segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

COMO O PENSAMENTO FUNCIONA

Minha infância e adolescência foram marcadas por muita leitura (especialmente romances) e muito cinema. O estímulo à narração sempre foi muito forte. Ao mesmo tempo, as redações da escola eram desastrosas, pois os professores sempre pediam textos de descrição, argumentação, dissertação. Diálogos não faziam parte do programa. Sempre tirei notas baixas em redação, até que consegui contar uma história com o texto proposto. Mesmo não tendo escrito diálogos, fiz uma narração.

Eu penso em forma de cena, de diálogo, de relação. No final de 2010, recebi um PPS cheio de fotos, e uma delas me impressionou. Se eu fosse poeta, tinha escrito um poema que recriasse aquela imagem com palavras, ou um texto poético em prosa, que descrevesse a beleza da foto. Em vez disso, escrevi uma cena curta, que sintetiza passado e presente do momento retratado. Considero que há poesia no texto, mas não é um poema, nem o que se chama “prosa poética”, pois consiste apenas em um diálogo. Sem descrições, sem contextualizações, sem nenhuma explicação. Apenas a conversa (amorosa) de dois seres que se encontram. É um texto que não existe sem a foto, pois é ela que contextualiza e descreve. A foto existe sem o texto mas, modéstia à parte, ganha em poesia com ele. Eu gostaria de descobrir o nome do fotógrafo antes de divulgar o texto e a foto, para dar o devido crédito (e defender os direitos autorais!) Por isso não a publico aqui.

Há pessoas que pensam em forma de som, outros pensam em forma de cor, outros pensam em forma de objeto, outros pensam em forma de palavra, outros pensam em forma de movimento, outros pensam em forma de cena, etc. Dentro de cada um desses tipos, há subdivisões de materiais e organização estrutural, e ainda os que conjugam mais de uma forma, que é o meu caso. Meus textos têm um pouco de teatro, um pouco de cinema, mas eu escolhi expressar minhas cenas em forma de palavra. Estruturar o texto, escolher o vocabulário, organizar descrição, narração e diálogo nos seus lugares: é o que eu gosto de fazer. Às vezes uso recursos do teatro, como explicar contextos e fazer descrições nos diálogos. Às vezes uso recursos de cinema, como se uma câmera se aproximasse e se afastasse, focasse no primeiro plano e no horizonte. Mas a expressão é a palavra. Eu fiz uma escolha consciente pela literatura e pelo romance. Então, mesmo quando quero expressar uma emoção – o que seria assunto para a poesia – invento uma historinha e faço um diálogo. É assim que eu funciono, e é por isso que escrever romances é tão fácil para mim, enquanto as outras formas de expressão, literárias ou não, são tão impossíveis. Dom? Destino? Prefiro dizer que foi escolha consciente e dedicação, muito estudo e análise, afinal, como dizia (não sei se ainda diz) um amigo meu da faculdade, “Dom é título de nobreza espanhola.”

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

EDIÇÃO EXTRA

Pensei muito, li muitas vezes À procura, e cheguei à conclusão do que fazer com ela. Se eu não acho ótima, se não me empolga, mesmo que esteja bem estruturada, bem contextualizada e bem escrita, não merece viver. Então, emoções de lado, está descartada. De qualquer forma, essas classificações "sobrevivente", "suspensa" e "descartada" não são fixas, mas as histórias podem transitar entre elas com certa flexibilidade. Então, mesmo descartada hoje, pode me empolgar daqui a uns anos e voltar à vida.

Quanto a O Além, digitei inteira em dois dias. Há trechos a melhorar, informações a acrescentar, mas eu achei mais fácil ter a história inteira linear para poder trabalhar. O manuscrito está cheio de emendas, algumas com um parágrafo, outras com duas páginas, e isso dificulta muito a minha leitura e compreensão global da história. Agora, que ela está passada a limpo, vou conseguir fazer os ajustes que quero.

Estas são as novidades.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

NOTÍCIAS DE INÍCIO DE ANO


Depois de passar quase um ano digitando O Canhoto, finalmente terminei. Fiz apenas ajustes mínimos que nem vale a pena mencionar. A história, que eu terminei de escrever em maio de 2009, continua me agradando, e eu continuo achando-a boa literariamente.
Então chegou a hora de rever À procura, que terminei de escrever em novembro de 2009. Para minha tristeza, a história não me emocionou, não me satisfez. Fiquei com uma sensação de “mas é isso?” e “o que vou fazer com isso?”. Depois de tanta pesquisa, de tanta elaboração geológica e psicológica, a história não deu certo. Costumo ser bastante rigorosa e insensível para descartar o que não me agrada mas desta vez deu pena. Por outro lado, ela já estava descartada antes. Reescrever foi apenas uma tentativa de fazê-la voltar à vida em outro “corpo”. Mas a impressão que me ficou foi de que a história que eu tenho para contar em À procura não vale a pena ser contada. E fiquei pensando: já descartei histórias melhores, que me deram trabalho e pelas quais eu tenho carinho. Não vai ser À procura que vai me fazer burlar minha regra ou rever meu critério. Por outro lado, ela está bem construída e bem escrita, as personagens são consistentes e verossímeis. Na verdade, não sei o que fazer com ela. Cada vez que leio tenho uma impressão diferente, e eu queria duas impressões consecutivas iguais para poder decidir. O tempo dirá.
A próxima história a retomar é O Além. Já reli e percebi que preciso intensificar algumas sensações para torná-las mais vívidas e trazer o leitor mais para dentro, fazê-lo andar comigo, ver o que eu vi e sentir o que eu senti. É muito difícil para mim escrever em primeira pessoa: a restrição de ponto de vista acaba restringindo a minha narração. Mas os problemas de O Além são possíveis de solucionar, com um pouco mais de imersão e esforço descritivo. Vou fazer os ajustes necessários e depois digitá-la.
Na outra ponta do trabalho, estou preparando o lançamento de Primeiro a honra, e finalizando a produção editorial de A noiva trocada. Quando tiver datas e horários, avisarei aqui. Depois virá Construir a terra, conquistar a vida, com suas 800 páginas divididas em três tomos. É um projeto ambicioso, e estou pensando seriamente em pedir patrocínio. Se alguém que paga imposto de renda quiser contribuir com minha causa, apresente-se!
Bem, isto é o que tenho feito este ano, e o que pretendo fazer nos próximos meses. 2011 será um ano cheio de acontecimentos!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS COM MUITAS E POUCAS PERSONAGENS

Outro dia, anotei na minha listagem geral alguns nomes de personagens que estavam faltando em O canhoto. Então tive a ideia de fazer este texto, para refletir se há diferença de tratamento entre histórias com poucas personagens e histórias com algumas personagens principais, várias personagens secundárias e muitas personagens coadjuvantes e figurantes. E também descobrir o que para mim são muitas e poucas personagens.

Naturalmente, os contos e histórias curtas têm menos personagens. E naturalmente também, a história com mais personagens é Construir a terra, conquistar a vida, pois são 25 anos e uma cidade inteira envolvida em 895 páginas manuscritas. São ao todo 72 personagens, incluindo as pessoas reais (jesuítas e governantes que têm alguma fala), divididos em 10 grupos. Tentei contar o número de famílias, mas fica confuso, pois as famílias de Duarte e Fernão, ao longo da história, vão se misturando a outras famílias, com o casamento dos filhos, que se tornam também novas famílias. Então Maria, por exemplo, no início pertence à família de Duarte, e João pertence à família de Manoel Machado mas, ao se casarem, se tornam uma terceira família. Diante disso, cada pessoa representa uma família, ao mesmo tempo que cada casal forma uma família. É mais simples dizer que é muita gente e muitas famílias se entrelaçando, como acontece também na vida real.

Acho que a primeira história que escrevi foi a mais sintética de todas, embora, pela estrutura, não fosse um conto. Havia apenas o casal protagonista e o antagonista. Três personagens e as areias do deserto. Não tenho nada mais minimalista.

A Nova Camelot, que se tornou A volta dos cavaleiros da Távola Redonda, que se tornou O sonho de Richard e que hoje está descartada tem a peculiaridade de ter personagens duplas, uma vez que cada uma é ela mesma e o cavaleiro que foi, e eles agem às vezes como um, às vezes como outro, às vezes como os dois juntos. Comecei com 9 personagens duplas + 2 simples (Richard e Artus), passei para 18 duplas + 5 simples (Richard, Artus e os magos) para terminar com 12 duplas + 4 simples (Richard, Artus e os magos).

Quando escrevi Mosteiro, tinha 21 personagens, organizados em 5 núcleos familiares. Dessas 21, 4 são as mais importantes (Michel a principal e mais 3 secundárias). Ao re-escrever e transformá-la em O canhoto, o número de personagens aumentou para 38 e mais duas personagens ganharam importância. Algumas famílias e grupos sociais também se desenvolveram, chegando ao número de oito.

Outra história com muitas personagens é O maior de todos, com o número de 36. Afinal, toda a corte está envolvida, há nobres e povo, ministros, traidores, crianças que nascem.

Sempre que há muitas personagens, a maioria delas não é desenvolvida. A verdade é que não dá para se trabalhar bem com mais de 10 personagens importantes, pelo menos não em menos de 500 páginas (Construir a terra, conquistar a vida tem 14 personagens importantes e 895 páginas para resolver a vida de todos). Personagens importantes têm aspecto físico, características psicológicas e emocionais, problemas a resolver, conflitos próprios. Quando estou escrevendo a história, vou criando personagens à medida que vou precisando delas, sem pensar no número, e vou desenvolvendo-as quando necessário. Histórias com mais conflitos pedem mais personagens. Por outro lado, histórias com mais personagens me possibilitam criar mais conflitos. No fim, uma coisa gera a outra, às vezes uma precede, às vezes outra, sem regra fixa.

Mas percebi que esse número alto de personagens (mais de 30) é exceção, pois a maioria das histórias sobreviventes tem menos. Como em geral tenho um casal protagonista, acabo ficando com apenas esses dois núcleos familiares e mais um ou dois grupos sociais (ambiente de trabalho, amigos, antagonista, comunidade social, etc). É o que acontece em Fábrica, O Aro de Ouro, Primeiro a honra, Vingança, O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, Amor de redenção.

Em O processo de Ser, tenho só um grupo familiar e alguns amigos – já que um dos temas é o isolamento e a vida interior. Em Nem tudo que brilha... também fui bem sintética, com o casal protagonista, um amigo, dois empregados e a casa misteriosa com seus antigos moradores já falecidos. À procura também é interessante por ter apenas cinco personagens, todos com a mesma importância, todos igualmente desenvolvidos (tudo bem, o guia tem um mistério a mais a desvendar) e eles são um grupo profissional e não familiar. Rosinha vem nascendo com três núcleos familiares centrais e até agora 10 personagens. Quando eu escrever, provavelmente precisarei de outras e, ao desenvolver as que já existem, o número de personagens importantes (atualmente uma principal e duas secundárias) deve aumentar também.

Então, em geral escrevo histórias com menos de 30 personagens no total – tramas simples, sem muitos entrelaçamentos, que se resolvem em 100 ou 200 páginas A4 manuscritas. Mas são justamente as histórias com mais de 30 personagens, mais complexas, mais difíceis de gerenciar – pois é necessário cuidar da gradação de importância entre as personagens principais e entre essas e as secundárias – que são as mais gostosas de se escrever.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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