessante por ter apenas cinco personagens, todos com a mesma importância, todos igualmente desenvolvidos (tudo bem, o guia tem um mistério a mais a desvendar) e eles são um grupo profissional e não familiar. Rosinha vem nascendo com três núcleos familiares centrais e até agora 10 personagens. Quando eu escrever, provavelmente precisarei de outras e, ao desenvolver as que já existem, o número de personagens importantes (atualmente uma principal e duas secundárias) deve aumentar também.

Então, em geral escrevo histórias com menos de 30 personagens no total – tramas simples, sem muitos entrelaçamentos, que se resolvem em 100 ou 200 páginas A4 manuscritas. Mas são justamente as histórias com mais de 30 personagens, mais complexas, mais difíceis de gerenciar – pois é necessário cuidar da gradação de importância entre as personagens principais e entre essas e as secundárias – que são as mais gostosas de se escrever.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PERSONAGENS CARACTERÍSTICAS

Analisando o conjunto das minhas histórias, percebi que tenho grupos de personagens com uma mesma característica. Não que a personagem não tenha outras características, mas em alguns casos há uma mais marcante.

Tenho, por exemplo, personagens tipicamente vingadoras: Ailan, Linart, Rodrigo. São personagens que, por grande parte ou toda a história, têm por objetivo de vida a vingança. É interessante que Linart quer vingar a morte de seu irmão Rodreve, mas Ailan e Rodrigo querem se vingar de violências que sofreram, depois da qual trocaram de nome. Assim, Ailan quer vingar a violência que sofreu quando era Rosala e Rodrigo quer vingar o que sofreu quando era Mário. Como os três são os protagonistas, tenho que confessar que facilito um pouco a vida deles, permitindo que encontrem de novo as pessoas de quem querem se vingar. Se eles conseguem a vingança, não posso dizer, mas eu os ponho frente a frente com os inimigos, para o acerto de contas que, por coincidência, nos três casos, termina com pelo menos um morto. Há vingança e desejo de vingança em outras histórias também, mas nada que caracterize as personagens como nesses três casos.

A outra classe típica é a de personagens criminosas. Chamo-as assim porque erraram conscientemente. Sabiam que o que faziam era errado e fizeram assim mesmo. Também são três: Gustave, Ninette, Roberto. Essas três se destacam, não porque minhas outras personagens não cometam erros, mas porque o fizeram por vontade, de caso pensado. Tenho outras personagens que cometem crimes, mas são criminosos circunstanciais, e não calculados e intencionais como esses três. É bem verdade que a vingança também não é uma atitude que julgo correta mas, no caso dos três vingadores, eu considero que eles têm razão, e até o direito de se vingarem – tanto que escrevi as histórias, para dar a eles oportunidade de se vingarem. Então, embora os vingadores também sejam criminosos – pois a vingança que eles querem executar é crime e eles a buscam conscientemente, planejadamente – eles têm a minha indulgência, pois estão agindo contra culpados, não contra inocentes (embora ninguém seja de fato inocente, mas isso é assunto para outro texto). Criminosos, porém, não têm meu perdão, nem direito a um final feliz. Mesmo quando eles acreditam que ficaram impunes, na verdade perderam o que tinham, inclusive e especialmente a dignidade.

Há também três personagens cuja motivação é a luta pelo poder: Gustave, Ninette, Legrant. Por estarem em duas categorias, creio que seja fácil concluir que Gustave e Ninette não são muito louváveis em seus métodos para alcançar o poder. Legrant não precisa conquistar poder, pois já o tem. Seu desafio é mantê-lo. A partir dele, desenvolvi duas teorias: 1) “o que é não precisa ser provado”. Se ele a todo momento precisa provar que é poderoso é porque não o é de fato e apenas precisa manter a aparência e a ilusão na cabeça de todos, inclusive dele mesmo. 2) “manda mais o que mais se esconde”. Nem sempre o que parece poderoso é de fato o que controla tudo. Às vezes, estar à sombra dá à pessoa uma liberdade de ação que não teria se estivesse à frente, na luz. Daí a dinâmica de poder entre Curt e Karl, que alternam posições de luz e sombra e, consequentemente, de maior ou menor poder.

Cabe aqui a observação de que cada categoria tem três representantes por puro acaso, porque a classificação é bem posterior à caracterização e à escrita. A análise consciente vem sempre depois da criação inconsciente. Além disso, há outras personagens que se vingam, há outras personagens que cometem crimes, há outras personagens subversivas e ambiciosas. Aqui estou destacando apenas as mais características.

E finalmente há a classe de personagens subversivas. São mulheres, na maioria, desde Inês, que desobedece Fernão no século XVI e cozinha o que gosta de comer; até Marie, que busca a verdade, julga Gustave e pretende puni-lo, passando por Ayraci, Ester, Rosala, Caty, e quase todas as outras. Mas a personagem subversiva por excelência é Maurits (mais do que seu ancestral Maurice), que ousou desejar uma utopia e fazer seguidores. Mesmo sem memória e vivendo num mundo que não era o seu, o desejo permanecia vivo nele, influenciando suas ações. É uma subversão de mentalidade, de cunho social mas quase religiosa. A vida dele foi a serviço da subversão, que norteou suas escolhas e seu destino. Foi por causa da subversão que seu nome entrou para a História da Civilização (ops, esqueci que a História não registra as vidas e os feitos das minhas personagens, por mais reais que elas sejam).

Dá até pena listar essas categorias e pensar que destino todos eles tiveram: os vingadores, os criminosos, os ambiciosos, os subversivos, pois eu não acredito em finais felizes.

Receba os textos no seu e-mail

Outros textos interessantes

Um pouco sobre mim

Minha foto
Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

Quer falar comigo? É aqui mesmo.

Nome

E-mail *

Mensagem *

Amigos leitores (e escritores)