quarta-feira, 21 de julho de 2010

ROMANCE EM PROSA DO CAVALEIRO DE NOVA GÁLIA

Quando eu era criança, gostava de colecionar figurinhas. Sempre gostei de ver imagens (não me admira ter estudado história da arte). Cansado de gastar dinheiro com álbuns que nunca se completavam e que muitas vezes não acrescentavam nada à minha formação, meu pai me deu todos os selos repetidos dele, para que eu os soltasse do papel, organizasse e começasse a minha própria coleção. Passei alguns meses nessas atividades e, além de uma coleção para mim, ainda separei uma coleção para meu irmão mais novo. Depois desse tempo, perdi o interesse nas coleções de figurinhas, como meu pai tinha calculado. Eram muitos selos repetidos, tanto em diversidade como em quantidade. De um mesmo selo comum, às vezes havia mais de cem. Eram agora todos meus, repetidos, que eu podia trocar e aumentar minha coleção, que não se limitava mais a um livro ilustrado mas abrangia o mundo.

Mas para que estou contando essa historinha? É que foi um selo que me ensinou o alfabeto cirílico russo. Era um selo comemorativo e o mesmo texto vinha escrito em inglês e em russo: “visita do general-secretário Leonid Ilytch Brejnev aos EUA”. Ajudou-me o fato de que, em russo, as palavras visita, general e secretário têm raiz latina, então são muito parecidas com as palavras em português. Assim eu aprendi o que significam as letras cirílicas. Depois conheci uma moça que estudava russo e ela me deu uma cópia da correspondência entre as letras romanas e russas, confirmando muito do que eu já sabia e ensinando letras que eu não conhecia.

Tudo isso para contar que, em julho de 1989, quando comecei a escrever meu primeiro romance de cavalaria, eu estava ansiosa para praticar o alfabeto russo que eu tinha acabado de aprender. Então Romance em Prosa foi toda escrita em português, mas com o alfabeto russo. Desta forma, nem um russo consegue lê-la, pois não entende as palavras nem a gramática, nem um brasileiro consegue lê-la, pois não consegue decifrar o código e chegar às palavras e à gramática. Na época, eu morava no bairro de Santa Teresa, e sempre subia de bonde. Na estação terminal da Carioca, os passageiros se organizam em fila para subirem nos bondes, e é uma fila para cada banco. Ficamos, portanto, muito próximos uns dos outros e a indiscrição é inevitável. Era muito engraçado estar na fila, ver as pessoas olhando para o papel escrito sem conseguir entender nada. As pessoas me olhavam com estranheza ao me verem escrever aqueles signos esquisitos com naturalidade e destreza, mas nunca ninguém me interpelou para perguntar ou comentar o assunto.

Não me lembro o motivo, mas o fato é que a escrevi em papel pequeno de caderno, frente e verso, o que contraria a metodologia que eu vinha construindo. E a outra curiosidade foi em relação à caneta. Como eu sempre usei a mesma caneta para todos os fins, é comum a carga acabar no meio de uma história, pelo menos uma vez. Isso é um transtorno, porque nem sempre tenho uma caneta de reserva para tirar da cartola, assim de repente, E às vezes fico com a impressão de que gastei três ou quatro canetas com a história, quando na verdade uma inteira teria dado conta. Então separei uma caneta Faber Castel só para escrever a história. Por dentro dela coloquei um papel escrito “só para Haliwain” (Haliwain é o nome da personagem principal), naturalmente escrito em cirílico, para que não houvesse risco de que eu confundisse canetas e usos. Como eu supunha, a mesma caneta escreveu toda a história e ainda sobrou. Está guardada na minha coleção de canetas acabadas, como se fosse uma bonita caneta de carga ou com algum diferencial estético, quando seu único valor reside no uso que lhe foi dado.

Cheguei a pensar em fazer uma continuação para Haliwain, mas não consigo nem terminar de escrever Aventuras dos Cavaleiros Cantores, então é melhor não inventar moda.

domingo, 11 de julho de 2010

Os romances que estão na fila de impressão estão prontos para serem publicados?

Na verdade, não. Eles estão apenas escritos e aprovados em avaliações sucessivas. Somente quando chega a vez daquele texto ser publicado é que eu dou a ele a forma definitiva. É quando verifico principalmente se a contextualização foi feita a contento, e se as descrições de personagens e locais existem e aparecem na hora certa. Nessa fase do trabalho com o texto, ainda posso retirar falas – e até cenas inteiras que me incomodam, e acrescentar detalhes, falas e cenas inteiras. Só o que não está mais sujeito a mudança é a estrutura da história e a caracterização das personagens. Também não costumo nem incluir nem retirar personagens.

As personagens de Primeiro a honra, por exemplo, só foram descritas agora, enquanto preparo a publicação. Já percebi também (e até já disse aqui) que terei o mesmo trabalho quando for a vez de O canhoto. Outro dia, reli trechos de Fábrica e me assustei ao encontrar uma observação de que, em certo ponto, deve entrar o trecho com a descrição da fábrica. A fábrica é o cenário principal da história e eu não o descrevi! Preciso voltar a esse texto, porque também não lembro se descrevi direito as personagens. Além disso, falta-lhe um título. São todas questões que eu resolverei quando for a hora de publicar essa história.

Às vezes, a complementação necessária consiste em apenas acrescentar um parágrafo para situar o local e a época, como aconteceu em O maior de todos. Às vezes, é necessário dar mais consistência às personagens e suas questões pessoais, como foi com O destino pelo vão de uma janela.

A história que mais mudou nessa fase de preparação para publicação foi O processo de Ser. Em 1986, quando a inventei, eu tive acesso a pouco material sobre a cidade e a região, como são as pessoas e a vida naquele canto do mundo. Então, quando fui publicar, fiz nova pesquisa e consegui mais informações, que me permitiram fazer alterações importantes que enriqueceram a história. Troquei a religiosidade ortodoxa russa por expressões folclóricas do local: a festa do verão, em vez de ser a Páscoa, passou a ser o Ysyakh. Acentuei a questão do frio com informações sobre a luz. Considerei também que o sentimento de gratidão de Piotr não estava bem explicado, então praticamente acrescentei uma cena inteira após uma cena que já existia, em que esse assunto era abordado de forma muito superficial. Mudei também umas falas e gestos aqui e ali, por falas e gestos mais maduros – em 2003, quando publiquei, eu não tinha mais os 16 anos de quando criei, nem os 19 anos de quando escrevi.

Então, de fato, minhas histórias só estão realmente prontas quando se tornam livros. E, mesmo assim, às vezes acontece de eu lembrar de uma cena e pensar em algo para melhorá-la. Aí eu lembro “Ah, já publiquei, deixa pra lá”. Enquanto a gráfica não liga as máquinas, eu me dou o direito de ainda tentar melhorar os meus textos.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

COMO SE FAZ UM ROMANCE HISTÓRICO?

A meu ver, todos os romances são históricos. É claro que são exceção aqueles ambientados fora do tempo/espaço, os romances de ficção e os de fantasia.

Quando se fala em romance histórico, a primeira impressão é de que se trata de uma história ambientada no passado. Mas as histórias do presente também expressam a realidade de uma época, de uma visão de mundo e de um modo de pensar.

À primeira vista também, é mais fácil escrever ambientando a história no tempo presente, pois a contextualização é mais simples, uma vez que se considera que conhecemos a época que estamos vivendo. Ah, sim, conhecemos, mas quanto do que sabemos colocamos no romance? Muitas vezes, pelo contexto ser natural tanto para o escritor como para o leitor, deixamos os detalhes de fora, escondidos, mal-explicados só nas entrelinhas. Precisamos sempre pensar como fizeram os romancistas do século XIX, que nos deixaram um panorama bem delineado e detalhado da época em que viveram. Até mesmo a pesquisa histórica científica pode se basear nos livros da época para reconstruir o que foi o século XIX.

O cuidado para se escrever uma história ambientada no presente ou no passado deve ser o mesmo: contextualizar bem. Para isso, é importante que o autor tenha bom conhecimento de aspectos da época escolhida: sociedade, economia, filosofia, política, religião, arte, literatura, e que considere que o leitor não tem conhecimento específico nenhum, e aprenderá o que é aquela época lendo o livro. É preciso, no entanto, cuidado para não transformar a obra literária num livro didático escolar. Deve-se evitar explicação durante a narração. Ao invés disso, é melhor fazer as personagens agirem com naturalidade naquele ambiente. Em vez de dizer que a sociedade era patriarcal, construa uma cena em que o desejo do patriarca prevalece sobre todos os outros, e um filho indignado contendo a raiva e submetendo-se à vontade do pai. Outro artifício interessante é juntar duas pessoas de grupos diferentes, e uma explicar à outra certos aspectos. O cuidado aqui é para que a explicação não se torne uma aula, nem tenha tom didático. As comparações são maçantes: “você é um guelfo e por isso pensa assim. Eu sou um gibelino e por isso penso assado” e também é melhor que sejam evitadas.

Em Construir a terra, conquistar a vida, o caráter guerreiro da cultura de Ayraci é expresso na atitude dela, quando ela reclama por Duarte prezar a paz; no critério de escolha dos nomes dos filhos deles; no que ela decide que quer como prova de amor; em tudo o que Duarte faz para agradá-la e viver bem com ela.

Gostei de como contextualizei o caráter mercador de Nicolaas, em O canhoto. No século XII, época da história, os mercadores não eram mais uma escória de aproveitadores, como no início do século XI, mas também não eram todos comerciantes respeitáveis. Um centro mercantil importante como era Bruges (em Flandres, atual Bélgica) não teria certamente só um tipo de mercador. Havia, provavelmente, os honestos e os desonestos, e os honestos por certo seriam bastante respeitáveis – como eu queria que fosse a família e o próprio Nicolaas. Então, quando ele encontra Miguel, o espadachim, vemos a situação dos mercadores do século XII por um outro ponto de vista – o dos guerreiros, e vemos como o limite entre honestidade e desonestidade ainda era bem tênue. Nesse mesmo encontro, tive a oportunidade de explicar a situação dos heróis guerreiros pelo ponto de vista de um mercador que dá mais valor ao dinheiro do que ao orgulho, para mostrar que o limite entre a honra e a arrogância também era muito tênue. Esses encontros de culturas e visões de mundo diferentes são perfeitos para desenvolver a contextualização sem cair no didatismo óbvio e maçante. Enquanto cada um defende seu ponto de vista, eu aproveito para explicar tudo o que eu quero.

A construção do romance histórico é igual à construção de qualquer outro romance. A diferença é que as personagens do passado agem de forma diferente de nós e, estranhamente, acham isso muito natural...

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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