terça-feira, 1 de março de 2011

TIPOS DE FINAL

De todas as 306 idéias que tive, 137 são histórias com começo, meio e fim; dessas, escrevi (ou estou prestes a escrever) 54. Elaborei uma tabela com essas 54 histórias para poder comparar e analisar alguns aspectos das histórias e do meu inconsciente. É graças a essa tabela que consigo facilmente informar quantas pessoas morrem, quantas nascem, quem são as personagens vingadoras e as subversivas, e outras tantas informações de categorias e quantidades que dou aqui. Desta vez, resolvi atentar para os tipos de final, já que a minha impressão é de que não costumo fazer finais felizes.

Minha classificação não é assim tão simples (feliz ou infeliz), pois há as nuances “aparentemente feliz”, que na verdade é infeliz; e “feliz embora não pareça”, que parece infeliz mas é feliz. Há também a categoria “trágico”, que deve ser compreendida no conceito da Tragédia Grega “o que não pode ser de outra forma”. Então, num exemplo fictício, se a personagem principal sabidamente tem uma doença terminal e ao final da história ela morre, isso não é “infeliz”, mas “trágico”, pois era uma morte prevista e até esperada. Da mesma forma, se é notório que o casal protagonista, por um motivo qualquer, não tem condições de terminar a história juntos, isso também não é “infeliz”, mas “trágico”. A idéia que temos hoje de tragédia como coisa ruim em si não implica que meus finais trágicos sejam infelizes em si. Ou, dizendo de outra forma, meus finais trágicos são mais infelizes do que felizes, mas não havia como ser de outra forma. Não havia nada que eu, mesmo como criadora, pudesse fazer sem romper com as leis da física, da química e da biologia, sem falar na moral, na ética, e outras leis antropo-sociológicas e filosóficas. Não cabe a mim fazer milagres, nem posso abusar do Deus-ex-Machina. Então resta-me deixar o paciente terminal morrer e não lamentar isso, nem colocar esse fato na minha conta de infelicidade. Quando os finais são felizes ou infelizes (e todas as nuances), eu, como autora, tenho participação neles: fui eu que ajudei os protagonistas a conseguirem ou a não conseguirem o que querem. Eu podia ter ajudado mais ou menos mas decidi que o final seria aquele. O final trágico foge do meu controle, e não depende da minha vontade. Só o que eu podia ter feito e não fiz era botar o ponto final antes e deixar a história incompleta – o que, como escritora, não devo fazer.

Deixando de lado as explicações e partindo para os números: tenho 25 histórias com final “feliz”, 3 histórias com final “feliz embora não pareça”, 2 histórias com final “indefinido”, 7 histórias com final “aparentemente feliz”, 6 histórias com final “trágico”, 11 histórias com final “infeliz”. Somando-se as nuances, juntando os trágicos aos infelizes (já que aconteceu uma tragédia que eu não pude evitar), juntando os indefinidos aos felizes (pois neutro é mais feliz do que infeliz), pode-se finalmente resumir tudo em simplesmente “feliz” e “infeliz”. Dessa forma, percebo que eu, na verdade, tenho mais finais felizes (30) do que infelizes (24). Acho que preciso rever meus conceitos e minha tabela...

LEITMOTIVEN

Ontem reli o último capítulo de uma das minhas histórias de final trágico, em que a personagem principal morre no final. Chorei com lágrimas e soluços, como quem perde a pessoa mais importante em sua vida. É verdade que também chorei muito quanto escrevi, mas já foi há tanto tempo que eu acreditava que o vínculo estivesse mais tênue, e eu fosse me entristecer com lágrimas apenas, não com choro convulsivo. Minha reação emocional significa que a história ainda me agrada, pois reagi como gostaria que os leitores reagissem. Percebi que isso aconteceu não porque ainda estou envolvida emocionalmente com a história e as personagens, mas porque usei corretamente os leitmotiven para trazer de volta à lembrança do leitor certos momentos significativos do passado das personagens.

Leitmotif é uma palavra em alemão que significa “motivo condutor”. O grande nome do leitmotif na música erudita é Wilhelm Richard Wagner (1813-1883). Ele criava motivos musicais (por exemplo, trechos melódicos) para representar suas personagens e temas importantes dos dramas musicais que escrevia. Então, se a personagem está se referindo, por exemplo, ao ouro do Reno, a orquestra ou o próprio cantor estará repetindo o motivo musical (leitmotif) que se refere ao ouro do Reno.

Na minha história, nesse último capítulo, as personagens repetem falas passadas, que se referem a outros momentos, felizes e infelizes da vida de todos eles, fazendo o leitor lembrar do passado, em confronto com o presente, e construindo assim o sentimento de tristeza e perda que eu quero provocar. É um capítulo que retoma o passado e projeta o futuro, sem perder de vista a realidade trágica do presente. Acho que consegui amarrar todas as pontas que ainda estavam soltas, resolvendo, pelo menos em termos de expectativa, a vida de todas as personagens que ficaram. A última palavra do livro é “morte”, porque esse é o fim inexorável de todos nós, habitantes de corpos frágeis feitos de matéria orgânica sujeita à degeneração.

Receba os textos no seu e-mail

Outros textos interessantes

Um pouco sobre mim

Minha foto
Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

Quer falar comigo? É aqui mesmo.

Nome

E-mail *

Mensagem *

Amigos leitores (e escritores)