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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

AULA DE TÉCNICA HISTÓRICA

Aprendi a fazer romance histórico com o livro Scaramouche, de Rafael Sabatini. Faz quase trinta anos que li (e ando morrendo de vontade de reler) e ainda lembro da primeira frase, que sintetiza o caráter do protagonista, André Louis Moreau: “Nascera com o dom de rir e a ideia de que a humanidade é louca” – ou algo parecido.
O livro foi escrito em 1921 e ambientado durante a Revolução Francesa (1789-1793) e esse lapso temporal entre a época de escrita e a época da ação é fundamental para a conceituação de um romance como histórico. Sabatini foi brilhante ao intrincar sua história fictícia aos eventos históricos que derrubaram a monarquia na França. André Moreau participa dos acontecimentos, encontra as pessoas reais e interage com elas. Não interessa muito se as pessoas fizeram aqueles gestos ou falaram aquelas palavras: Sabatini criou dentro das características dessas pessoas conforme registrado pelos estudiosos, então elas são totalmente reais, verossímeis.
Embora eu me considere uma boa aluna, essa construção interligando realidade e ficção não é fácil de fazer. Eu comecei a tentar fazê-la nos meus romances em 1991 (já com seis anos de prática de escrita), no romance Uma antiga história de amor no Largo do Machado mas só consegui fazer que minhas personagens andassem por uma cidade real com pontos de referência existentes. O marco importante é Construir a terra, conquistar a vida (1996), em que minhas personagens participam ativamente dos eventos da história da cidade e interagem com pessoas que existiram de verdade. Mas ainda não era o intrincamento que eu consegui fazer em De mãos dadas (2009). Toni não apenas participa dos eventos mas também é arrastado por eles, como num turbilhão incontrolável. Diferente de Duarte, que constrói os eventos com seus concidadãos, Toni é vítima dos acontecimentos. Duarte esforça-se para participar da História, enquanto Toni quer escapar dela para apenas trabalhar e viver em paz.

Acho que agora aprendi realmente a lição do mestre Sabatini. Mas não sei quando terei oportunidade de praticar novamente, pois a história de Rodrigo, que estou escrevendo agora, não pede esse tipo de estrutura histórica, nem a história que pretendo escrever em seguida, que vou chamando de Amnésia até dar-lhe um título. Mas, quando eu tiver uma outra trama histórica para escrever (e isso não quer dizer ambientar a história no passado), eu já sei que ferramentas usar para interligar ficção e realidade. Obrigada duas vezes, Rafael Sabatini: pela experiência prazerosa que tive ao ler Scaramouche, e pela aula de como fazer um romance histórico.

domingo, 21 de junho de 2015

SOBRE A ESCRITA

Acabei de ler (pela segunda vez, tomando notas) Sobre a escrita, de Stephen King. Fiquei encantada com a forma simples e despojada de ele falar – sim, o texto parece uma conversa entre amigos. E adorei o conteúdo, em parte porque concordo com ele em muitas coisas – e é muito bom ouvir seu pensamento polêmico na boca de alguém famoso, porque isso para mim significa que estou no caminho certo – e em parte para organizar meu método e acrescentar o que falta. Quem sabe assim não consigo saltar de “escritora competente” para “boa escritora”? e finalmente ter meus livros publicados e lidos em quantidade.

A pior parte é ler os “do” e “don’t” (“faça” e “não faça”) e estar coma história mais recente ainda fechada numa caixa. Ele recomenda escrever um livro em três meses e depois passar seis semanas em tempo de espera, para o escritor esquecer o que escreveu e para o texto amadurecer (exatamente o termo que eu uso). Para mim, seis semanas é pouco. Minha memória é muito boa e às vezes nem um ano inteiro (o meu tempo de espera) é o bastante para que eu esqueça falas inteiras de algum trecho mais marcante da história. Ah, e eu adoraria poder escrever um livro em três meses. Se eu tivesse três ou quatro horas por dia para essa atividade (como ele recomenda e os escritores profissionais têm), eu certamente faria um livro de 300 páginas em três meses (escrevi as 160 páginas de O maior de todos em 40 dias: estava de férias e passava o dia escrevendo). Então, ao ler os “do” e “dont’s” do amigo Steve, minha vontade é pegar De mãos dadas de dentro da caixa e conferir se fiz o que ele recomenda. Mas isso só será possível em novembro. Enquanto isso, vou conferindo esses pontos nas histórias mais antigas que ainda não foram publicadas. Lá vou eu incrementar minhas revisões... e isso é ótimo!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

É PRECISO SOBREVIVER À AÇÃO DESCENDENTE

Ação descendente é tudo o que acontece depois do clímax de um romance. É importante e necessária para amarrar todas as pontas que foram abertas durante a ação ascendente e para trazer o protagonista de volta a uma situação de repouso, como a que havia no início do romance. Afinal, a estrutura de um romance, em geral, é: estava assim (apresentação), aconteceu tudo isso (ação ascendente), resolveu (clímax), ficou assim (conclusão). A ação descendente é justamente a construção do “ficou assim”.


Bem, se é importante e necessária; se faz parte da estrutura do romance, qual é o problema: O problema é que, em geral, o ponto mais interessante do romance é o clímax, e toda preparação para se chegar ate ele. Passado o clímax, o romance meio que perde a razão de ser e o interesse – não só para o leitor mas também para o escritor. Então é um desafio para o escritor continuar interessado em contar a história de forma interessante para o leitor.

Uma maneira possível de manter esse interesse é criar micro-problemas que se solucionam em seguida e são ao mesmo tempo cenas de amarração de pontas. Foi o que eu fiz com De mãos dadas, que tem 132 páginas depois do clímax – uma longa ação descendente. Depois do clímax principal, fiz um clímax secundário e depois 30 páginas só para organizar de novo a vida de Toni e chegar à cena final. Se não crio outros pequenos conflitos, não ia conseguir chegar ao fim.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

FERRAMENTA

Alguém consegue imaginar um cirurgião – recém-formado que seja – declarando que gosta muito do que faz mas que não sabe usar muito bem um bisturi? Como confiar num dentista que comete grandes erros com a broca? Quem encomendaria a confecção de um armário a um marceneiro que se atrapalha para usar a serra? O mínimo que se espera de um profissional é que saiba utilizar suas ferramentas de trabalho. O bisturi é ferramenta do cirurgião; a broca é ferramenta do dentista; a serra é ferramenta do marceneiro. Da mesma forma, a língua é ferramenta do escritor. Como aceitar que escritores – iniciantes que sejam – não saibam usar muito bem o português? Ou que cometam grandes erros gramaticais? As editoras fazem revisão? Sim, mas os revisores devem corrigir os deslizes que passaram despercebidos. Não é função dos revisores reescrever frases inteiras, nem reestruturar o texto, para que faça sentido. Afinal, como fica a questão da autoria? Reescrever tem tanto valor quanto escrever. Ser escritor não é apenas inventar excelentes histórias; é principalmente trabalhar a linguagem para contar essas histórias. Quem inventa bem é inventor. Para ser escritor, é preciso escrever bem. A língua, as palavras, com sua sintaxe e semântica, são nossa ferramenta principal, a matéria prima com que construímos universos, reconstruímos épocas, e contamos as histórias de nossos protagonistas.
Dúvidas existem (sempre!) Deslizes acontecem. Ninguém consegue saber tudo, aplicar todas as regras corretamente todas as vezes. Para isso, existem os dicionários e gramáticas, e até os revisores das editoras. O trabalho de escrever, revisar, corrigir o texto tem que ser do escritor. Só a mãe (ou o pai) da criança conhece seu DNA, e deixará o texto como ele deve ser.

Então, caros colegas, vamos estudar a língua pátria, nosso amado português, para que saibamos fazer textos que, lapidados e polidos, brilhem como diamantes.

sábado, 1 de março de 2014

A VOZ DAS PERSONAGENS

Eu prezo muito a correção gramatical, e tomo certos cuidados no trabalho com meus textos: evito repetição de palavras no parágrafo; evito aliterações; certifico-me de que as frases estão completas, com sujeito, verbo e complementos, corretamente ordenados e pontuados; entre outros detalhes igualmente importantes para que o texto fique estilisticamente bom.
Esse perfeccionismo acaba na hora de fazer os diálogos. Eu, o narrador em terceira pessoa, não posso cometer erros gramaticais, nem usar linguagem coloquial. Mas as personagens podem cometer erros e devem usar linguagem coloquial. Então, enquanto o narrador diz “Toni pegou-a ao colo e levou-a para o outro lado”, uma personagem estaria sugerindo “Vai lá, pega ela no colo e leva ela pro outro lado”. O narrador não deve ter a mesma voz que as personagens, e os diálogos (as personagens) não podem ter a mesma voz que o narrador em terceira pessoa. Um costuma ser mais formal e o outro deve ser totalmente informal.
Tenho visto, em sites com as famosas “dicas” para escrever, a informação de que diálogos são difíceis de se fazer, pelo grau de informalidade e naturalidade que devem ter. Ora, é justamente por isso que é tão fácil se escrever diálogos! Ponha-se na pele da personagem e desande a conversar, ora bolas! Imite o sotaque de sua personagem, faça seus trejeitos. Incorpore: os diálogos serão informais e naturais.
Outro dia, escrevendo De mãos dadas, fiz um diálogo em que, a certa altura, Toni diz: “Lá na empresa, eu faço a diferença. O que eu faço lá ninguém mais faz e isso me faz muito bem”. Assim que reli a primeira vez, meus sensores já detectaram faço-faço-faz-faz e meu primeiro impulso foi riscar e corrigir, escolhendo três verbos diferentes para trocar. Mas logo freei a mão, ao lembrar de que Toni não está lendo e escrevendo: ele está falando! Mais: ele está argumentando! Ninguém pensa em elegância de estilo quando defende seu ponto de vista verbalmente. Ainda mais que Toni estudou apenas o mínimo necessário para fazer seu trabalho. Ele não é um intelectual, menos ainda um erudito. O gosto dele para leitura é no nível do senso-comum, sem nenhum refinamento. Ele nem gosta de poesia. Nem sei se ele lê o jornal do dia. Então, se eu corrigisse as repetições da fala dele, o resultado seria artificial e arriscaria até ser pedante. Poderia ficar assim: “Lá na empresa, eu sou o diferencial. O que eu realizo lá ninguém mais faz, e isso me agrada muito”. Sem repetições, mas não é o meu Toni falando. Então, ao mesmo tempo em que eu me esforço para narrar “Entregou-lhe o livro pedido” (ênclise correta), minhas personagens pedem “Me dá aqui esse livro” (próclise no lugar errado).

O segredo para dar a voz correta às personagens nos diálogos é bem simples: o autor precisa saber vestir muitas peles; pensar, sentir, agir e falar como cada uma de suas personagens, de preferência todas ao mesmo tempo. E precisa saber sair de todas essas peles na hora de usar um narrador em terceira pessoa. No começo, pode não ser fácil de se fazer mas, depois que se pratica, os diálogos se tornam a parte mais simples e prazerosa de se escrever.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

REVISANDO CONSTRUIR A TERRA, CONQUISTAR A VIDA

Achei que seria mais fácil fazer a revisão de Construir a terra, conquistar a vida. Afinal, depois de dez anos lendo e relendo, era só conferir que estava tudo certo e pronto. Engano meu... Justamente pelo lapso de tempo, pude perceber quanta coisa há a corrigir e rever. Em primeiro lugar, em alguns momentos eu me perdia quanto a quem está falando, sempre que a conversa incluía mais de duas pessoas. Então, para poupar o leitor de ter que reler a página e tentar adivinhar que, pelas características da fala, deve ser tal personagem a falar, fui lá e marquei quem é que está falando. Às vezes ficou meio repetitivo o “ele disse / ela disse”, mas é melhor encher o texto de “disse” do que deixar o leitor sem informação. Gosto que meus textos sejam de fácil leitura, então é preciso dar informação, em vez de sonegá-la e deixar a conclusão a cargo da adivinhação do leitor.
Nesses dez anos entre acabar de escrever e revisar, pude ler outros livros sobre a época, e aprendi alguns truques de contextualização, que resolvi usar. Um exemplo é quanto a dinheiro. Quando Fernão começa a trabalhar, ele tem um salário, que ele vai mostrar à namorada, alegrando-se porque logo poderão casar e é claro que o valor é citado. Eu tinha arbitrado um valor muito abaixo dos salários que se praticava na época, então agora tive que dar um “aumento” a Fernão. Depois disso, é necessário fazer a correção em todas as 827 páginas em que essa referência pode acontecer – sim, 20 anos depois eles podem estar dizendo “lembra de quando você ganhava só duzentos réis?”, então todas as páginas precisam ser revisadas.
Depois veio a questão da situação no tempo. Eu só às vezes citava no texto o ano em que as coisas estavam acontecendo. Afinal, quando escrevi, eu usei uma tabela temporal e sabia perfeitamente em que ponto dela a história estava, e quando todos os eventos tinham acontecido. Agora, dez anos depois, sem a tabela (que é claro que não vai ser publicada junto com o livro), eu fiquei totalmente perdida, sem saber em que ano as personagens estavam fazendo tudo aquilo, quantos anos as crianças teriam. Significa que é necessário situar o tempo ano a ano, e foi o que eu fiz. Aí é claro que algumas cenas são irresistíveis, e eu acabei demorando mais para reler de novo.
Feito tudo isso, era hora de incluir alguns termos de época, que eu acabei não colocando quando escrevi para fazê-lo agora, na hora da revisão, pois faltava pesquisar melhor. Mas foi quando (já não me lembro de porque tive essa luz) resolvi puxar o índice, e descobri que minha história de 76 capítulos não tem o capítulo VIII (sim, minha numeração de capítulos é em algarismos romanos). Fosse o LXXIV, ou o LXVII, tudo bem: eu renumeraria todos os capítulos seguintes sem o menor problema. Mas era o capítulo VIII! Então revi a estrutura inicial e consegui dividir o capítulo X em dois, resolvendo a questão. Agora, finalmente, vou poder incluir os termos arcaicos, com muito critério, para que o uso deles não prejudique a leitura e a compreensão, e encerrar essa longa e trabalhosa revisão, para poder fazer a diagramação e depois a publicação.  Espero que o resultado fique bom, porque estou realmente me esmerando para fazer o melhor.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SEM ASSUNTO... OU DICAS PARA ESCREVER MELHOR

Chegou o dia de publicar um texto no blog e não tenho nada pré-preparado. Não gosto disso. Gosto de escrever meus textos com calma, revisá-los, relê-los, tirar partes daqui e colocar ali, jogar tudo fora e começar de novo, aproveitar uma ideia daqui e uma dali para fazer uma coisa só, reescrever tudo, trocar palavras e frases inteiras... Enfim, gosto de ter tempo de dar polimento ao texto, para que ele não seja como este que estou escrevendo agora: simples, direto ao ponto, talvez pobre de conteúdo (não sei, ainda não acabei de escrever).

Pois é, como o texto dos 28 anos de carreira estava pronto desde janeiro, eu acabei me descuidando dessa escrita e não adiantei os textos para publicar este mês. Queria muito contar como anda a história de Toni, mas vou preferir falar sobre isso em junho, quando fará dois anos que comecei a escrevê-lo. Talvez até lá o nome de Rosinha esteja mais justificado, por ela ter voltado à história. Só vou saber quando junho chegar.

Eu tinha começado a escrever um texto sobre a idade de minhas personagens, mas percebi que minha apresentação estava incorreta, então tenho que primeiro corrigir as informações para só depois poder tecer comentários e conclusões. As publicações anteriores vinham falando de amor, mas os principais casos já citei: o amor à primeira vista, como em Romeu e Julieta; e o amor desde sempre, como em O morro dos ventos uivantes.

Na falta de outro assunto a tratar de forma organizada, vou deixar aqui uma lista de "dicas para escrever melhor", que fiz pensando nas listas de dicas de autores de sucesso. Me digam se concordam ou discordam, e se devo discorrer mais detalhadamente sobre algum dos itens. Minhas dicas são estas:



quinta-feira, 1 de março de 2012

CRÍTICA LITERÁRIA

Não pretendo explicar aqui o que é crítica literária, nem como se faz. Afinal, não sou crítica, sou escritora. Quero falar dos novos escritores, e de como eles reagem às críticas recebidas.

Hoje em dia, com a Internet, é muito fácil disponibilizar para o mundo o que se escreve: basta construir um blog, o que é simples, já que até eu consegui montar um. E, após fazer o blog, o autor cuida de divulgá-lo em comunidades literárias, onde outros novos escritores e escritores mais antigos se encontram. Os jovens escritores – em geral jovens de idade e jovens de métier – buscam comentários para seus textos. Querem saber o que está bom e o que está ruim, como podem melhorar. Mas, muitas vezes, eles têm tanta convicção de seu valor pessoal e literário (o que é natural, afinal, ninguém está escrevendo algo ruim) que não conseguem lidar com uma opinião negativa, ou ficam travados ao descobrirem que cometem erros gramaticais, e que seu texto maravilhoso não está bom. Os mais imaturos culpam a crítica, alegando que o leitor não entende nada de literatura e, por isso, não soube apreciar a perfeição que foi escrita. Outros, mais maduros mas que escrevem por diversão e não por necessidade, percebem que não levam jeito para “a coisa” e desistem da carreira, antes mesmo dela começar. Vão arrumar um emprego e cuidar da vida, que “essa coisa” de escrever, ainda por cima, nem dá dinheiro. Só alguns poucos, os verdadeiros escritores, vão se decepcionar com o próprio texto, duvidar do próprio talento, pensar, refletir e crescer. É como se a crítica derrubasse todos, mas só alguns conseguissem se levantar. E, quanto mais você cai, mais forte você se levanta, e vai ficando cada vez mais difícil cair de novo – a crítica também tem que melhorar muito para conseguir promover naquele autor um novo momento de parada e reflexão.

Participo de vários grupos de discussão e comunidades de literatura no Facebook, no Orkut, no Skoob, e ainda alguns independentes (como o Escreva seu livro, meu favorito) e tenho visto muitos casos de adolescentes e jovens que resolveram escrever um livro. Fico a me perguntar quantos desses são escritores de verdade, e quantos desistirão ao ouvirem pela primeira vez “você precisa melhorar isto, isso e aquilo”. Tenho lido textos desses jovens autores, e percebo talento em vários deles: uma narrativa empolgante, uma trama instigante. Mas, como é improvável alguém ser brilhante logo no primeiro texto, muitas vezes falta uma caracterização consistente para as personagens, a contextualização pode estar fraca, os diálogos não acrescentam nada, para ficar só em alguns aspectos literários, pois considero correção gramatical uma obrigação óbvia. Fico triste quando vejo um desses desistir, deixar o blog largado e sumir das comunidades. Mas, por outro lado, fico feliz quando um outro comenta que está estudando e melhorando o texto. Diante disso, a crítica acaba funcionando como um filtro, que descarta os fracos e dá convicção aos fortes.

É tão bom ter pares com quem trocar idéias... Quando eu comecei, não encontrei um escritor experiente para ser meu mentor, que apontasse minhas fraquezas, que me mostrasse o quanto eu precisava melhorar. Fui forçada a desenvolver a autocrítica e ser mentora de mim mesma. Ler, reler, analisar, criticar, apontar todos os defeitos, destruir as personagens, destruir a trama, destruir o texto, jogar tudo fora. Apanhar de alguém dói bastante. Apanhar de si mesmo dói mais ainda. Mas, quando você aprende a destruir seu próprio texto, fica mais fácil saber construí-lo direito. Você desenvolve seu estilo com o que você acha certo, sem dependência de uma opinião externa.

Como tenho lido e comentado textos de autores mais jovens, me sinto um pouco mentora deles também (ou tutora, como disse um deles). Fico feliz com esse papel, pois me dá oportunidade de ajudar outros autores a se tornarem escritores melhores. Ah, a vaga de meu mentor ainda está aberta para escritores tão ou mais experientes do que eu. Alguém se habilita? Aceito também críticas e opiniões de autores menos experientes e de leitores, afinal, todo mundo sempre tem algo para ensinar e eu ainda tenho muito para aprender e crescer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

QUANTO DETALHAR

Muito importante na hora de construir a verossimilhança de um romance histórico é incluir na ficção fatos históricos reais, de maneira que as personagens fictícias participem e sejam afetadas pelos eventos históricos. Dessa forma, a história da personagem parece possível de ter acontecido de verdade, e o leitor acaba acreditando que a ficção é real. Acho que isso é um ponto positivo num romance histórico.

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, eu não tinha essa consciência, e meus primeiros romances, embora tenham as características da ambientação escolhida, não se apegam a esse tipo de pormenor. As personagens moram naquela cidade, ou naquela região, mas não naquela rua específica, naquela casa específica, em que o sol entra pelas janelas de manhã. Eu só comecei a me preocupar com isso quando fui buscar o passado da minha cidade, para escrever Uma antiga história de amor no Largo do Machado, e tinha que fazer minhas personagens andarem pelas ruas que existiam na época, e verem os prédios que havia na época. Em 146 anos (o lapso de tempo entra a data da história – 1845 – e o ano em que eu estava – 1991), a cidade do Rio de Janeiro mudou muito, com aterros, construções e expansão, e eu tinha uma cidade muito diferente para apresentar.

Mesmo assim, a história real era passiva, era um cenário a ser visitado, e não um redemoinho que carregasse minhas personagens em sua passagem. Foi somente em Construir a terra, conquistar a vida que as coisas começaram a se entrelaçar, pois Duarte veio para o Rio de Janeiro para lutar contra os franceses, na batalha que ficou conhecida com o nome de Uruçumirim. Duarte viu Estácio de Sá cair atingido pela flecha que o acertou no rosto; Duarte foi ao enterro de Estácio de Sá; Duarte construiu sua casa nova no Morro do Descanso, no terreno que Mem de Sá lhe cedeu. Depois, quando os franceses voltaram, e estavam em Cabo Frio, Duarte foi atrás deles, enquanto seus filhos patrulhavam a praia. Tudo o que aconteceu na cidade teve a participação efetiva de minhas personagens. Tenho muito orgulho do que consegui realizar.

O canhoto também tem esse entrelaçamento, inclusive com a participação de pessoas que existiram de verdade, e o principal evento de que minhas personagens participam é a Terceira Cruzada. Não é toda história que pede esse tipo de trabalho. Alguns romances são mais fechados, e uma ambientação básica já cumpre seu papel. Em outros romances, entretanto, a cidade, com sua história e geografia, também é personagem, e a narrativa fica mais aberta a interferências da realidade. Minha história atual é assim. Já inclui a Greve Geral de 1917, e informações sobre a Grande Guerra, em que o Brasil ingressou em 1918. Faltava contar a Gripe Espanhola, também em 1918, mas achei que a narrativa estava meio arrastada, e eu estava demorando muito para avançar, então resumi o episódio da Gripe em um parágrafo e entrei feliz em 1919, contando sobre o novo emprego de Toni. Mas, cada vez que eu relia, me batia um desconforto de pensar “parece que a Gripe foi só isso, e não a tragédia que foi”. Uma amiga minha resumiu meu sentimento “Você já passou pela Gripe Espanhola e nenhum personagem seu morreu? Não pode”. De fato, não pode. Se as personagens foram para as ruas na Greve Geral de 1917, se estão pagando caro pela comida por causa da Grande Guerra, elas também precisam pegar Gripe Espanhola. Então voltei para contar como minhas personagens enfrentaram uma das maiores epidemias da época, que vitimou mais de 35 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo Rodrigues Alves, o presidente eleito, que morreu em janeiro de 1919, antes de ser empossado para seu segundo mandato. Mas quem matar? Quem poupar? Já me apeguei às personagens secundárias que se destacam mais, e não tem graça matar quem não tem importância, pois não fará falta na história. Também é preciso decidir se Toni será infectado ou não, e como a doença progrediria nele, que é a personagem principal. Muitas questões a definir, em nome da verdade do texto.
Então, de posse do conhecimento dos eventos históricos da época escolhida, é preciso detalhar todos os grandes momentos, que marcaram aquela época. Mas detalhar não é escrever uma página contando o que foi o evento e seus desdobramentos – podemos deixar isso para os livros de não-ficção. Detalhar, no romance histórico, significa envolver as personagens no evento, jogá-las no turbilhão, para que elas vivam aquilo e deem à ficção uma aparência de realidade histórica.

sábado, 21 de janeiro de 2012

PESQUISA HISTÓRICA

Precisei ir à Biblioteca Nacional no início do mês, então aproveitei que já estava lá para a pesquisa que eu precisava fazer para minha história atual. Ao se escrever romances ambientados no passado, o mais difícil – e também o mais interessante e desafiador – é saber detalhes históricos para usar no romance. Hoje em dia, com a Internet, é fácil descobrir a história da cidade em que o romance está ambientado, a geografia – inclusive com mapas históricos, e alguns aspectos da vida cotidiana, como festas e eventos culturais. Mas há certos pormenores que textos históricos não contam, e que somente uma pesquisa específica em fontes primárias (documentos da época) consegue resolver. Minha dificuldade no momento era quanto ao valor do dinheiro. Que a moeda no Brasil nas décadas de 1910 e 1920 era o Real (que as pessoas chamavam de “réis”) eu já sabia. Mas quanto valia, por exemplo, mil réis (R 1$000)? Quanto se recebia de salário? Quanto custava a cesta básica? Como Toni oscila entre empregado e desempregado, eu precisava ter certeza de quanto ele ganha e quanto gasta – até porque muitas vezes (por exemplo, quando ele é contratado para um novo emprego) preciso citar isso no texto.

Quando estudei sobre e Greve Geral de 1917, encontrei a informação de que um operário ganhava em média cinco mil réis (R 5$000). Achei que esse valor era por mês, o que fazia de R 1:000$000 (um conto de réis) uma fortuna. Mas eu tinha que ter certeza se minhas suposições eram corretas, então precisava de um tipo de documento da época que me situasse de uma forma mais segura.

Cheguei ao setor de periódicos da Biblioteca Nacional e perguntei como procurar o que eu precisava. A moça que me atendeu explicou: pelo título da publicação. Hein? Pelo título? Mas eu não faço ideia de qual é a publicação que me serve. Mas afinal o que eu quero? Jornais publicados em São Paulo em 1918 (arbitrei a data, considerando a Grande Guerra) que tenham classificados. Eu já tinha feito esse tipo de pesquisa para Tudo o que o dinheiro pode comprar, e achei uma boa estratégia para repetir. Na época, eu procurava a cotação do café para exportação, e ofertas de escravos à venda, para calcular a receita de Miguel, e quanto ele poderia dar de mesada a mulher, por exemplo. Desta vez também, a funcionária, experiente, logo se lembrou de algo e me trouxe três rolos de microfilme do jornal O Estado de São Paulo em 1918. Eu pulei todas as notícias e li apenas os classificados de algumas edições de janeiro e algumas edições de abril. É fantástico, pois encontrei anúncios de oferta de casas para vender e para alugar; roupas masculinas e roupas de cama, mesa e banho; vagas em pensões; e também ofertas de emprego, quando descobri que a informação de R 5$000 que eu tinha se referia à diária, e não a um salário mensal. Descobri também quanto custam ingressos para o cinema e para o teatro; livros, revistas, exemplares e assinatura do jornal. Com essas informações, pude calcular os salários de Toni em seus vários empregos, as despesas dele de estadia e alimentação, e também despesas avulsas, como roupas novas e diversão. É claro que arbitrei quanto custam as coisas que ele paga, mas com uma base de realidade sólida. Se a pensão do anúncio cobra entre R 70$000 e R 80$000 por mês, Dona Luizinha pode cobrar R 68$000; se cada refeição da pensão do anúncio custa cerca de R $600 (seiscentos réis), Dona Luizinha pode cobrar R $640 (seiscentos e quarenta réis, ou dois cruzados). Se uma loja chique cobra R 4$600 por uma camisa, Toni pode comprar numa loja popular por R 1$500. Bem, eu precisava também saber se ele teria sempre dinheiro para pagar suas contas, então montei uma tabela de receitas e despesas, e ajustei os salários e o tempo dele em cada emprego para que ele tenha – ou não – como pagar suas despesas entre 1915, ano em que ele chega em São Paulo, e 1922, quando ele receberá uma proposta de emprego imperdível, desde que... Não vou contar, né?

Faltava só uma informação, que não consegui encontrar nos classificados: o preço da passagem de trem para ele voltar para a casa dos pais em São Carlos. Ajudou-me a Internet, ao me jogar na página do governo do Estado de São Paulo, que já digitalizou documentos governamentais, inclusive do início do século XX, onde encontrei os decretos de aumento de preço. Então agora essa parte financeira está resolvida, e não preciso mais deixar buracos no texto, esperando pela informação. Agora é só organizar meu tempo, para poder escrever mais rápido.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DIÁLOGOS

Meu fascínio pelos diálogos nos textos dos outros (para aprender a fazer nos meus) é intuitivo e emocional, e não tem um motivo racional que eu possa usar como argumento. Acho que o texto fui com mais facilidade e leveza quando os assuntos são tratados em forma de diálogo.

Essa é minha opinião e meu gosto pessoal, mas eu não estou sozinha. A uns bons anos atrás, meu pai, jornalista e repórter, me contou como os noticiários da televisão vinham mudando, dando-se cada vez mais espaço a matérias externas, em vez nas notícias de estúdio. E ele me explicou: as pessoas querem ver a sua cidade, querem saber quem foi que disse o que o jornalista está contando. Trazendo para as histórias: as pessoas não querem um narrador que conta o que está acontecendo; elas querem ver e ouvir as pessoas interagindo em seu próprio ambiente.

É claro que, para descrever as personagens e contar seus pensamentos mais íntimos, só a narração é possível... Claro nada! Eu posso descrever uma personagem com diálogos. Como? Outras pessoas comentam a aparência e o jeito de ser da personagem em questão. É claro que, dessa forma, temos apenas a opinião das outras personagens, e não a descrição “isenta” do narrador, muitas vezes uma espécie de deus onisciente. Mas quem precisa de uma opinião isenta? Gostei muito da forma como descrevi Inês Martins, em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Ayraci destacando características que a tornam feia e Fernão tentando suavizar os defeitos para convencê-los de que ela é bonita. Ficou mais ou menos assim (estou repetindo de memória, então não garanto que o texto tenha ficado exatamente assim):

- O que viste nela, Fernão? Ela é feia! –Duarte opinou.
- Não é feia, não! –Fernão defendeu.
- Ela tem olhos arregalados!
- Não são arregalados, são grandes.
- Sim, e bem abertos –Duarte completou.
- Não vejo problema nenhum nisso. Eu gosto dos olhos dela.
- Ela não tem queixo –Ayraci disse, em voz baixa.
- Tem sim. Só que... é pequenino.
- Não adianta, Fernão –Duarte concluiu- Ela é feia.
- Eu não acho. Para mim, ela é bonita. A moça mais bonita da cidade. E não vou ficar aqui a ouvir insultos.

Isso é só um pedacinho, porque descrevo também outras características da moça. Usando diálogos, posso também usar exageros. Não fica bem um narrador sério e “isento” dizer que a moça teria olhos arregalados e não teria queixo. Eu acabaria usando os termos de Fernão, e o leitor acharia que os olhos de Inês eram apenas grandes e bem abertos quando me agrada passar a imagem de olhos arregalados.

Quanto aos pensamentos íntimos das personagens: embora eu conte em terceira pessoa (como é a voz do meu narrador), faço de forma a usar o jeito de falar da personagem, como se ela estivesse falando consigo mesma. E, se o parágrafo ficar muito extenso, faço a personagem falar em voz alta, para escrever um travessão e quebrar a massa pesada do parágrafo. Um exemplo hipotético ficaria assim (de propósito vou fazer o conteúdo vazio e sem sentido, para enfatizar a forma):

Tinha que ser assim –ele pensou- Afinal, há anos sabia dessa questão e evitava enfrentar o problema. Ninguém mais podia ajudá-lo, pois afastara-se dos amigos e perdera contato também com os inimigos (segue o blá-blá-blá)
- Não adianta lamentar. Agora está feito.
Mas, em seus pensamentos, ainda tinha a imagem dos eventos passados, como aquele dia em que sua mãe lhe dissera como era importante resolver os problemas na hora em que se apresentam. E ele nunca dera ouvidos a sua mãe... (segue o blá-blá-blá)


O uso de diálogos é, portanto, uma ferramenta importante não apenas para fazer as personagens se comunicarem, mas também para passar informações para o leitor de uma forma interessante, quebrando a monotonia da voz do narrador.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CONTEXTUALIZAR

Estou adorando estudar sobre a Greve Geral de 1917, e fazer minhas personagens participarem desse momento tão importante da História de São Paulo – e que refletiu em outros estados do país. É uma pena que esse evento não seja bem estudado nas escolas de outros estados (ao menos eu não lembro de ter estudado), pois mostra como nem sempre os brasileiros tiveram “sangue de barata”, mas já foram capazes de ir para as ruas brigar (literalmente) por seus direitos. Conhecer o fato é uma coisa. Mas como usá-lo na história?

Greve no Crespi? Uma personagem trabalha lá. Barricadas nas ruas? Tenho personagens lá. O enterro do operário? Minhas personagens estiveram presentes. Edgard Leuenroth? Sim, conheço, muito amigo de uma personagem minha. E assim entrelaço a minha história na história de São Paulo, a ponto de (ao menos para mim) se tornar inconcebível o evento acontecer sem a participação das minhas personagens.

E como fazer esse entrelaçamento de forma interessante e informativa, mas sem cair no didatismo maçante? Eu uso diálogos. Em vez de narrar “os operários queriam isso, isso e isso”, faço Toni perguntar “mas afinal o que é que vocês querem?”, para que um colega de pensão responda “isso e isso”, e outro complete “e isso também”. Assim, estou dando a informação de que o leitor precisa para conhecer o fato histórico mas, uma vez que ponho o texto na boca das personagens, dou a ele mais movimento e mais vida, e o fato histórico passa a fazer parte da minha ficção. Em vez de narrar “os operários eram explorados e trabalhavam até 14h por dia, incluindo mulheres e crianças”, eu faço um dos rapazes dizer algo como “É uma exploração! Perto de onde eu fico, há duas meninas, uma de dez e outra de doze anos. Lá, nós trabalhamos doze horas por dia, mas tem fábrica em que os operários trabalham até 14h por dia. Isso é um massacre!” para depois Toni responder “Isso não é vida. Alguém tem que fazer alguma coisa”. E assim a conversa política prossegue e eu vou apresentando os fatos: os colegas operários contam a Toni como é a vida deles, explicando ao leitor a motivação da Greve Geral, e tudo o que aconteceu naqueles dias em que expus minhas personagens ao ideal da Anarquia.

Achei na Internet um mapa que situa os pontos dos conflitos, das passeatas e os marcos mais significativos. Posso contar nome de bairros, nomes de ruas, nome das fábricas. Me aproprio da História.

Estou muito orgulhosa de meus estudos, pois já sei onde ficam muitos bairros de São Paulo. Quando ouço, no rádio ou na televisão, alguém citar algum bairro (desses mais antigos que estou usando na história), já me vem à mente meu mapa de bairros, e eu consigo visualizar onde ele fica. Aprender é muito bom, especialmente porque eu me sentia em dívida com São Paulo, por saber tão pouco sobre sua história recente e geografia, por não conhecer bem a cidade, e por nunca ter situado nenhuma história lá. Ao final da história, terei resolvido duas dívidas, e só restará pegar um ônibus aqui para ir passear em São Paulo sem precisar de mapa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ANTES DE COMEÇAR – O PROJETO

Eu sempre preciso fazer muita pesquisa antes de começar a escrever, porque preciso conhecer em detalhes o local e a época em que resolvi ambientar a história. Isso não significa que eu vá usar todos os detalhes na história, mas eu preciso conhecê-los para me sentir à vontade para criar. Eu desenhei mapas de Brugge (para O canhoto) e do Rio de Janeiro (para Construir a terra, conquistar a vida), como estou agora fazendo com São Paulo (para Rosinha), retirando partes modernas e tentando reconstruir o que havia na época das histórias.

O estudo do ambiente acontece em paralelo à construção da história, pois é necessário enquadrar a caracterização das personagens e a sucessão de eventos ao contexto escolhido. O nome de Antônio só me veio à cabeça quando eu resolvi aproveitar o contexto da imigração italiana do final do século XIX às minhas personagens. Assim, uma coisa influencia a outra, e todas juntas constroem a história do jeito que eu quero contar.

As idéias vêm de toda parte e de lugar nenhum (como já contei) e à medida que vou caracterizando as personagens, a trama prossegue, e vice-versa, até um momento de impasse, que me faz descartar a história, ou até o final do jeito que eu quero. Mesmo tendo encontrado um bom final, eu procuro outros finais possíveis, para me assegurar de escolher o melhor deles. Para isso, às vezes é necessário recuar e alterar eventos que estão mais próximos do meio do que do final. Não importa, eu gosto de testar possibilidades.

Tendo a estrutura da história e a caracterização das personagens, preciso aprofundar o estudo da ambientação, inclusive tentando descobrir fatos históricos que eu possa incorporar à minha história para acrescentar verossimilhança. Por exemplo, eu não posso deixar de citar na história que estou escrevendo agora (Rosinha) o surto de Gripe Espanhola de 1918, nem o dia mais frio da história de São Paulo, que também aconteceu em 1918. Assim, entrelaço a minha ficção na história real da cidade (e do estado) de São Paulo.

Muitas vezes, outras pesquisas, além da histórica, também são necessárias. Desta vez, quis conhecer melhor o processo de colheita e beneficiamento do café, já que os primeiros anos da história se passam numa fazenda de café. Para O canhoto, precisei estudar psicologia para entender se era possível a amnésia de Maurits, e que fatores eram necessários para que a amnésia fosse possível. Foi muito bom porque ajudou inclusive na caracterização da personagem e na estruturação dos eventos passados e futuros.

Quando tenho todas essas informações, e a certeza de que há uma boa história a ser contada, então vem a parte trabalhosa: pegar papel e caneta e começar a escrever.

sábado, 1 de outubro de 2011

AMADURECER O AUTOR

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, não existia computador pessoal, e a Internet ainda era uma admirável forma de comunicação entre universidades e talvez alguma outra instituição ou empresa. As chances de você encontrar um colega escritor – iniciante ou experiente – eram bem escassas. Para agravar meu isolamento, eu morava em São Luís – MA e, embora se diga que “quem dorme em São Luís acorda poeta”, eu não tive o prazer de conhecer nenhum escritor nos cinco anos em que morei lá. Além do mais, eu era uma adolescente tímida, com muito pouca vida social, e não me lembro de eventos literários acontecendo na cidade.

É bem verdade que, aos 18 anos, eu estava no Rio de Janeiro, cursando Educação Artística e participando de tudo o que podia: vernissages, exposições, palestras, peças de teatro, filmes, óperas, concertos. Mas era difícil encontrar os pares literários. Autores experientes dão palestra mas, em geral, não se interessavam por ouvir uma adolescente principiante.

Mas essa historinha é para dizer que eu não tinha outros escritores a quem mostrar meus primeiros escritos, como vejo acontecer hoje, graças à Internet. Minhas amigas queridas adoravam tudo o que eu escrevia (ou não) mas não tinham experiência nem de vida nem de literatura para me indicar falhas, defeitos, incoerências, erros. Eu tive que aprender sozinha. Em 1989, quando eu fiz a primeira avaliação dos meus textos, eu percebi como eu havia melhorado, como eu estava mais experiente e amadurecida, e como muitos textos não resistem ao tempo, enquanto outros – os melhores, é claro – só precisam de ajustes para continuarem sendo considerados bons.

Quero dizer com isso que o que me fez chegar onde estou não foi a crítica alheia, mas a minha própria crítica. Então, quando hoje vejo novos escritores pedindo comentários dos outros, fico pensando se a opinião externa é assim tão importante. Isso porque os leitores podem até apontar algumas questões pertinentes, mas cabe ao escritor refletir sobre suas fraquezas e encontrar seu caminho sozinho. Amadurecer é um processo solitário, como comer, sentir, nascer, morrer. Ninguém pode fazer isso por você e, se você não estiver pronto, nenhuma opinião externa vai ajudar. Crescer é um processo lento e sofrido, e algumas pessoas não suportam a dor – por isso não conseguem crescer. Dói olhar para trás e ver que muito do que eu fiz era ruim. Dói descartar vidas que eu vivi, filhos queridos que tão boa companhia me deram. Mas, se a trama é inconsistente, se a caracterização das personagens é falha, se o texto não foi bem trabalhado – e agora sou capaz de perceber tudo isso! – então não adiante mantê-las com vida. Aos poucos, a gente aprende também a superar as perdas; a levantar após cada queda e seguir adiante; a amar os mortos porque um dia estiveram vivos, em vez de lamentar por não estarem mais vivos.

Essa é a minha trajetória. Aprendi apanhando de mim mesma; lendo e relendo meus textos e criticando-os mais severamente do que qualquer leitor faria; escrevendo e re-escrevendo, quase doentiamente, até que meu público-alvo (eu mesma) ficasse satisfeito com o resultado.

Sorte de quem está começando agora ter a Internet tão cheia de grupos e oportunidades, e poder encontrar pessoas com quem trocar idéias e leitores que indicam pontos inconsistentes a serem melhorados. Com essa ajuda, esses jovens poderão re-escrever mais, e assim alcançar mais cedo um bom nível de maturidade. É claro que precisam ser humildes para aceitar a opinião de outra pessoa, precisam refletir sobre as questões apontadas e buscar as melhores soluções. Mas não basta mudar uma passagem porque alguém falou. Não. É preciso compreender porque foi feito daquela forma, como corrigir (se for o caso) ou como justificar que tenha sido feito daquele jeito; e como evitar o erro (ou aprender a justificá-lo) no futuro. Não tem jeito: amadurecer é um processo individual e solitário.


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A maturidade

Amadurecer o texto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AMADURECER O TEXTO

Tenho muita desconfiança das pessoas que acabam de escrever um livro e já saem procurando publicação – quando não publicam os capítulos em seus blogs particulares, à medida que vão escrevendo. Eu não consigo. Não considero que o texto esteja pronto quando se põe o ponto final. Acho que essa é a hora em que o trabalho vai de fato começar. Acho que nesse momento estamos diante de um diamante bruto, que ainda precisa ser bem lapidado e polido para que se torne um brilhante da melhor qualidade.

Ultimamente tenho visto alguns textos de colegas de comunidades que parecem exatamente isso: belos diamantes, mas em estado bruto. A pressa na publicação e no retorno dos leitores (“comentem por favor”) faz que os textos sejam publicados até com erros de digitação e gramática. Às vezes a compreensão da mensagem fica prejudicada por um texto truncado, mal pontuado e mal explicado. Acredito que na maioria das vezes isso acontece porque o botão “Publicar” é apertado antes que o autor releia o que digitou. Isso é muito grave, pois essas pessoas estão considerando que seus textos recém-escritos estão prontos: que seus diamantes são brilhantes. Então recebem comentários vagos de “que lindo”, ou “adorei”, ou o extremo oposto “que porcaria”, ou “aprenda português antes de escrever”. Quando eu comento, procuro apontar as inconsistências, e que há erros de português. Às vezes são coisas simples, que bastava o autor reler para corrigir. Então essa pressa expõe o autor ao público com um texto que ainda não está pronto, que ainda tem muito o que melhorar.

Quem faz isso, em geral, são pessoas que estão começando agora, e estão ainda procurando seus caminhos e descobrindo o próprio estilo. É preciso não apenas ler, mas reler, re-escrever, afastar-se do texto para depois retomá-lo, analisar sintaticamente e estilisticamente, procurar clichês e sempre que possível eliminá-los, afastar-se novamente, retomar, analisar tudo de novo, buscando sempre aproximar o texto da perfeição.

Nossa, mas isso é trabalho para meses! –alguém poderia observar. E eu respondo: SIM! Todo o processo de criação, escrita e amadurecimento pode levar na verdade ANOS! E então eu pergunto: há algum problema nisso? Você não gosta do seu texto? Quer livrar-se dele o quanto antes? A publicação no Brasil é difícil, então é melhor você chegar na editora com um texto que encante o editor e não dê trabalho para virar livro.

Sei que minha escolha é um pouco extrema, pois posso levar meses elaborando e fazendo a pesquisa prévia; depois posso passar mais de um ano escrevendo; depois de pronto, o texto fica guardado por um ano (o tempo que eu preciso para esquecê-lo), e só depois eu releio, avalio, analiso, digito re-escrevendo, releio, e ele fica guardado até chegar a vez de ser publicado. Enquanto isso, continuo relendo, corrigindo, re-escrevendo o que for necessário. Acho que eu me sentiria confortável em procurar publicação para um texto meu somente um ano depois de tê-lo digitado, pois minha fase de polimento só começa após a digitação. Isso significa pelo menos dois anos depois do ponto final. Por sorte (na verdade, por circunstâncias várias), tenho uma longa fila de publicação e meu próximo livro a ser publicado (A noiva trocada) foi escrito em 1996 e vem sendo lapidado e polido desde então, o que me deixa tranqüila de que ele está mesmo pronto para ser publicado.


Outros textos relacionados:

A maturidade

Amadurecer o autor

domingo, 11 de setembro de 2011

A MATURIDADE

Um dia, numa das minhas comunidades literárias favoritas, me irritei e meio que “subi nas tamancas”, e por isso resolvi escrever um texto sobre o assunto, mas acabei escrevendo três textos relacionados (este e mais Amadurecer o texto e Amadurecer o autor). A motivação desses textos é que tenho lido muitos textos de jovens colegas que encontro nas comunidades do Orkut e em outras comunidades e fori, que estão começando suas trajetórias agora e acabo ficando indignada com um ou outro, pois demonstram ser talentosos, com idéias interessantes, mas se apressam em mostrar textos recém-escritos, não revisados, inconsistentes e até incoerentes. Eu acabo me sentindo na obrigação de dizer “colega, sua idéia é ótima, mas o texto deixa a desejar”. O conteúdo é bom mas a forma atrapalha. É o trabalho da língua escrita – o objetivo da profissão do escritor! – que puxa o tapete da juventude. Isso acontece pela falta de hábito de escrever – sim, porque estão começando agora! São pessoas com dois ou três anos de carreira, talvez até menos! E foi essa minha indignação que me levou a refletir sobre como amadurecer um escritor e como amadurecer um texto. Como eu não sei da vida dos outros, tratei de pensar na minha vida, e em como esse processo de maturidade vem acontecendo comigo. Por gostar de números e tabelas, levantei a informação de quantas histórias eu já escrevi na vida, para ter chegado no ponto em que cheguei. Devo confessar que os números me surpreenderam, porque eu não esperava tanto. Eu já escrevi 51 histórias completas, e 12 delas tiveram uma segunda versão completa escrita; e 19 histórias ficaram incompletas, algumas com mais, outras com menos páginas. Ou seja, no total já escrevi 82 textos, sendo 63 completos, com começo, meio e fim. E eu tenho apenas 20 histórias sobreviventes, o que significa que, das 63 completas, só 32% se salva e 68% é porcaria.

É claro que não se pode generalizar, e o fato de eu escrever muitos textos ruins não significa que todo mundo escreva também. Mas acho que essas contas servem para mostrar a meus colegas com menos experiência que dificilmente alguém pode ser brilhante todo o tempo; e que encontrar defeitos em seu próprio texto não indica que você é mau escritor, ou que você está fadado ao fracasso. Ao contrário, acho louvável ter humildade de reconhecer seus erros, suas fraquezas, seus enganos – e escondê-los do mundo! Não mostro tudo o que já escrevi, apenas o que eu considero o melhor. Outra conclusão que se pode tirar é: prepare-se para descartar seus primeiros textos (ou re-escrevê-los), porque dificilmente serão os melhores.

Penso que a prova de fogo de um escritor é descartar seu primeiro texto. Quando alguém relê seu primeiro texto e o considera ruim, então há esperança de que se torne um bom escritor, pois já conseguiu um passo de amadurecimento e autocrítica. É por isso que eu sempre sugiro aos colegas: ESCREVA! Escreva sem parar, escreva tudo o que vem à cabeça. Só se aprende a escrever escrevendo. Fazer cursos, ler livros, trocar idéias com os pares pode ajudar mas é a sua intimidade com o seu texto que vai fazer você crescer.

domingo, 21 de agosto de 2011

ROMANCE, NOVELA, CONTO, CRÔNICA

Não vou falar nenhuma novidade, e inclusive há sites, livros e textos que explicam mais detalhadamente as características desses quatro gêneros de prosa literária. Mas achei importante começar essa fase didática por um aspecto mais geral para depois começar a falar mais especificamente do romance, e de como é, para mim, escrever um romance.

Romances e novelas costumam ser mais longos do que contos e crônicas mas as diferenças principais estão na estruturação e na forma de se escrever cada um deles. O tamanho é conseqüência da estrutura, e não causa.

A crônica, em geral, é um texto curto, baseado em algum aspecto pitoresco da atualidade ou da vida cotidiana. Pode contar uma história ou ser apenas uma reflexão sobre algum evento. Portanto, pode ter personagens ou não. A linguagem é, em geral, leve, fácil e bem-humorada. Mesmo se a crônica contar uma história fictícia, a relação com o cotidiano permanece e a caracteriza.

A característica principal do conto é sua unicidade estrutural. Há apenas um aspecto a abordar, o que produz as outras características: poucas personagens, em geral planas; trama única; unidade temporal; unidade espacial. É uma narrativa rápida, que, por ser breve, precisa ser interessante do começo ao fim. Não há espaço para erros num conto. Há quem diga que, no conto, o mais importante é saber terminar, pois o final deve resolver, ou envolver, ou surpreender. O conto termina no clímax, e não depois (como muitas vezes acontece no romance). Escrever contos parece fácil. Escrever bons contos é bastante difícil. Há pessoas que acham que escrever contos é uma etapa na formação do escritor anterior a escrever romances. Eu não concordo. O trabalho do contista é diferente do trabalho do romancista. Conto não é “treino” para romance, nem vice-versa. Cada gênero tem suas características, suas especificidades, suas dificuldades, um modo de trabalho próprio, que requer do escritor certas características de personalidade e de atividade. É preciso ficar claro também que um romance não desenvolvido não é um conto. Ele só será conto se tiver a estrutura do conto. Outra coisa importante é que o conto precisa contar uma história: a trama (em inglês, plot) é um elemento fundamental e condição sine qua non. Foi por compreender tudo isso que eu parei de escrever contos.

A diferença entre romance e novela é tênue e é ponto de discussão mesmo entre os estudiosos. Há um acordo de que o diferencial é que a novela tem uma trama única e o romance tem, além da trama principal, várias tramas secundárias entrelaçadas, o que produz maior número de personagens e de ambientações. Diante disso, a novela seria um gênero a meio caminho entre o conto, com toda sua unicidade e objetividade, e o romance, com sua pluralidade e complexidade. Algo como um conto mais desenvolvido ou um romance simplificado. É importante não confundir o gênero literário “novela” com o gênero televisivo “novela”, pois são objetos com estruturas e características diferentes.

E finalmente temos o romance, com muitas tramas, muitas personagens, muitos ambientes, amplitude temporal e quantidade ilimitada de páginas para o autor escrever o quanto quiser. Por ser um texto em geral longo, o romance exige maior detalhamento na caracterização das personagens e ambientes, e a verossimilhança precisa ser mantida ao longo de toda a história. Por outro lado, o romance não precisa ser brilhante todo o tempo, mas pode ter partes mais interessantes e partes menos interessantes – no romance, há lugar para o erro e para a tentativa. Romance não é um conto longo, é um gênero específico. A mesma pessoa que me disse que no conto é importante saber terminar disse que, no romance, é importante saber começar. O primeiro capítulo é importantíssimo, pois é ele que vai apresentar o universo da ficção: quem são as personagens, qual é o ambiente, qual é o maior problema, que a personagem principal tem que resolver, e isso tem que ser feito de uma forma interessante (evitando o excesso de didatismo) para que o leitor queira ler o segundo capítulo. Por isso atualmente alguns autores estão preferindo começar o livro com uma cena de ação ou suspense, que chamam “Prólogo”, para só depois começar a contextualização necessária do primeiro capítulo, em geral usando o recurso do flashback.

Esta foi uma breve apresentação dos gêneros mais usados na prosa literária. Como isso é assunto de Teoria da Literatura, não me preocupei em dar detalhes. Há vários sites mais especializados no assunto e, na dúvida, quem tiver interesse pode começar o estudo pela Wikipedia mesmo: Crônica (literatura e jornalismo), Conto, Novela, Romance

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

JORNADA DO HERÓI

Pesquisando daqui e dali, visitando blogs de meus amigos, encontrei referência a um certo tipo de estrutura, usado especialmente para contar histórias fantásticas, que se chama Jornada do Herói (explicações aqui e aqui). Nas minhas histórias, a Jornada está relacionada a situações de exílio, que expliquei aqui. Os elementos dessa Jornada do Herói, com as devidas adaptações ao meu estilo e ao tipo de trama que eu conto, estão nitidamente presentes em sete das minhas histórias: Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Primeiro a honra, Amor de redenção, Fábrica, O canhoto, Rosinha.

Há duas diferenças importantes entre a Jornada do Herói e a estrutura dessas minhas histórias que de alguma forma acompanham esse modelo. Uma é a atuação do Mentor, que surge para encorajar o herói e entrar no mundo mágico. Nas minhas histórias, o Mentor em geral aparece depois que o herói já está fora de sua realidade, justamente para ajudá-lo a sair. E a segunda diferença, relacionada a essa primeira, é que minhas personagens não têm medo de enfrentar a Jornada, e não precisam de ajuda para entrar nesse “mundo mágico”- no meu caso, algum tipo de exílio – porque são jogadas dentro dele à força. Me faz lembrar da Divina Comédia, em que Dante de repente se vê na floresta escura (já é exílio) e Virgílio lhe aparece (Mentor) para guiá-lo até a nova realidade (Paraíso), embora passando pelos caminhos mais difíceis e sofridos (Inferno e Purgatório). É mais ou menos isso o que acontece nas minhas histórias: a personagem é forçada a algum tipo de exílio (ou por algum motivo o procura), onde encontra um Mentor para ajudá-la a amadurecer, resolver seus problemas e voltar.

Outro aspecto interessante de destacar é que nem sempre o herói da jornada é a personagem principal, como é o caso de O maior de todos, que tem Curt como personagem principal mas é Karl quem enfrenta a busca por si mesmo. Também é interessante o caso de Ninette, em Pelo poder ou pela honra, que supera a maior crise, enfrenta a morte, vence o medo mas perde o elixir. Quando fui ver se Nicolaas passava por essas etapas, tive dificuldade em definir os eventos de cada etapa e conclui que ele, na verdade, enfrenta três jornadas de uma só vez: uma de caráter religioso, com Maurits como Mentor e a superação do passado como Elixir; a segunda é pessoal, com Miguel como Mentor e a superação do sinistrismo como Elixir; a terceira é social, com Frans como Mentor e a Cruzada como Elixir. São três jornadas entrelaçadas, e as etapas de cada uma não acontecem ao mesmo tempo, mas cada uma em seu momento dentro de cada jornada.

É interessante pensar como essa estrutura está relacionada a uma espécie de inconsciente coletivo cultural uma vez que, mesmo sem buscar por ela, muitos escritores – eu inclusive – acabam por encontrá-la. Também é interessante que uma estrutura característica de romances de fantasia possa ser usada com sucesso em outros tipos de romances.

sábado, 11 de junho de 2011

DEUS EX-MACHINA

Já usei essa expressão algumas vezes em textos publicados aqui, e já me perguntaram o que significa, então resolvi explicar o que é e aproveitar para comentar como uso essa ferramenta.

Deus-ex-machina é uma expressão em latim que quer dizer mais ou menos “uma divindade saindo de um dispositivo”. Descontextualizado, não faz mesmo sentido. Precisamos saber um pouco da história da Grécia clássica e seu Teatro. A tragédia – a grande forma - contava especialmente histórias mitológicas, de deuses, semideuses e heróis. A história dizia que o herói enfrentava incontáveis dificuldades até o sucesso final. Muitas vezes, vencia os desafios sozinho mas, outras vezes, precisava de ajuda divina. Então surgia no palco uma estrutura e, de dentro dela, saía algum deus, para ajudar o herói em seu problema. Fazer uma estrutura descer do céu ou brotar da terra sempre requer uma boa engenharia para construir um artefato e fazê-lo mover-se sozinho na direção certa – esse conjunto é o que se chama machina. Portanto, deus-ex-machina é o momento da tragédia grega em que deus sai do artefato de engenharia para interferir definitivamente no destino do herói. Por ser um deus, ele age ignorando as leis da física, da química e da biologia, e também está acima das leis e da moral, e segue uma ética própria, que nem sempre é a ética dos humanos.

Em literatura, chamamos de deus-ex-machina o momento em que o escritor cria um evento improvável para alcançar o resultado de que precisa para dar continuidade à história. Em geral, por estar agindo como um deus, ele passa por cima das leis da natureza e produz milagres. É aquela chuva que cai bem na hora e deixa o mocinho e a mocinha presos em algum lugar, para que percebam que estão apaixonados; é a distração do vilão que faz o mocinho vencê-lo; é a cura milagrosa de doenças, etc. É bem fácil identificar quando esse artifício está sendo usado, pois o leitor fica com uma sensação de “trapaça”, e pensa logo “essa chuva caiu bem na hora, hein!”, ou “nunca que o vilão vai cometer um erro primário desses”, ou “nossa, que sorte isso acontecer”, ou “ah, é claro que a mocinha tinha que estar ali para o mocinho encontrá-la”. São eventos injustificáveis, às vezes inverossímeis, mas totalmente necessários para que a história aconteça conforme os planos do autor. É importante que se diga que é um recuso possível, permitido, mas que deve ser usado com parcimônia, pois o exagero de deus-ex-machina numa história compromete a verossimilhança. É uma espécie de ato de desespero do autor: quando nada mais vai funcionar, apela-se para o deus-ex-machina.

Eu faço o possível para não abusar do recurso, pois, como já disse, ele mina a verossimilhança que me custa tanto construir. Ainda assim, às vezes é inevitável para que as personagens tenham o destino que lhes cabe. Há deus-ex-machina quando Estienne acredita que Ninette não é quem diz ser. Há deus-ex-machina na forma como Marie conhece Jacques. E também nas coincidências entre Isabel e Cecília; na ausência do pai de Caty quando Alex vai procurá-lo; na posição de Isabel de Durpoin enquanto Lisbet Legrant avista o arqueiro; no sono excessivo de Assunción; no não-reconhecimento de que Rodrigo é Mário. Não tinha jeito, eu precisava desses eventos para continuar a história.

E tenho, em Amor de redenção, um caso de diabolus-ex-machina (o termo é invenção minha). Chamo assim porque quem apareceu não veio para ajudar, mas era necessário para manter Ágila vivo até encontrar Camila. O próprio fato de Ágila atravessar os séculos vivo é inverossímel, mas a motivação da história (que contei aqui) exigia tal coisa, e essa espécie de deus-ex-machina foi o meio que encontrei para compor a personagem com todas as características necessárias.

Percebi que uso bastante o recurso do deus-ex-machina, mas procuro fazer de forma que pareça natural, e que o leitor considere uma “coincidência providencial”, e não uma apelação, ou uma “forçação de barra”. Meus deus-ex-machina costumam ser possíveis dentro da realidade da ficção criada e, portanto, verossímeis.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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