sexta-feira, 1 de julho de 2011

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 1 MÊS

Faz exatamente um mês que estou escrevendo meu novo romance (Rosinha). Comecei pela contextualização da época, do local, da situação social e econômica; apresentei o casal principal e o relacionamento entre eles; também já inseri o mot da história: ele quer ir trabalhar em São Paulo para melhorar de vida. Acho que fiz de um jeito interessante, partindo do contexto mais abrangente até chegar ao problema pessoal da personagem principal.

Comecei a narração na década de 1870, apresentei as personagens em 1913 e estou chegando a 1915, quando há o primeiro ponto de virada importante na história. Há dois aspectos a comentar aqui. O primeiro é o estilo cinematográfico da introdução, como se uma câmera estivesse longe e viesse se aproximando, enquanto o tempo passa, para focar no meu casal, conversando à sombra de uma árvore. O segundo aspecto é essa questão do Ponto de Virada. Ano passado, encontrei na Internet um texto explicando como um romance deve ser estruturado, numa espécie de "fórmula dos Best Sellers". Segundo esse texto, uma história deve ter cinco pontos de virada; o primeiro deve acontecer a 10% do desenvolvimento do texto e o segundo a 25%. Ora, por mais que eu tenha toda a estrutura elaborada antes de começar a escrever – e essa história em particular tenha mesmo cinco pontos de virada previstos – eu não sei se o primeiro ficou em 10% e se o segundo vai cair em 25%. E depois que eu coloco os pontos de virada nos lugares deles, eu não posso ficar movendo “mais pra lá” ou “mais pra cá”, para que fiquem na posição “ideal”. É por isso que eu não gosto de fórmulas prontas, e minhas histórias não serão amoldadas por força a nenhuma estrutura pré-estabelecida que alguém (o mercado? os críticos?) decidiu que é a melhor. Fazer sucesso renunciando ao meu estilo e aos meus procedimentos é algo que não está nos meus planos. Mas não quero entrar em detalhes quanto às imposições do mercado editorial. Melhor falar da minha história.

Já percebi que não fiz descrições. Minhas personagens são tão comuns que eu esqueço que preciso dizer isso em algum lugar. Pelo menos já identifiquei a falha, e encontrei os pontos em que vou inserir as descrições, então vou resolver logo isso, para não ficar devendo para a hora da revisão.

Então estamos chegando a 1915, o primeiro ponto de tensão, quando Toni terá que decidir entre enfrentar a família e afastar-se de seu amor para viver seu sonho e tentar mudar seu destino; ou aceitar seu destino, renunciando a seu sonho, para ficar em paz com sua família e junto de seu amor. Será que ele vai escolher a dificuldade ou a tranquilidade?

terça-feira, 21 de junho de 2011

EXÍLIO

Refletindo sobre O canhoto, percebi aspectos interessantes e recorrentes nas minhas histórias. Percebi que muitas vezes alguma personagem precisa enfrentar algum tipo de exílio, em geral injustamente, mas esse exílio é o afastamento necessário para o amadurecimento da personagem: sair de si para se encontrar. Ao enfrentar uma situação-limite, a personagem é afastada do mundo, isolada, para que supere suas dificuldades emocionais e possa voltar ao mundo mais fortalecida e preparada para resolver seus problemas.

O local de exílio preferido é algum tipo de deserto, inabitado, de forma que a personagem possa ficar a sós consigo mesma (solidão) para encontrar seu caminho de crescimento pessoal, como acontece com Lucas, Ilya, Isabel (Nem tudo que brilha...), e Mário. Outras vezes o exílio se configura por a personagem simplesmente estar afastada de seu ambiente habitual e doméstico, que é o que acontece com Duarte, Rosala, Nicolaas e Caty. São exílios quase auto-impostos, embora não desejados pelas personagens – são o afastamento necessário para o amadurecimento, e a personagem se mantém nele até que tenha condições de solucionar seus problemas e voltar – ou não.

Nas 54 histórias que escrevi (ou estou escrevendo), 30 personagens enfrentam o exílio (o mesmo grupo no mesmo lugar ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo conta como uma personagem). 17 são isoladas num lugar deserto, e 13 são simplesmente afastadas de seu ambiente habitual. Dessas 30 personagens, 20 retornam a seu mundo para resolverem seus problemas mas 8 passam tanto tempo exiladas que, pela impotência em saírem do exílio, são forçadas a construir suas vidas ali – e alguns chegam mesmo a ser felizes, como é o caso de Duarte, exilado de Portugal, e que construiu o Rio de Janeiro, sua nova terra, para poder conquistar uma vida melhor. Há ainda dois casos em que a personagem volta para resolver assuntos pendentes (Vingança e Rosinha) mas na verdade já têm sua vida construída no exílio.

Quando a personagem retorna, ela nunca volta ao ponto exato de onde saiu, pois a realidade está diferente e ela mesma está diferente, mais madura e fortalecida. Então, mesmo quando há o retorno, é necessário reconstruir a própria vida, dentro da nova realidade dela e do mundo.

Embora o exílio seja injusto e não desejado (apesar de necessário e auto-imposto), minhas personagens não o temem, mas enfrentam com coragem, confiantes em que conseguirão superá-lo, ou resignadas por agora fazerem parte daquela situação desagradável – e é essa coragem que permite a elas amadurecerem para poderem voltar, ou construírem uma nova vida no ambiente do exílio. Tenho orgulho de dizer que essa coragem de todos eles é minha. Coragem de amadurecer, coragem de enfrentar novas realidades, coragem de mudar sempre que necessário, para me tornar uma pessoa melhor.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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