sábado, 1 de outubro de 2011

AMADURECER O AUTOR

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, não existia computador pessoal, e a Internet ainda era uma admirável forma de comunicação entre universidades e talvez alguma outra instituição ou empresa. As chances de você encontrar um colega escritor – iniciante ou experiente – eram bem escassas. Para agravar meu isolamento, eu morava em São Luís – MA e, embora se diga que “quem dorme em São Luís acorda poeta”, eu não tive o prazer de conhecer nenhum escritor nos cinco anos em que morei lá. Além do mais, eu era uma adolescente tímida, com muito pouca vida social, e não me lembro de eventos literários acontecendo na cidade.

É bem verdade que, aos 18 anos, eu estava no Rio de Janeiro, cursando Educação Artística e participando de tudo o que podia: vernissages, exposições, palestras, peças de teatro, filmes, óperas, concertos. Mas era difícil encontrar os pares literários. Autores experientes dão palestra mas, em geral, não se interessavam por ouvir uma adolescente principiante.

Mas essa historinha é para dizer que eu não tinha outros escritores a quem mostrar meus primeiros escritos, como vejo acontecer hoje, graças à Internet. Minhas amigas queridas adoravam tudo o que eu escrevia (ou não) mas não tinham experiência nem de vida nem de literatura para me indicar falhas, defeitos, incoerências, erros. Eu tive que aprender sozinha. Em 1989, quando eu fiz a primeira avaliação dos meus textos, eu percebi como eu havia melhorado, como eu estava mais experiente e amadurecida, e como muitos textos não resistem ao tempo, enquanto outros – os melhores, é claro – só precisam de ajustes para continuarem sendo considerados bons.

Quero dizer com isso que o que me fez chegar onde estou não foi a crítica alheia, mas a minha própria crítica. Então, quando hoje vejo novos escritores pedindo comentários dos outros, fico pensando se a opinião externa é assim tão importante. Isso porque os leitores podem até apontar algumas questões pertinentes, mas cabe ao escritor refletir sobre suas fraquezas e encontrar seu caminho sozinho. Amadurecer é um processo solitário, como comer, sentir, nascer, morrer. Ninguém pode fazer isso por você e, se você não estiver pronto, nenhuma opinião externa vai ajudar. Crescer é um processo lento e sofrido, e algumas pessoas não suportam a dor – por isso não conseguem crescer. Dói olhar para trás e ver que muito do que eu fiz era ruim. Dói descartar vidas que eu vivi, filhos queridos que tão boa companhia me deram. Mas, se a trama é inconsistente, se a caracterização das personagens é falha, se o texto não foi bem trabalhado – e agora sou capaz de perceber tudo isso! – então não adiante mantê-las com vida. Aos poucos, a gente aprende também a superar as perdas; a levantar após cada queda e seguir adiante; a amar os mortos porque um dia estiveram vivos, em vez de lamentar por não estarem mais vivos.

Essa é a minha trajetória. Aprendi apanhando de mim mesma; lendo e relendo meus textos e criticando-os mais severamente do que qualquer leitor faria; escrevendo e re-escrevendo, quase doentiamente, até que meu público-alvo (eu mesma) ficasse satisfeito com o resultado.

Sorte de quem está começando agora ter a Internet tão cheia de grupos e oportunidades, e poder encontrar pessoas com quem trocar idéias e leitores que indicam pontos inconsistentes a serem melhorados. Com essa ajuda, esses jovens poderão re-escrever mais, e assim alcançar mais cedo um bom nível de maturidade. É claro que precisam ser humildes para aceitar a opinião de outra pessoa, precisam refletir sobre as questões apontadas e buscar as melhores soluções. Mas não basta mudar uma passagem porque alguém falou. Não. É preciso compreender porque foi feito daquela forma, como corrigir (se for o caso) ou como justificar que tenha sido feito daquele jeito; e como evitar o erro (ou aprender a justificá-lo) no futuro. Não tem jeito: amadurecer é um processo individual e solitário.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AMADURECER O TEXTO

Tenho muita desconfiança das pessoas que acabam de escrever um livro e já saem procurando publicação – quando não publicam os capítulos em seus blogs particulares, à medida que vão escrevendo. Eu não consigo. Não considero que o texto esteja pronto quando se põe o ponto final. Acho que essa é a hora em que o trabalho vai de fato começar. Acho que nesse momento estamos diante de um diamante bruto, que ainda precisa ser bem lapidado e polido para que se torne um brilhante da melhor qualidade.

Ultimamente tenho visto alguns textos de colegas de comunidades que parecem exatamente isso: belos diamantes, mas em estado bruto. A pressa na publicação e no retorno dos leitores (“comentem por favor”) faz que os textos sejam publicados até com erros de digitação e gramática. Às vezes a compreensão da mensagem fica prejudicada por um texto truncado, mal pontuado e mal explicado. Acredito que na maioria das vezes isso acontece porque o botão “Publicar” é apertado antes que o autor releia o que digitou. Isso é muito grave, pois essas pessoas estão considerando que seus textos recém-escritos estão prontos: que seus diamantes são brilhantes. Então recebem comentários vagos de “que lindo”, ou “adorei”, ou o extremo oposto “que porcaria”, ou “aprenda português antes de escrever”. Quando eu comento, procuro apontar as inconsistências, e que há erros de português. Às vezes são coisas simples, que bastava o autor reler para corrigir. Então essa pressa expõe o autor ao público com um texto que ainda não está pronto, que ainda tem muito o que melhorar.

Quem faz isso, em geral, são pessoas que estão começando agora, e estão ainda procurando seus caminhos e descobrindo o próprio estilo. É preciso não apenas ler, mas reler, re-escrever, afastar-se do texto para depois retomá-lo, analisar sintaticamente e estilisticamente, procurar clichês e sempre que possível eliminá-los, afastar-se novamente, retomar, analisar tudo de novo, buscando sempre aproximar o texto da perfeição.

Nossa, mas isso é trabalho para meses! –alguém poderia observar. E eu respondo: SIM! Todo o processo de criação, escrita e amadurecimento pode levar na verdade ANOS! E então eu pergunto: há algum problema nisso? Você não gosta do seu texto? Quer livrar-se dele o quanto antes? A publicação no Brasil é difícil, então é melhor você chegar na editora com um texto que encante o editor e não dê trabalho para virar livro.

Sei que minha escolha é um pouco extrema, pois posso levar meses elaborando e fazendo a pesquisa prévia; depois posso passar mais de um ano escrevendo; depois de pronto, o texto fica guardado por um ano (o tempo que eu preciso para esquecê-lo), e só depois eu releio, avalio, analiso, digito re-escrevendo, releio, e ele fica guardado até chegar a vez de ser publicado. Enquanto isso, continuo relendo, corrigindo, re-escrevendo o que for necessário. Acho que eu me sentiria confortável em procurar publicação para um texto meu somente um ano depois de tê-lo digitado, pois minha fase de polimento só começa após a digitação. Isso significa pelo menos dois anos depois do ponto final. Por sorte (na verdade, por circunstâncias várias), tenho uma longa fila de publicação e meu próximo livro a ser publicado (A noiva trocada) foi escrito em 1996 e vem sendo lapidado e polido desde então, o que me deixa tranqüila de que ele está mesmo pronto para ser publicado.


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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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