terça-feira, 1 de novembro de 2011

CONTEXTUALIZAR

Estou adorando estudar sobre a Greve Geral de 1917, e fazer minhas personagens participarem desse momento tão importante da História de São Paulo – e que refletiu em outros estados do país. É uma pena que esse evento não seja bem estudado nas escolas de outros estados (ao menos eu não lembro de ter estudado), pois mostra como nem sempre os brasileiros tiveram “sangue de barata”, mas já foram capazes de ir para as ruas brigar (literalmente) por seus direitos. Conhecer o fato é uma coisa. Mas como usá-lo na história?

Greve no Crespi? Uma personagem trabalha lá. Barricadas nas ruas? Tenho personagens lá. O enterro do operário? Minhas personagens estiveram presentes. Edgard Leuenroth? Sim, conheço, muito amigo de uma personagem minha. E assim entrelaço a minha história na história de São Paulo, a ponto de (ao menos para mim) se tornar inconcebível o evento acontecer sem a participação das minhas personagens.

E como fazer esse entrelaçamento de forma interessante e informativa, mas sem cair no didatismo maçante? Eu uso diálogos. Em vez de narrar “os operários queriam isso, isso e isso”, faço Toni perguntar “mas afinal o que é que vocês querem?”, para que um colega de pensão responda “isso e isso”, e outro complete “e isso também”. Assim, estou dando a informação de que o leitor precisa para conhecer o fato histórico mas, uma vez que ponho o texto na boca das personagens, dou a ele mais movimento e mais vida, e o fato histórico passa a fazer parte da minha ficção. Em vez de narrar “os operários eram explorados e trabalhavam até 14h por dia, incluindo mulheres e crianças”, eu faço um dos rapazes dizer algo como “É uma exploração! Perto de onde eu fico, há duas meninas, uma de dez e outra de doze anos. Lá, nós trabalhamos doze horas por dia, mas tem fábrica em que os operários trabalham até 14h por dia. Isso é um massacre!” para depois Toni responder “Isso não é vida. Alguém tem que fazer alguma coisa”. E assim a conversa política prossegue e eu vou apresentando os fatos: os colegas operários contam a Toni como é a vida deles, explicando ao leitor a motivação da Greve Geral, e tudo o que aconteceu naqueles dias em que expus minhas personagens ao ideal da Anarquia.

Achei na Internet um mapa que situa os pontos dos conflitos, das passeatas e os marcos mais significativos. Posso contar nome de bairros, nomes de ruas, nome das fábricas. Me aproprio da História.

Estou muito orgulhosa de meus estudos, pois já sei onde ficam muitos bairros de São Paulo. Quando ouço, no rádio ou na televisão, alguém citar algum bairro (desses mais antigos que estou usando na história), já me vem à mente meu mapa de bairros, e eu consigo visualizar onde ele fica. Aprender é muito bom, especialmente porque eu me sentia em dívida com São Paulo, por saber tão pouco sobre sua história recente e geografia, por não conhecer bem a cidade, e por nunca ter situado nenhuma história lá. Ao final da história, terei resolvido duas dívidas, e só restará pegar um ônibus aqui para ir passear em São Paulo sem precisar de mapa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ANTES DE COMEÇAR – O PROJETO

Eu sempre preciso fazer muita pesquisa antes de começar a escrever, porque preciso conhecer em detalhes o local e a época em que resolvi ambientar a história. Isso não significa que eu vá usar todos os detalhes na história, mas eu preciso conhecê-los para me sentir à vontade para criar. Eu desenhei mapas de Brugge (para O canhoto) e do Rio de Janeiro (para Construir a terra, conquistar a vida), como estou agora fazendo com São Paulo (para Rosinha), retirando partes modernas e tentando reconstruir o que havia na época das histórias.

O estudo do ambiente acontece em paralelo à construção da história, pois é necessário enquadrar a caracterização das personagens e a sucessão de eventos ao contexto escolhido. O nome de Antônio só me veio à cabeça quando eu resolvi aproveitar o contexto da imigração italiana do final do século XIX às minhas personagens. Assim, uma coisa influencia a outra, e todas juntas constroem a história do jeito que eu quero contar.

As idéias vêm de toda parte e de lugar nenhum (como já contei) e à medida que vou caracterizando as personagens, a trama prossegue, e vice-versa, até um momento de impasse, que me faz descartar a história, ou até o final do jeito que eu quero. Mesmo tendo encontrado um bom final, eu procuro outros finais possíveis, para me assegurar de escolher o melhor deles. Para isso, às vezes é necessário recuar e alterar eventos que estão mais próximos do meio do que do final. Não importa, eu gosto de testar possibilidades.

Tendo a estrutura da história e a caracterização das personagens, preciso aprofundar o estudo da ambientação, inclusive tentando descobrir fatos históricos que eu possa incorporar à minha história para acrescentar verossimilhança. Por exemplo, eu não posso deixar de citar na história que estou escrevendo agora (Rosinha) o surto de Gripe Espanhola de 1918, nem o dia mais frio da história de São Paulo, que também aconteceu em 1918. Assim, entrelaço a minha ficção na história real da cidade (e do estado) de São Paulo.

Muitas vezes, outras pesquisas, além da histórica, também são necessárias. Desta vez, quis conhecer melhor o processo de colheita e beneficiamento do café, já que os primeiros anos da história se passam numa fazenda de café. Para O canhoto, precisei estudar psicologia para entender se era possível a amnésia de Maurits, e que fatores eram necessários para que a amnésia fosse possível. Foi muito bom porque ajudou inclusive na caracterização da personagem e na estruturação dos eventos passados e futuros.

Quando tenho todas essas informações, e a certeza de que há uma boa história a ser contada, então vem a parte trabalhosa: pegar papel e caneta e começar a escrever.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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