sábado, 21 de março de 2015

OS FEIOS

Não gosto de personagens deslumbrantemente bonitas. Lembro que, quando comecei a escrever, todo mundo era príncipe ou princesa, e minha mãe chamou à atenção a inconveniência dessa coincidência. Imaginário de contos de fadas começa a criar assim. Aos poucos, fui conseguindo fincar os pés no chão (pelo menos um pouco) e começar a inventar personagens que são pessoas comuns. E pessoas comuns não são nem feias nem bonitas; são simplesmente comuns. Aprendi a colocar a beleza das personagens não nelas mesmas, mas nos olhos de quem as vê. Então tenho poucas personagens realmente bonitas – nem me ocorre o nome de nenhuma para citar aqui. Quando vou descrever as personagens, acabo falando de poucos detalhes, só do que realmente faz diferença para a história. Porque não importa se a personagem tem olho castanho ou azul: ela enxerga do mesmo jeito. Me prendo mais em cores do que em formas, e na maneira como as personagens usam seus atributos físicos – por exemplo, cabelo curto ou comprido, solto ou preso. Mas se isso for importante para a história, se ajudar a compor a personalidade da personagem.
Minha "feia" mais famosa é Inês, tida por feia inclusive pelo pai, pelos filhos e por ela mesma, mas cuja aparência muito encanta Fernão, o marido. Na verdade, é o que importa: que a beleza esteja nos olhos da pessoa certa.

quarta-feira, 11 de março de 2015

DE ONDE VÊM AS PERSONAGENS?

Nesse último mês de dezembro, li o livro A personagem, de Beth Brait (Série Princípios da Ed. Ática, 2006). A parte que eu mais gostei foi o último capítulo, quando escritores tentam explicar como é o processo pessoal de criação de suas personagens. Foi muito válido para eu tentar perceber e registrar  em palavras meu próprio processo.
Eu diria que minhas personagens nascem de dentro para fora. No início, a personagem é um sentimento, um desejo, um ideal que aos poucos vai ganhando corporeidade. Em primeiro lugar, ela ganha um objetivo a alcançar e, em decorrência, características de caráter que a façam ter sucesso de forma fácil ou difícil. Depois vêm os obstáculos e ajudas, que acrescentam à personagem outras características. Sim, a trama ajuda a formatar a personagem. No meu processo, uma não existe sem a outra. Só depois que a história existe e se sustenta é que eu vou completar as características da personagem: idade, época em que vive, onde nasceu, onde mora, estrutura familiar, papel na sociedade. E só quando ela começa a se relacionar com as outras personagens é que vão se definindo os gestos, os trejeitos, as características mais peculiares, que distinguem aquela personagem de suas companheiras de história. A última, bem última coisa que se forma é a aparência física da personagem – e essa, por ser de convivência mais recente, eu muitas vezes esqueço de contar ao leitor, no livro. Acabo enfatizando mais as características emocionais, psicológicas, sociais, motivacionais da personagem do que sua aparência física.

Gostei de fazer essa reflexão. A forma como construo as personagens é algo que eu fazia sem pensar no processo. Tomar consciência dos processos me ajuda a compreender melhor como minha mente trabalha. É realmente fascinante.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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