sexta-feira, 20 de julho de 2012

DURAÇÃO DAS HISTÓRIAS

Não faz muito tempo, publiquei aqui um levantamento de quanto tempo duram as minhas histórias, e descobri que a grande maioria envolve uma curta passagem de tempo – entre uma semana e até dois anos. Apenas poucas histórias têm duração maior. Fiquei pensando em que significado isso poderia ter, e cruzei também outras tabelas para ajudar na reflexão.

Essas histórias mais longas – O destino pelo vão de uma janela, que dura nove anos; Construir a terra, conquistar a vida, que dura vinte e cinco anos; O canhoto, que dura sete anos; e Rosinha, que dura quinze anos – em geral são histórias que envolvem o amadurecimento do protagonista, o que não acontece da noite para o dia, nem em um curto ano resolvendo problemas, pois amadurecer é tarefa para a vida inteira. Então essas tramas longas têm maior profundidade psicológica, em comparação às tramas curtas (exceto O destino pelo vão de uma janela, pois na época eu ainda não tinha experiência de vida e literatura para dar a devida profundidade a Gustave e Marie).

Cheguei a cogitar a possibilidade de que o alongamento da trama, com a necessidade da busca de amadurecimento por parte das personagens, estivesse relacionado a meu momento atual de vida, em que tenho feito certos balanços e chegado a algumas conclusões em termos de maturidade. Em outras palavras, minhas histórias estariam se tornando longas à medida que amadureço. Mas, na verdade, não é isso o que acontece, pois O destino pelo vão de uma janela é do início da carreira, e entre meus projetos para escrever há uma história que não deve durar nem mesmo um ano. Então a longa duração tem a ver mesmo com a necessidade de cada história e cada personagem, e está mais relacionada com os temas tratados do que com meu momento pessoal. Por outro lado, os outros dois projetos que também estão esperando para serem escritos são histórias de longe duração, assim como a história que estou escrevendo agora (Rosinha) e a última que escrevi (O canhoto). Gosto dessa longa duração, de ter bastante tempo e espaço (páginas) para caracterizar e desenvolver as personagens, acompanhá-las enquanto crescem e amadurecem. É um desafio caracterizá-las na transformação, fazê-las mudar sem que percam sua essência e traços fundamentais de sua personalidade.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

EXAGEROS


Tenho que confessar que exagerei um pouco quando disse que, a partir da chegada de Letícia, todas as cenas estavam exaustivamente elaboradas até o final da história. O que acontece, para ser mais precisa, é que, a partir da chegada de Letícia, há mais cenas importantes para a estrutura da trama – estas, sim, foram criadas, recriadas e repetidas muitas vezes. Os momentos fundamentais estão bem detalhados, mas há cenas intermediárias de menor importância – e estas não foram elaboradas exaustivamente. Então, ainda estou sujeita a momentos de indecisão, de não saber como conduzir o texto, para chegar na próxima cena-fundamental-exaustivamente-elaborada. Outras pessoas chamariam de “branco” mas eu não tenho “brancos”, tecnicamente falando. Meus momentos de indecisão seriam mais próximos de um “cinza 70%”, pois eu só tenho que pensar qual é o próximo evento fundamental, ordenar os eventos intermediários, e escrever todos.
Um exemplo dessa não-elaboração-exaustiva de todas as cenas é a presença de Toni na Semana de Arte Moderna. Não é um trecho fundamental para a história, então eu só tinha de certo que ele estaria presente. Acabei fazendo um texto descritivo (e um pouco didático) do que foi a Semana de Arte Moderna, quais os eventos, quem eram os artistas (meu lado historiadora da arte não resiste nessas horas) mas tive que deixar espaços em branco, porque a programação completa da Semana de Arte Moderna está num arquivo no computador e, se meus leitores bem se lembram, eu escrevo a mão. Ou o computador está ligado, ou eu estou escrevendo. São atividades excludentes, e ainda não juntei as duas, para preencher os buracos no texto, que não são poucos, pois houve palestras e/ou concertos em três dias, e é óbvio que eu não decorei a programação para narrar.
Então a Semana de Arte Moderna acabou, e já estamos no final de março. Toni está passando por algumas transformações, deixando de lado algumas características do Toni da primeira fase e se tornando o Toni da segunda fase. Com isso, ele perde aspectos da própria identidade. É interessante fazê-lo mudar gradativamente, um processo que para ele é imperceptível, e que ele só vai perceber quando chegar à terceira fase.
Quando eu escrevi o texto exagerado, eu estava no meio do turbilhão, com uma seqüência grande de cenas fundamentais para escrever. Agora estou num momento mais calmo, por isso reconheço o exagero daquela vez. Como estou sempre elaborando com antecedência, muitas vezes tenho pensado em cenas da terceira fase, e também fico com a impressão de que só ali é que a história vai realmente começar, pois será quando o conflito principal vai ser finalmente abordado, em conjunto com outros sub-temas, que estão sendo construídos na primeira e na segunda fases. A verdade é que são pontos de virada, pequenos momentos de clímax para manter o leitor interessado e atento.
Estou chegando à página 200... e ainda tenho muito para contar...

domingo, 1 de julho de 2012

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 13 MESES


Estou tentando dar um gás maior à escrita de minha história atual, e tenho conseguido escrever mais do que a meia página da média do primeiro ano (como contei aqui). Estou na segunda fase desde a página 125, quando Letícia entrou na história para bagunçar por um lado – e arrumar por outro – a vida de Toni. Estou na página 187 e só um mês se passou. O momento é a Semana de Arte Moderna (fevereiro de 1922), e é claro que Toni esteve presente. Ele não vaiou as palestras nem os concertos, como outras pessoas presentes, mas achou horrorosas as pinturas e esculturas, dormiu nas palestras, e ficou horrorizado com os concertos. Mas é preciso perdoá-lo, pois ele ainda é apenas um lavrador tentando a vida em São Paulo, alguém que nunca antes teve acesso a expressões artísticas eruditas. É natural que ele não saiba apreciar toda inovação que o evento veio trazer à História da Arte Brasileira. Na verdade, o público que esteve presente à Semana, em geral, também não gostou das novidades, embora a maioria tivesse formação erudita. Então Toni está na média.

Enquanto estou escrevendo, vou repassando a estrutura projetada inicialmente, e fazendo os ajustes necessários. E é engraçado como os fatos se entrelaçam e determinam o tempo da história. Eu tinha programado um evento para setembro de 1924 mas depois quis puxar esse evento para março de 1924 - achei que iria demorar demais acontecer só em setembro. Conferindo minhas anotações, percebi que a Revolução Tenentista em São Paulo aconteceu em 5 de julho de 1924 (exatos dois anos após o episódio dos Dezoito do Forte, no Rio de Janeiro) e esse evento que eu tinha programado tem que acontecer após a Revolução Tenentista. Então tratei de recalcular tudo colocando o evento de volta a setembro de 1924, conforme o projeto inicial. Interessante como muitas vezes uma simples alteração de data muda toda a história. Nada como ter um projeto inicial para guiar todo o trabalho, e para o qual se pode voltar, se alguma alteração der errado.

Outra coisa que quero citar, como uma coincidência ilustrativa (não vale a pena escrever um texto só sobre isso, então estou encaixando aqui mesmo) é a música Asa Branca de Luiz Gonzaga, gravada na década de 1940. Não sei porque essa música voltou à minha memória recentemente, mas sei que eu a chamei pela estrofe: “Então eu disse adeus Rosinha // Guarda contigo meu coração”. Que coincidência! É basicamente o mesmo que Toni fala ao se despedir de Rosa! Minha Rosa, como a Rosinha de Luiz Gonzaga, é a amada que fica para trás, na árdua tarefa de esperar, enquanto seu amado vai em busca de melhores oportunidades, de novas chances de vida. E Toni também disse outra estrofe de Asa Branca: “Eu te asseguro // Não chores não, viu? // Que eu voltarei, viu? meu coração”. A motivação é diferente, mas a história é a mesma: o homem se aventura por uma vida melhor, enquanto a mulher espera o retorno de seu bravo herói. Assim são as histórias medievais. A gente rodeia, rodeia mas não consegue se livrar desse inconsciente coletivo, que está gravado no imaginário mais profundo.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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