domingo, 1 de maio de 2011

A FELICIDADE DAS PERSONAGENS

Em outro texto, falei dos meus finais: felizes, infelizes e trágicos, e suas várias nuances. Depois percebi que há ainda um outro tipo de detalhe que interfere na felicidade ou infelicidade das minhas personagens: se elas são felizes com o que querem; ou se deve lhes bastar o que têm; ou se, depois de todas as perdas, precisam se contentar com o que lhes restou. Em alguns casos, nenhuma felicidade é possível (em geral, a personagem principal morreu, então não está mais aqui para ser feliz de jeito nenhum).

Como aconteceu na conta dos finais felizes e infelizes, os números me surpreenderam pois a maior quantidade (19) é de personagens que chegam ao final da história tendo conseguido o que queriam. Em 13 histórias, as personagens não conseguiram tudo mas são felizes com o que têm. Quase empatando com o primeiro caso, as personagens conseguem se sentir felizes com o que lhes resta em 17 histórias. E apenas 5 não são felizes de jeito nenhum.

É interessante cruzar as informações e perceber que, nas histórias com final mais feliz (30), a grande maioria dos casos é de personagens felizes com o que querem (17), enquanto 8 são felizes com o que têm e apenas 5 com o que lhes resta. Já nos finais infelizes e trágicos (24), o predomínio é de personagens felizes com o que lhes resta (12), enquanto 5 são felizes com o que têm, 5 absolutamente não são felizes e 2 personagens em histórias de final trágico conseguem atingir seus objetivos e ser felizes com o que querem – daí aquela explicação de que o trágico não é necessariamente infeliz.

É uma conta bastante interessante, pois significa que, mesmo nos finais felizes, há uma gradação de felicidade, e que a realização plena acontece apenas em 17 histórias (de um total de 54). Então não está de todo errada minha impressão de que eu não faço finais felizes, pois nas outras 13 histórias, mesmo o final sendo feliz, há uma sombra de incompletude, uma mágoa de tristeza lá no fundo. Se formos considerar o conjunto das 54 histórias escritas (ou em vias de escrever), apenas 32% das minhas personagens são realmente felizes, pois chegam ao fim da história com o que querem, num final feliz.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

BLOQUEIO CRIATIVO

Achei interessante a discussão na comunidade Escritores – Teoria literária do Orkut sobre como se livrar dos bloqueios. Um colega sugeriu “escrever sobre o bloqueio” e eu considerei que era um bom tema para um texto.

Em primeiro lugar, acho bom dizer que entendo por bloqueio um momento em que o criador quer prosseguir em sua obra mas não sabe como. Pode ser não saber como continuar ou simplesmente não saber como começar. As soluções que eu posso sugerir para cada caso são: 1) como continuar – releia o que vem antes para retomar o fio da meada e o pensamento que o (a) levou até ali. 2) como começar – comece de qualquer jeito, para revisar depois, ou não comece. Tente elaborar melhor a ideia antes de encarar novamente o branco do papel ou da tela do computador.

Bloqueio criativo é algo que todo mundo já teve, em algum momento. É bastante inconveniente quando se tem prazo de entrega. Fora isso, o bloqueio é o sinal de que está na hora de interromper a produção para momentos de ócio e descanso. A mente preocupada não consegue produzir. Em vez de ficar ansiosamente procurando uma resposta, simplesmente deixe de lado a pergunta. O cérebro continuará trabalhando, mas “em segundo plano”. É por isso que a mente descansada encontra as melhores respostas: porque o “primeiro plano” está se divertindo, enquanto o trabalho está sendo feito no “segundo plano”, quase a nível inconsciente. E o inconsciente, com seu presente perpétuo e o arquivo de sensações que muitas vezes nem se tornaram conscientes, é muito mais rico em experiências do que o consciente seletivo, organizador, rotulador e dominador.

Muitas vezes comecei uma história e não consegui prosseguir, e tive que abandonar minha boa idéia por causa de um bloqueio insolúvel. Era algo muito comum no início mas que se tornou raro quando eu passei a estruturar toda a história primeiro, com uma espécie de listagem dos principais eventos desde o início até o final. Dessa forma, o bloqueio, se houver, será apenas de palavras, mas não de idéias – e em geral eu não tenho bloqueio de palavras, porque gosto de usar as mais simples, da forma mais direta e descomplicada possível. Ultimamente, repasso todas as cenas mentalmente várias vezes, escolhendo as melhores falas, as palavras da narração, de forma que, ao pegar a caneta, minha dificuldade é conter a velocidade com que as palavras saltam para o papel. Eu troquei o trabalho braçal por trabalho mental. E estou livre dos bloqueios.

Ah, bloqueios na hora de criar? Sim, todo mundo tem. Mas eu não ligo para eles, não. Aprendi a testar possibilidades, avançar e recuar, fazer a mesma cena inúmeras vezes, alterando gestos e falas, até encontrar a melhor solução. Se uma cena não anda, passo para outra, volto para trás, vou mais para frente, troco a cena que está dando problema, mudo tudo. Não posso é parar a história – que eu já sei como vai caminhar e como vai terminar – por causa de um bloqueio inútil.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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