quarta-feira, 21 de novembro de 2012
NÃO É COR-DE-ROSA
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
HISTÓRIA NOVA
Eu sei que não tenho tempo para escrever. Eu não posso parar tudo para escrever. Mas está começando a ficar difícil me conter.
Meu trabalho no Patrimônio Nacional atualmente é a pesquisa do ecletismo em São Paulo, para embasar processos de tombamento já abertos de prédios com essa característica. Estou portanto lendo muito sobre o ecletismo na Europa, no Brasil e especialmente em São Paulo. E o ecletismo chegou a São Paulo junto com o café, nas fazendas do Vale do Paraíba, e depois do Vale do Tietê para, por fim, formar as casas da classe abastada da capital. É impossível não ver as minhas personagens caminhando pelo livro que acabei de ler (A casa paulista, de Carlos A. C. Lemos), pois a história começa numa fazenda de café no interior do estado – provavelmente na região de Campinas – e migra para a capital, e boa parte dela acontece dentro de uma residência eclética. Acho que é a primeira vez que meu trabalho “de verdade” me ajuda nas pesquisas para uma história minha. Até nisso o Iphan é bom para mim.
Eu estava tendo dificuldade para escolher o nome da personagem principal masculina, como comentei nesse texto. Mas, quando lembrei que a família dele é de descendentes de italianos – como eu mesma – eu pude pensar como é a vida dos meus parentes que vivem na colônia, e rapidamente compreendi como será a infância das personagens principais. E encontrei também uma oportunidade de homenagear meu nonno, dando o nome e o apelido dele à minha personagem. Tenho que refazer as cenas usando o nome novo, para ver se funciona. As tentativas foram bem sucedidas até agora, mas é preciso testar as cenas mais densas. Se funcionar, o casal principal terá os nomes do meu nonno e da minha nonna. Embora sejam todos descendentes de italianos nascidos no Brasil – meus avós e minhas personagens – as histórias são muito diferentes.
Essa pesquisa que estou fazendo da arquitetura já me informa sobre aspectos da sociedade, da economia e da cultura da época. Depois terei que ler sobre a história de São Paulo, e ver alguns detalhes específicos, como imigração italiana e a industrialização na década de 1920. Já que a história deve acontecer em São Paulo no início do século XX, não resisto levar minhas personagens à Semana de Arte Moderna – e terei que rever toda a programação. É uma forma que tenho de também estar presente aos grandes momentos da história da arte, e participar das polêmicas e dos debates.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O CISNE
Esse conto é uma fábula, uma fantasia, um conto-de-fadas, sei lá. Não se parece com as coisas que eu escrevo, que têm o pé no chão, contexto histórico, tempo cronológico. Não. O cisne se passa em algum lugar, num tempo passado indefinido. Em dois parágrafos o menino vira homem e logo depois está cercado de filhos. É uma história cheia de símbolos. Alguns eu compreendo; outros, não. É uma história simples e ingênua, mas rica em significados.
Tudo começou com um sonho que eu não lembro mais. Havia um menino e cisnes voando. O menino era triste porque não conhecia sua mãe. Eu quis ajudá-lo e escrevi a história.
Há algum tempo atrás, eu tinha vários contos para publicar um livro. Mas eles vão morrendo com o passar dos anos, à medida que eu vou percebendo suas inconsistências (escrever contos não é o meu forte). O cisne vem sobrevivendo pois, por suas características de conto-de-fadas, não há nele inconsistências, apenas símbolos. Meu projeto de publicação para ele, hoje, agrupa-o com outro conto, os textos de prosa poética e as poesias – todos sobreviventes de um processo de seleção rígido.
É difícil falar das características de um conto sem estragar as surpresas da história. Então paro por aqui.
LABIRINTO VITAL
Este conto é uma alegoria. Fala simbolicamente da vida, da morte, dos relacionamentos interpessoais, da busca do sentido da vida, do papel da arte e do artista na construção do conhecimento humano. Não me lembro mais de onde veio a idéia de escrever um texto desses, pois não é o tipo de história característica do meu estilo. Talvez influência de Jorge Luís Borges, pelas falas aparentemente sem sentido, e encontros plenos de significado, quando as personagens concluem o que é óbvio para elas mas esse óbvio permanece obscuro para o leitor; pelos reflexos; pelo branco de diferentes tons; pelo final que se constrói somente na imaginação do leitor.
As personagens deste conto não têm nome, e o ambiente, por ser metafórico (labirinto), não existe no mundo em que nós vivemos. O tempo poderia ser psicológico, uma vez que absolutamente não é cronológico, se não fosse também totalmente simbólico.
Em resumo, é uma história bastante peculiar, em que não me importa o desenvolvimento das personagens, mas as idéias que pretendo transmitir.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
ROMANCE EM PROSA DO CAVALEIRO DE NOVA GÁLIA
Quando eu era criança, gostava de colecionar figurinhas. Sempre gostei de ver imagens (não me admira ter estudado história da arte). Cansado de gastar dinheiro com álbuns que nunca se completavam e que muitas vezes não acrescentavam nada à minha formação, meu pai me deu todos os selos repetidos dele, para que eu os soltasse do papel, organizasse e começasse a minha própria coleção. Passei alguns meses nessas atividades e, além de uma coleção para mim, ainda separei uma coleção para meu irmão mais novo. Depois desse tempo, perdi o interesse nas coleções de figurinhas, como meu pai tinha calculado. Eram muitos selos repetidos, tanto em diversidade como em quantidade. De um mesmo selo comum, às vezes havia mais de cem. Eram agora todos meus, repetidos, que eu podia trocar e aumentar minha coleção, que não se limitava mais a um livro ilustrado mas abrangia o mundo.
Mas para que estou contando essa historinha? É que foi um selo que me ensinou o alfabeto cirílico russo. Era um selo comemorativo e o mesmo texto vinha escrito em inglês e em russo: “visita do general-secretário Leonid Ilytch Brejnev aos EUA”. Ajudou-me o fato de que, em russo, as palavras visita, general e secretário têm raiz latina, então são muito parecidas com as palavras em português. Assim eu aprendi o que significam as letras cirílicas. Depois conheci uma moça que estudava russo e ela me deu uma cópia da correspondência entre as letras romanas e russas, confirmando muito do que eu já sabia e ensinando letras que eu não conhecia.
Tudo isso para contar que, em julho de 1989, quando comecei a escrever meu primeiro romance de cavalaria, eu estava ansiosa para praticar o alfabeto russo que eu tinha acabado de aprender. Então Romance em Prosa foi toda escrita em português, mas com o alfabeto russo. Desta forma, nem um russo consegue lê-la, pois não entende as palavras nem a gramática, nem um brasileiro consegue lê-la, pois não consegue decifrar o código e chegar às palavras e à gramática. Na época, eu morava no bairro de Santa Teresa, e sempre subia de bonde. Na estação terminal da Carioca, os passageiros se organizam em fila para subirem nos bondes, e é uma fila para cada banco. Ficamos, portanto, muito próximos uns dos outros e a indiscrição é inevitável. Era muito engraçado estar na fila, ver as pessoas olhando para o papel escrito sem conseguir entender nada. As pessoas me olhavam com estranheza ao me verem escrever aqueles signos esquisitos com naturalidade e destreza, mas nunca ninguém me interpelou para perguntar ou comentar o assunto.
Não me lembro o motivo, mas o fato é que a escrevi em papel pequeno de caderno, frente e verso, o que contraria a metodologia que eu vinha construindo. E a outra curiosidade foi em relação à caneta. Como eu sempre usei a mesma caneta para todos os fins, é comum a carga acabar no meio de uma história, pelo menos uma vez. Isso é um transtorno, porque nem sempre tenho uma caneta de reserva para tirar da cartola, assim de repente, E às vezes fico com a impressão de que gastei três ou quatro canetas com a história, quando na verdade uma inteira teria dado conta. Então separei uma caneta Faber Castel só para escrever a história. Por dentro dela coloquei um papel escrito “só para Haliwain” (Haliwain é o nome da personagem principal), naturalmente escrito em cirílico, para que não houvesse risco de que eu confundisse canetas e usos. Como eu supunha, a mesma caneta escreveu toda a história e ainda sobrou. Está guardada na minha coleção de canetas acabadas, como se fosse uma bonita caneta de carga ou com algum diferencial estético, quando seu único valor reside no uso que lhe foi dado.
Cheguei a pensar em fazer uma continuação para Haliwain, mas não consigo nem terminar de escrever Aventuras dos Cavaleiros Cantores, então é melhor não inventar moda.
sábado, 1 de maio de 2010
AMOR DE REDENÇÃO
Aproveitando que estou neste blog abrindo meu coração e contando meus segredos, tenho mais um segredo a revelar: às vezes eu acompanho tele-novelas, mas só quando todo mundo as acha ruins. Não gosto das novelas que as pessoas gostam e acompanham, interessadas na trama, no desenrolar dos acontecimentos: estas para mim são chatas e eu não aceito nelas os clichês, lugares-comuns, deus-ex-machina. Já as novelas “esculhambadas”, que de certa forma assumem sua função de ficção para divertir, e não para retratar a vida, nem para fazer uma crítica à situação social, essas me agradam. E foi uma dessas novelas, que as pessoas consideravam fantasiosa, boba e até não-construtiva (são comentários que ouvi, na época) que me deu inspiração para escrever uma história.
Em 2002/2003, a Rede Globo exibiu O beijo do vampiro, de Antônio Calmon, em que Tarcísio Meira interpretava o vampiro Boris Vladescu, criatura empenhada em conseguir a qualquer custo o amor de Lívia, interpretada por Flávia Alessandra, que era a reencarnação do amor da vida dele, a Princesa Cecília. Por fim, ela o fazia entender que nunca poderia amá-lo, porque ele era o Mal, e ele terminava renunciando a ela, pois era sua natureza ser mau e ele não poderia mudar. Discordei. Eu acredito no Amor, e que o Amor é capaz de vencer até o Mal – provavelmente devido à minha formação cristã. Então eu quis repetir a história da novela, mas com um final diferente, em que o Amor que ele sente por ela é capaz de transformar o Mal em Bem.
Não queria uma personagem vampiro, nem todas as tramas secundárias, necessárias à telenovela. Então criei uma adolescente para ser a amada que reencarna, e pensei como construir um homem que fosse mau como um vampiro, sem o ser, e que de alguma forma estivesse vivo há cerca de 1000 anos – mais ou menos como o vampiro da novela.
Recuar cerca de 1000 anos, a partir de 2003, ano em que eu estava, me põe na Idade Média (de novo!). Sempre que preciso recuar à Idade Média, meu primeiro destino é a França. Por isso tenho evitado o lugar, embora muitas vezes acabe ficando pelas redondezas (Nicolaas em Flandres, Legrant na fronteira com a Alemanha). Então, para variar, escolhi a Espanha visigoda, que termina em 711 com a invasão dos árabes. Li muitos textos, pesquisei fotos e mapas para contextualizar bem essa fase da história, e criei Ágila, um guerreiro impiedoso, thiufadi do Rei Leovigildo, que oscila entre tratar mal sua mulher e maltratá-la, embora a ame. Criei também um artifício demoníaco – um verdadeiro diabolus-ex-machina – para justificar a imortalidade dele até ele encontrar Camila em 2003, a adolescente que vai fazê-lo entender que ela não pode amar o Mal. É quando começa a luta entre o Bem e o Mal, entre o que Ágila é e o que ele quer ser. Tentei não ser simplista nem maniqueísta nesse duelo tão batido entre Bem e Mal. Justifiquei as maldades de Ágila, louvei o diabo, enfraqueci a bondade, culpei o amor, na tentativa de mostrar as várias possibilidades dos sentimentos, e a relatividade dos conceitos de Bem e Mal. Mas, como sou cristã, no final a vitória pertence a Deus e àqueles que Ele ama.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
A NOIVA TROCADA
Considero que é a história mais “água com açúcar” que eu tenho. A trama é simples, e baseia-se num mal-entendido (veja a sinopse aqui).
A primeira pergunta foi: onde vou situar essa história? Em que tempo e lugar isso pode acontecer naturalmente? Eu poderia pesquisar culturas atuais “exóticas”, em que o casamento arranjado pelos pais é uma prática comum, ou podia simplesmente recuar no tempo, quando o mundo ocidental também tinha essa prática. De qualquer forma, teria que pesquisar e estaria fora do aqui e agora. Como eu estava escrevendo Construir a terra, conquistar a vida, que se passa no Rio de Janeiro do século XVI – então eu já estava pesquisando esse ambiente, achei essa alternativa mais prática, e resolvi situar a história no Rio de Janeiro, durante o reinado de D. Henrique, entre a morte de D. Sebastião e a União das Coroas Ibéricas.
Assim, Maria Assunción Hernandez é uma espanhola, filha de portugueses, que vem para o Brasil casar-se com Henrique Carvalho, um português rico que vive e trabalho no Rio de Janeiro. Toda a história acontece numa semana, no mesmo lugar: a fazenda de Henrique, exceto a primeira e a última cena, que acontecem na cidade. São poucas personagens: além do triângulo principal, mais 4 personagens participam da história, e há uns outros que são apenas citados – irmãos e pais do casal principal. Considero que misturei elementos de conto e romance, pois as personagens principais são mais desenvolvidas do que no conto e a trama, embora linear (elemento do conto), é mais elaborada (elemento do romance), ao mesmo tempo que há unidade espacial e temporal (elementos do conto).
Usei essa forma mista também em À procura (conto) e Vingança. Gosto dela porque é simples como um conto mas me deixa espaço para desenvolver as personagens e me estender em número de páginas. Em geral, não me preocupo com forma, mas gosto quando a história que eu quero contar cabe nesse formato.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
CONSTRUIR A TERRA, CONQUISTAR A VIDA
Esta história é meu grande orgulho. Grande em vários sentidos: levei exatos seis anos para escrever suas 876 páginas (depois de digitada, coube em 844 páginas)
Desde que eu cursava o segundo grau, tinha intenção de fazer uma história sobre o início do Brasil, contar as dificuldades e vitórias dos heróicos portugueses que, por coragem, ganância ou falta de opção, vieram viver aqui. Em 1986 cheguei a pensar numa história que contaria a vida de um dos degredados que Pedro Álvares Cabral deixou aqui. Chamava-se Gerações, porque chegaria aos dias de hoje, contando a vida também dos descendentes desse degredado. Projeto ambicioso demais: desisti. Em 1993, morei em São Luís-MA e busquei conhecer mais da história da cidade, onde eu já tinha morado de 1983 a 1987. Ficava imaginando como teria sido para os franceses serem derrotados após tanta luta e terem que deixar a terra. Imaginei o comandante, longe de sua terra, longe da família – talvez para sempre, e seu sentimento de solidão e saudade – ops! saudade é palavra que só existe em português!
Depois, quando eu cursava o mestrado, uma professora comentou que, fora das metrópoles, a forma artística mais comum é a literatura porque não precisa de habilidade manual para ser feita, nem de material de suporte, podendo ser produzida e transmitida oralmente. Então tudo se juntou e eu imaginei um português degredado que tinha saudade de sua terra e fazia versos. Eu estava morando novamente no Rio de Janeiro, e sempre apaixonada por esta cidade e sua história. Aproveitei o conhecimento da história e da geografia da cidade que eu já tinha e a idéia do século XVI e criei Tempos primevos, o nome provisório que ela teve.
A personagem principal é um português que veio degredado para Salvador e novamente numa espécie de degredo vem para o Rio de Janeiro expulsar os franceses em 1567: Duarte Correia. Tirei dele a habilidade de fazer versos porque queria que ele representasse melhor a maioria da população da época, que era iletrada, mas a saudade eterna de sua amada Lisboa permaneceu. Depois criei uma segunda personagem, um brasileiro de Salvador, mais novo, para criar uma espécie de contraponto entre os pontos de vista do português reinol e do português da colônia. Assim nasceu Fernão Lopes. Escolhi propositadamente nomes que não usamos mais no Brasil, e que se tornaram Eduardo e Fernando, mas que eram bastante comuns na época.
Recriar um tempo tão remoto sobre o qual não há muita informação organizada foi um constante desafio. Nunca li tanto para ter base para escrever uma história. Também, eu me propunha a cobrir praticamente toda a segunda metade do século XVI no Rio de Janeiro. Acabei terminando a história em 1592, quando achei que os problemas principais estavam resolvidos ou bem encaminhados, não apenas na geração de Duarte e Fernão mas também na dos filhos deles – aquela idéia primeira de falar de mais de uma geração. Era muito interessante comentar com os amigos que estava escrevendo uma história ambientada no Rio de Janeiro do século XVI, e ouvi-los responder: “século XVI? Mas nessa época não havia nada aqui!” E eu dizia: “Havia, sim: minhas personagens estavam lá”.
A experiência foi tão intensa e vívida e minhas personagens são tão reais para mim que hoje eu falo delas e dos lugares por onde elas andaram como se elas tivessem de fato existido: “a casa de Duarte era aqui”; “ali é onde morava Fernão, naquela rua que não existe mais” (embora a Rua de Fernão Lopes nunca tenha existido); “tem sangue de Duarte neste chão”; “aqui foi onde Duarte conheceu Ayraci”; aqui eles fizeram isto e aquilo. E ainda reclamo que os livros de história da cidade não registram a passagem das minhas personagens por aqui, e seus feitos em prol do desenvolvimento da cidade.
Provavelmente cometi algum engano histórico e/ou de caracterização, pois certamente há muita coisa que eu não li e, na falta da informação correta, invento conforme o que entendo como necessidades da trama. Mas a história das personagens está entranhada na história da cidade como se fosse uma coisa só. Talvez este seja o único romance histórico que eu tenho, enquanto os outros são apenas histórias que acontecem no passado. De qualquer forma, é minha Saga, meu Gigante, meu canto de amor e louvor à Cidade que será sempre Maravilhosa, apesar de seus problemas.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O PROCESSO DE SER
Um dia, em 1986, eu sonhei que um homem caia num rio gelado e era salvo da morte por um outro homem, e ele queria demonstrar gratidão, embora o salvador insistisse em que não era necessário. Quando acordei, escrevi um texto sobre o valor da gratidão, mas fiquei revendo a queda e o salvamento e quis escrever o sonho. Comecei então a procurar, no meu velho Atlas, rios grandes e gelados, em que pudesse situar a história. Acabei descobrindo Verkhoyansk, às margens do rio Yana, a cidade mais fria do mundo. Achei que seria frio e branco o suficiente e situei a história ali.
A pesquisa prévia foi muito superficial, pois o material impresso a que eu podia ter acesso era escasso. Somente em 2002, quando eu fui prepará-la para a publicação, é que eu consegui textos e figuras para servirem de base a uma melhor contextualização da trama. Por ser uma história intimista, que trata justamente de solidão, não precisei mexer em alguns aspectos fundamentais, mas apenas ajustar a luz e as estações.
A grande emoção foi encontrar a cidade e imagens dela. Quando eu escrevi, eu nem tinha certeza se a cidade de fato existia, ou se era apenas um termômetro no meio do nada. Eu estava completamente no escuro do inverno ártico...
Lembro quando instalamos o Google Earth em casa. Depois de vermos o Rio de Janeiro e outras cidades que meu marido escolheu, ele me perguntou: “e agora, para onde vamos?” e eu respondi sem nem pensar duas vezes: “Verkhoyansk”. Foi emocionante ver o porte da cidade, as ruas, o telhado das construções – embora toda a região estivesse em baixa definição. Havia uma cidade, havia ruas, havia construções por onde minhas personagens podiam andar.
Depois encontrei o blog de um italiano descrevendo com fotos e textos a viagem dele de Moscou a Ysyakh (capital da Yakutia, onde fica Verkhoyansk) e dali à minha tão desejada Verkhoyansk. Foi fantástica a aproximação em etapas e, de repente, a foto com a cidade à beira do rio, vista das montanhas. Foi como se eu estivesse realmente chegando em Verkhoyansk.
Encontrei também imagens bem interessantes num site de fotos do Ártico. Todas essas informações foram extremamente valiosas na re-contextualização da história. Mas a essência permaneceu a mesma, e O processo de Ser continua sendo a história mais intimista, e a mais auto-biográfica do momento em que eu estava vivendo, em que os símbolos não são tão obscuros.
sábado, 11 de julho de 2009
PRIMEIRO A HONRA
A primeira história na fila de publicação é Primeiro a honra. Passa-se na França no século V. Lembro que, na época em que escrevi, eu pesquisei o contexto religioso, social e militar do ambiente escolhido, chegando ao detalhe do tipo de roupas que as pessoas usavam.
Estava tudo pronto para publicar quando eu resolvi ler uma última vez e meu comentário foi “eu nunca sei em que ano se passa esta história”. E, em seguida, pensei: “caramba, se eu que escrevi não sei, como o leitor saberá?!”
Então resolvi repetir a manobra utilizada em O maior de todos, que só começava a definir a ambientação a partir do segundo capítulo: fazer um parágrafo logo no início, que indicasse época e lugar sem ser didático nem maçante. Quando escrevi a história, eu a tinha situado no reinado de Clodoveu, após a conversão deste ao Catolicismo Romano: sempre quis ter uma história na época dos Merovíngios.
Graças aos vários textos a que tive acesso pela Internet, logo eu tinha dados sólidos para contar nesse parágrafo introdutório, que ajudaria a situar minha história na Frância do ano de 496. A primeira fase da trama se passava em Orléans; a segunda fase, em Reims; e o objetivo da personagem principal era ir a Paris, capital do Reino, encontrar um certo cavaleiro do Rei. Eu tinha escolhido essas cidades pela distância entre elas, que obrigasse as personagens a viagens de mais de um dia (a pé) entre elas. Com essa pesquisa, descobri que Paris só se tornou capital do reino em 508. Em 496, a capital era em Soissons, que fica próximo a Reims. Isso estragava meus planos, pois as longas jornadas eram parte importante na composição dos eventos.
Eu só tinha duas alternativas: mudar a data ou mudar as cidades. Se eu mudasse a data, eventos anteriores na vida das personagens, relacionados à história real, que explicavam contextos, teriam que ser alterados. E tudo se encaixava tão bem com a história em 496... Se eu mudasse a cidade (Reims era o problema), minha família gaulesa deixaria de ser da tribo Rèmi e eu teria que alterar a caracterização. Achei que seria menos complexo mexer o lugar e transportei a segunda fase da história para Paris, e minha família gaulesa deixou de ser Rèmi para ser Parisii, sem maiores problemas.
Estando tudo resolvido, incluí alguns parágrafos logo no início, indicando a época e o contexto em que se passa a história. E assim ela ficou pronta para a publicação. Agora estou fazendo a diagramação e a capa e logo ela estará a caminho da Editora.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
O CANHOTO
No momento, não estou escrevendo nada, nem tendo idéias para um próximo romance. Em março, terminei O canhoto, que rendeu 376 páginas e demorei 629 dias para escrever (quase dois anos inteiros), o que dá uma média de 0,6 páginas por dia, minha média habitual.
O canhoto se passa na Flandres do final do século XII e a personagem principal participa da Terceira Cruzada (1189-1192), o que me exigiu muita pesquisa durante todo o processo.
A história já existia desde 1988, com o nome de Mosteiro, mas estava suspensa (descartada) porque encontrei incoerências na caracterização das personagens e havia alguns clichês e deus ex-machina irritantes.
Então um dia, em 2006, eu lia uma descrição dos mosteiros cistercienses feita por Henri Focillon, no livro Arte do Ocidente: a idade média românica e gótica. A ambientação era tão detalhada que eu me vi andando por aqueles corredores e pensei "tenho que fazer uma história que se passe num mosteiro..." E em seguida lembrei "eu tenho uma história que se passa num mosteiro!" Resgatei o texto e reli algumas partes mas de fato não havia salvação. Mas, se ela estava suspensa, é porque eu tinha carinho por ela e não tinha conseguido descartar completamente. Só havia um jeito: re-escrever. A trama estava pronta, só precisava reformular as personagens e fazê-las agir de novo, de forma mais coerente. Para isso, busquei na Internet informações sobre o ambiente escolhido: Bruges, 1186. Foi quando me deparei com o primeiro problema.
Em 1988, quando escrevi Mosteiro, eu não tinha muito acesso a material sobre os vários assuntos que eu tinha que saber para uma história de tal envergadura. Li alguns livros da Biblioteca Nacional mas a vontade de escrever logo não me deixou pesquisar muito. Em 2006, com a Internet à minha disposição, me oferecendo rapidamente textos, meta-textos, fotografias e mapas, a pesquisa foi mais profunda e eu descobri que minha história francesa, feudal e rural tinha que se tornar uma história flamenga, citadina e urbana.
A primeira dificuldade a resolver foi os nomes das personagens, que eram em francês. Em Mosteiro, eu tinha François Beauvans, sua mulher Charlotte e os dois filhos Robert e Jean Michel - este último a personagem principal. Parecia fácil simplesmente traduzir mas não gostei de Jan Michael. Eu estava acostumada à sonoridade suave de Michel, enquanto Michael é um nome duro. Então o grande dilema: mudar o nome da personagem principal, o que significa mudar a personalidade e a imagem que tenho dela. Foi difícil, mas tive essa coragem. Como em Michel, eu queria um nome oxítono, que tornasse possível o ritmo que eu tinha no nome francês em flamengo. Uma amiga que morou na Holanda me deu uma lista com cinco sobrenomes para eu usar na história e eu escolhi Van de Linde para a família principal, ao mesmo tempo em que me decidia por Nicolaas, em lugar de Michel.
Depois tive que destituir o canhoto de sua posição de senhor feudal e fazê-lo filho de comerciante rico. A caracterização acabou sendo mais fácil e a ocupação profissional dele ao longo do percurso foi mais coerente, mas tive que incluir uma personagem para treiná-lo em esgrima para a Cruzada.
Também tive que estudar sobre os Beneditinos e escolher um mosteiro para Nicolaas ingressar, e fazer a vida dele no mosteiro conforme a Regra de São Bento (não era assim em Mosteiro).
Depois foi "só" guiar as personagens pela história já conhecida e planejada, aproveitando algumas falas, gestos e atitudes mais marcantes da primeira versão e o Mosteiro se tornou O canhoto.
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Um pouco sobre mim
- Mônica Cadorin
- Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.