domingo, 21 de outubro de 2012

PREOCUPAÇÕES “PÓSTUMAS”


Tenho estado preocupada com o futuro de Toni. Não com os eventos que eu vou contar, mas justamente com o que vai acontecer a ele depois que eu acabar a história. É muito fácil para mim dizer que a história acaba em 1928, colocar ponto final e partir para inventar outra coisa. A história acaba, mas não a vida dele. Será que a Grande Depressão, de 1929, vai atingi-lo de alguma forma? Será que ele vai perder dinheiro? Será que vai perder o emprego? Onde estará ele durante a Revolução Constitucionalista de 1932? Será que ele se sentirá impelido a participar de alguma forma? Será afetado, mesmo se ficar de fora (como aconteceu durante a Greve Geral de 1917)? Como serão seus filhos? Seus netos? Como será que ele vai ficar quando velho?
São dúvidas assim que povoam a minha mente. Mas Toni não é o primeiro, e provavelmente não será o último. O futuro das minhas personagens depois que a história acaba é sempre uma preocupação à parte, porque foge ao meu controle. Eu sei tudo o que vai acontecer com a personagem durante o período da história mas, em geral, não invento o que vai acontecer fora desse período. Às vezes sei algumas coisas – por exemplo, que a personagem não vai viver muito tempo mais; ou que os problemas que ela pensa que resolveu voltarão a atormentar; ou que o cônjuge querido não é perfeito como se desejava e há conflitos sérios à vista. Mas não fico detalhando esse tipo de evento, pois não vou contá-los a ninguém, então às vezes tenho certas angústias por não ter certeza do que vai acontecer a eles, nem quando, nem como.
Já aconteceu de eu pensar em fazer uma continuação da história, uma seqüência, num volume ou título separado – foi com Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, quando eu contaria como o bravo Haliwain se casou com a bela Adriane, como tiveram filhos, como a vida se tornou rotina e como, por fim, sendo protótipo de cavaleiro do ciclo arturiano, ele morreu bravamente em combate e, homenageando Tristão e Isolda, Adriane morreu de tristeza junto com ele. Quando tudo isso estava delineado e eu tinha a sequência de eventos, desisti: tanto esforço para escrever um livro só para contar que meu heroi paladino é humano e morre? Achei que não seria justo para com ele e não levei a ideia adiante.
Outras duas vezes, eu consegui soluções diferentes: 1) em Amor de redenção mesmo sem detalhar, eu contei os eventos futuros mais relevantes – tanto que a história vai até 2047; 2) Construir a terra, conquistar a vida tem uma estrutura engraçada: os dois primeiros anos têm um ritmo, e depois de contá-los eu já poderia colocar ponto final e acabar ali a história. Mas ainda tinha tanto a contar, faltava nascer crianças, faltava decidir a vida de Fernão... então continuei, detalhando os eventos seguintes, escrevendo e contando: como nascem os filhos, como a vida se torna rotina, como a rotina muitas vezes é quebrada, como os filhos crescem, e se casam, e vêm os netos... Quando enfim pus o ponto final, o destino de todos já estava definido e, de certa forma, contado, então não havia nenhum resíduo a me angustiar.
Mas essas três histórias são exceção, e tiveram tratamento diferenciado. A regra mesmo é eu ficar me preocupando (inutilmente) com o futuro das minhas personagens, mesmo sabendo que, salvo raras exceções, a essa altura todos os problemas delas estão resolvidos, afinal estão mesmo todas mortas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

KARL E CURT / CURT E KARL


 São as personagens de O maior de todos que disputam o poder sobre o pequeno e frágil reino germânico de Durpoin. Quando eu sonhei essa história, Curt era a personagem predominante, que tinha que influenciar o Rei para salvar Lisbet, depois do acidente com a Rainha. Karl era apenas um menino com uma coroa na cabeça, alguém que não resistiria à persuasão de Curt. Senti a confiança de Curt em seu próprio poder, apesar das circunstâncias, e resolvi escrever a história para mostrar isso.
Quando eu escrevi essa história, Curt era a personagem principal, o protagonista, aquele que conduz, não apenas a trama, mas também o destino do reino e das pessoas que estão nele. Ele era o poderoso Curt Legrant, o conde que manda no rei, que domina o conselho dos ministros, e cuja palavra é lei. Karl era um jovem frágil, inexperiente, dependente de Curt, ansiando por libertar-se mas geneticamente predestinado à submissão, embora capaz de uma subversão em algum momento.
Quando analisei essa história, vi o conflito entre o grande e o pequeno, vi como Curt e Karl se alteram no poder, e vi que conseguir o que se quer nem sempre é o melhor que pode acontecer a alguém. Na minha leitura, Curt era o protagonista e o antagonista eram as circunstâncias. Karl era um terceiro, sem papel identificado.
Então veio o blog e, para produzir estes textos, novas análises foram necessárias. Explorei os aspectos que eu já tinha observado e fiz novas observações. O primeiro estranhamento foi quando tratei da Jornada do Herói. Outros protagonistas eram ou não heróis, mas aqui quem faz a Jornada é Karl, e não Curt. Depois falei dos protagonistas e antagonistas, e contrapus Curt a Karl em alternância, o que também é estranho, já que Karl não age contra Curt. Mas foi ao analisar os inimigos de confiança que uma nova luz se fez: o protagonista de O maior de todos é Karl. Curt é, na verdade, o antagonista. É Curt quem precisa ser detido em sua sede de poder; é Curt quem se opõe a que Karl reine plenamente, como rei recém-coroado que é. Curt não é um vilão, porque não faz maldades, e tem seus próprios problemas pessoais para resolver, aos quais dedica muita atenção. Mas o objetivo de sua vida é atrapalhar Karl e é isso o que ele faz todo o tempo, no papel de antagonista. E, por fim, quem subjacentemente está conduzindo a trama, quem soluciona o conflito de poder é Karl, num papel de protagonista que vai crescendo ao longo da história.
Dessa nova leitura, surgem novas questões, que vou contando aqui à medida que for conseguindo refletir sobre elas e elaborá-las.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MELHOR AMIGO OU INIMIGO


Minhas histórias não são do tipo que um herói vence inimigos. O conflito protagonista – antagonista não é óbvio. Há casos em que o antagonista é alguma circunstância, e não uma outra personagem. E, como não gosto também dessa visão simplista de bem x mal, costumo desconstruir a relação mocinho x vilão. Muitas vezes, o vilão é a pessoa em quem o mocinho pode confiar, não por ser a única alternativa, mas por ser a melhor. Em algum momento da trama, a pessoa que, de alguma forma, quer o mal para o protagonista se torna a pessoa em quem o protagonista pode realmente confiar. Algo como se o vilão dissesse “proteja-se apenas de mim, e eu o protejo do resto do mundo”. E há também a possibilidade da pessoa que quer o bem do protagonista, o amigo, por alguma fatalidade, acabar prejudicando e fazendo o mal, em geral, involuntariamente. Vamos falar de cada um em termos de “Caso 1” e “Caso 2”.

Caso 1 – inimigo de confiança

Acho que o típico inimigo de confiança é Curt Legrant. No meio de todo o conflito político, a única pessoa em quem Karl pode realmente confiar é Curt: o próximo na linha sucessória, e o homem cuja missão de vida é enfraquecer o poder do Rei. Talvez por Curt ter objetivos tão explícitos, Karl sabe o que esperar dele, como agir diante dele, e pode confiar a ele sua vida, pois a morte de Karl destrói o objetivo da vida de Curt. E Karl confia nele cegamente.

Fréderic e Ágila são do tipo “eu te projeto do mundo para que só eu lhe faça mal”. É uma proteção que sufoca, que faz mal, porque fragiliza e torna dependente. E, mesmo assim, Ninette e Camila vêem neles a pessoa de confiança, a quem podem entregar a vida sem receios. Há uma cena em que Ninette diz “Será que eu só tenho você?” e Fréderic responde “Não sei se sou o único, mas pode sempre confiar em mim”. Há uma outra cena em que Ágila diz “Mas eu posso protegê-la de tudo. Você está assustada porque vivemos num mundo violento mas você sabe que não precisa ter medo de mim.” E é assim que Camila descreve o abraço de Ágila: “Os braços dele eram como uma muralha a envolvê-la e a protegê-la de tudo. Mas também era um abraço que a isolava do mundo, e criava um universo próprio, em que só eles dois existiam.” E Ninette confia em Fréderic, assim como Camila confia em Ágila.

Quando Alex sugere a Caty que visite a fábrica do pai dela, quer vingar-se dela por sentir-se humilhado pelo comportamento e pela atitude dela. Nessa hora, ele é um inimigo. Mas Caty sente que a proposta dele pode lhe trazer algum bem e segue a sugestão de Alex  Confia no que pensa que ele sente e o segue até a última consequência.

Da mesma forma, quando Jacques começa a contar a Marie eventos do passado, está agindo como inimigo dela, mesmo dizendo que lhe quer bem. Ele também é inimigo de Gustave, mas tanto Marie quanto Gustave permanecem inertes frente à influência dele. Apesar de tudo, Marie confia em Jacques – mais até do que em Gustave.

Caso 2 – amigo que faz mal

Nessa categoria, acho que um dos mais marcantes é Maurits, talvez o melhor amigo de Nicolaas. Por causa dessa amizade, Nicolaas enfrenta muitas dificuldades na vida, mas é uma amizade marcante, que segue firme até o fim da história. Maurits deseja bem a Nicolaas  mas, involuntariamente, faz mal.

Já comentei sobre Letícia e seu papel dúbio, sendo ao mesmo tempo quem ajuda Toni no objetivo imediato e quem o afasta da meta final. Ela é uma amiga, quer ajudar, mas acaba também fazendo mal.

Penso que tudo isso cabe no tema das falsas aparências, que acaba sendo constante nas minhas histórias, de uma forma ou de outra. Inimigos que fazem bem, amigos que fazem mal são subversões das caracterizações típicas. Gosto disso, de não saber o que esperar de uma personagem. Acho que é um ponto de interesse na história: construir personalidades complexas e, de certa forma, imprevisíveis.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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