sábado, 1 de março de 2014

A VOZ DAS PERSONAGENS

Eu prezo muito a correção gramatical, e tomo certos cuidados no trabalho com meus textos: evito repetição de palavras no parágrafo; evito aliterações; certifico-me de que as frases estão completas, com sujeito, verbo e complementos, corretamente ordenados e pontuados; entre outros detalhes igualmente importantes para que o texto fique estilisticamente bom.
Esse perfeccionismo acaba na hora de fazer os diálogos. Eu, o narrador em terceira pessoa, não posso cometer erros gramaticais, nem usar linguagem coloquial. Mas as personagens podem cometer erros e devem usar linguagem coloquial. Então, enquanto o narrador diz “Toni pegou-a ao colo e levou-a para o outro lado”, uma personagem estaria sugerindo “Vai lá, pega ela no colo e leva ela pro outro lado”. O narrador não deve ter a mesma voz que as personagens, e os diálogos (as personagens) não podem ter a mesma voz que o narrador em terceira pessoa. Um costuma ser mais formal e o outro deve ser totalmente informal.
Tenho visto, em sites com as famosas “dicas” para escrever, a informação de que diálogos são difíceis de se fazer, pelo grau de informalidade e naturalidade que devem ter. Ora, é justamente por isso que é tão fácil se escrever diálogos! Ponha-se na pele da personagem e desande a conversar, ora bolas! Imite o sotaque de sua personagem, faça seus trejeitos. Incorpore: os diálogos serão informais e naturais.
Outro dia, escrevendo De mãos dadas, fiz um diálogo em que, a certa altura, Toni diz: “Lá na empresa, eu faço a diferença. O que eu faço lá ninguém mais faz e isso me faz muito bem”. Assim que reli a primeira vez, meus sensores já detectaram faço-faço-faz-faz e meu primeiro impulso foi riscar e corrigir, escolhendo três verbos diferentes para trocar. Mas logo freei a mão, ao lembrar de que Toni não está lendo e escrevendo: ele está falando! Mais: ele está argumentando! Ninguém pensa em elegância de estilo quando defende seu ponto de vista verbalmente. Ainda mais que Toni estudou apenas o mínimo necessário para fazer seu trabalho. Ele não é um intelectual, menos ainda um erudito. O gosto dele para leitura é no nível do senso-comum, sem nenhum refinamento. Ele nem gosta de poesia. Nem sei se ele lê o jornal do dia. Então, se eu corrigisse as repetições da fala dele, o resultado seria artificial e arriscaria até ser pedante. Poderia ficar assim: “Lá na empresa, eu sou o diferencial. O que eu realizo lá ninguém mais faz, e isso me agrada muito”. Sem repetições, mas não é o meu Toni falando. Então, ao mesmo tempo em que eu me esforço para narrar “Entregou-lhe o livro pedido” (ênclise correta), minhas personagens pedem “Me dá aqui esse livro” (próclise no lugar errado).

O segredo para dar a voz correta às personagens nos diálogos é bem simples: o autor precisa saber vestir muitas peles; pensar, sentir, agir e falar como cada uma de suas personagens, de preferência todas ao mesmo tempo. E precisa saber sair de todas essas peles na hora de usar um narrador em terceira pessoa. No começo, pode não ser fácil de se fazer mas, depois que se pratica, os diálogos se tornam a parte mais simples e prazerosa de se escrever.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

EM COMUM

Neste ano de 2014, continuo envolvida com Construir a terra, conquistar a vida e De mãos dadas. São minhas maiores histórias, e parei para pensar se elas têm em comum algo mais do que o número de páginas.
Sim, alguns elementos estão presentes nas duas histórias:
1)     são ambientadas no Brasil. Acho que gosto de falar da história do meu país.
2)     São romances históricos (conferir a definição que utilizei aqui), o que significa que os fatos históricos fazem parte da história das personagens, e interferem nos rumos do que estou escrevendo.
3)     As personagens vivem em cidades que hoje são importantes e capitais de seus estados – Duarte no Rio de Janeiro e Toni em São Paulo.
4)     São histórias de longa duração – Construir a terra, conquistar a vida leva 25 anos e De mãos dadas, 15 anos.
5)     Duarte e Toni são pessoas simples, do povo, interessados em trabalhar e ganhar seu sustento
6)     Duarte e Toni não se envolvem em questões políticas, mas são envolvidos pelos eventos históricos de suas cidades, e participam deles de alguma forma (Duarte mais ativamente do que Toni, que é levado)

É claro que nada disso explica o grande número de páginas de ambas, pois O canhoto também é um romance histórico de longa duração (sete anos), com um protagonista do povo envolvido meio contra-vontade nos fatos históricos de sua época. Mas também não estou procurando justificativa para nada. E o motivo de tantas páginas é muito simples: algumas histórias são maiores do que outras mesmo, e não há nada de mais nem em ser grande nem em ser pequena.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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