quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AMADURECER O TEXTO

Tenho muita desconfiança das pessoas que acabam de escrever um livro e já saem procurando publicação – quando não publicam os capítulos em seus blogs particulares, à medida que vão escrevendo. Eu não consigo. Não considero que o texto esteja pronto quando se põe o ponto final. Acho que essa é a hora em que o trabalho vai de fato começar. Acho que nesse momento estamos diante de um diamante bruto, que ainda precisa ser bem lapidado e polido para que se torne um brilhante da melhor qualidade.

Ultimamente tenho visto alguns textos de colegas de comunidades que parecem exatamente isso: belos diamantes, mas em estado bruto. A pressa na publicação e no retorno dos leitores (“comentem por favor”) faz que os textos sejam publicados até com erros de digitação e gramática. Às vezes a compreensão da mensagem fica prejudicada por um texto truncado, mal pontuado e mal explicado. Acredito que na maioria das vezes isso acontece porque o botão “Publicar” é apertado antes que o autor releia o que digitou. Isso é muito grave, pois essas pessoas estão considerando que seus textos recém-escritos estão prontos: que seus diamantes são brilhantes. Então recebem comentários vagos de “que lindo”, ou “adorei”, ou o extremo oposto “que porcaria”, ou “aprenda português antes de escrever”. Quando eu comento, procuro apontar as inconsistências, e que há erros de português. Às vezes são coisas simples, que bastava o autor reler para corrigir. Então essa pressa expõe o autor ao público com um texto que ainda não está pronto, que ainda tem muito o que melhorar.

Quem faz isso, em geral, são pessoas que estão começando agora, e estão ainda procurando seus caminhos e descobrindo o próprio estilo. É preciso não apenas ler, mas reler, re-escrever, afastar-se do texto para depois retomá-lo, analisar sintaticamente e estilisticamente, procurar clichês e sempre que possível eliminá-los, afastar-se novamente, retomar, analisar tudo de novo, buscando sempre aproximar o texto da perfeição.

Nossa, mas isso é trabalho para meses! –alguém poderia observar. E eu respondo: SIM! Todo o processo de criação, escrita e amadurecimento pode levar na verdade ANOS! E então eu pergunto: há algum problema nisso? Você não gosta do seu texto? Quer livrar-se dele o quanto antes? A publicação no Brasil é difícil, então é melhor você chegar na editora com um texto que encante o editor e não dê trabalho para virar livro.

Sei que minha escolha é um pouco extrema, pois posso levar meses elaborando e fazendo a pesquisa prévia; depois posso passar mais de um ano escrevendo; depois de pronto, o texto fica guardado por um ano (o tempo que eu preciso para esquecê-lo), e só depois eu releio, avalio, analiso, digito re-escrevendo, releio, e ele fica guardado até chegar a vez de ser publicado. Enquanto isso, continuo relendo, corrigindo, re-escrevendo o que for necessário. Acho que eu me sentiria confortável em procurar publicação para um texto meu somente um ano depois de tê-lo digitado, pois minha fase de polimento só começa após a digitação. Isso significa pelo menos dois anos depois do ponto final. Por sorte (na verdade, por circunstâncias várias), tenho uma longa fila de publicação e meu próximo livro a ser publicado (A noiva trocada) foi escrito em 1996 e vem sendo lapidado e polido desde então, o que me deixa tranqüila de que ele está mesmo pronto para ser publicado.


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A maturidade

Amadurecer o autor

domingo, 11 de setembro de 2011

A MATURIDADE

Um dia, numa das minhas comunidades literárias favoritas, me irritei e meio que “subi nas tamancas”, e por isso resolvi escrever um texto sobre o assunto, mas acabei escrevendo três textos relacionados (este e mais Amadurecer o texto e Amadurecer o autor). A motivação desses textos é que tenho lido muitos textos de jovens colegas que encontro nas comunidades do Orkut e em outras comunidades e fori, que estão começando suas trajetórias agora e acabo ficando indignada com um ou outro, pois demonstram ser talentosos, com idéias interessantes, mas se apressam em mostrar textos recém-escritos, não revisados, inconsistentes e até incoerentes. Eu acabo me sentindo na obrigação de dizer “colega, sua idéia é ótima, mas o texto deixa a desejar”. O conteúdo é bom mas a forma atrapalha. É o trabalho da língua escrita – o objetivo da profissão do escritor! – que puxa o tapete da juventude. Isso acontece pela falta de hábito de escrever – sim, porque estão começando agora! São pessoas com dois ou três anos de carreira, talvez até menos! E foi essa minha indignação que me levou a refletir sobre como amadurecer um escritor e como amadurecer um texto. Como eu não sei da vida dos outros, tratei de pensar na minha vida, e em como esse processo de maturidade vem acontecendo comigo. Por gostar de números e tabelas, levantei a informação de quantas histórias eu já escrevi na vida, para ter chegado no ponto em que cheguei. Devo confessar que os números me surpreenderam, porque eu não esperava tanto. Eu já escrevi 51 histórias completas, e 12 delas tiveram uma segunda versão completa escrita; e 19 histórias ficaram incompletas, algumas com mais, outras com menos páginas. Ou seja, no total já escrevi 82 textos, sendo 63 completos, com começo, meio e fim. E eu tenho apenas 20 histórias sobreviventes, o que significa que, das 63 completas, só 32% se salva e 68% é porcaria.

É claro que não se pode generalizar, e o fato de eu escrever muitos textos ruins não significa que todo mundo escreva também. Mas acho que essas contas servem para mostrar a meus colegas com menos experiência que dificilmente alguém pode ser brilhante todo o tempo; e que encontrar defeitos em seu próprio texto não indica que você é mau escritor, ou que você está fadado ao fracasso. Ao contrário, acho louvável ter humildade de reconhecer seus erros, suas fraquezas, seus enganos – e escondê-los do mundo! Não mostro tudo o que já escrevi, apenas o que eu considero o melhor. Outra conclusão que se pode tirar é: prepare-se para descartar seus primeiros textos (ou re-escrevê-los), porque dificilmente serão os melhores.

Penso que a prova de fogo de um escritor é descartar seu primeiro texto. Quando alguém relê seu primeiro texto e o considera ruim, então há esperança de que se torne um bom escritor, pois já conseguiu um passo de amadurecimento e autocrítica. É por isso que eu sempre sugiro aos colegas: ESCREVA! Escreva sem parar, escreva tudo o que vem à cabeça. Só se aprende a escrever escrevendo. Fazer cursos, ler livros, trocar idéias com os pares pode ajudar mas é a sua intimidade com o seu texto que vai fazer você crescer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E SE A PERSONAGEM PRINCIPAL ESTIVER AUSENTE?

Essa pergunta pode soar estranha, afinal, uma personagem, para ser principal – protagonista – precisa estar presente na história para carregar a trama. Eu sei disso mas, mesmo assim, por três vezes, tentei escrever uma história em que o protagonista não aparecesse. A bem da verdade, ele aparece, ocupa seu lugar de personagem principal e depois é afastado da trama. Tudo acontece por causa dele, e as outras personagens se encarregam de caracterizá-lo, como se ele estivesse presente o tempo todo. Foi o que eu fiz em O caso MArchand, Idade média, e Primeiro a honra. Ao chegar ao final das histórias, porém, fiquei com a sensação de não ter alcançado meu objetivo – talvez por isso duas dessas histórias estejam descartadas, e somente Primeiro a honra tenha sobrevivido, por tratar desse tema de uma forma mais madura e refletida. Porque o que acontece é que essa personagem, ao ser afastada da trama, na verdade perde seu lugar de protagonista, e vai ocupar o lugar de “motivo” da ação das outras personagens. Então Michel Archand não é a personagem principal, mas apenas o motivo pelo qual a história acontece. A personagem principal, o protagonista, aquela que carrega a trama, é o Detetive Chaloult. A história acontece ao redor da personalidade e da vida de Archand, mas quem conduz é Chaloult. O dia que eu souber escrever romance policial, essa história volta à vida.

Há um outro caso, numa história que é claro que não vou dizer o nome, em que a personagem principal morre no final, e eu conto como foram o velório e o enterro, em meio aos lamentos das outras personagens. É muito interessante porque, desde que morre, o protagonista está presente em todas as outras cenas, mas sem dizer nenhuma palavra e sem fazer sequer um movimento (é claro, pois está morto). Ele se torna “motivo” das ações das outras personagens mas seu protagonismo continua sólido como foi em toda a história. Cada palavra, cada gesto das outras personagens parecem dialogar com o silêncio e o imobilismo do protagonista. O silêncio dele fala; a imobilidade gesticula. Como já era mesmo o fim da história, nenhuma outra personagem assumiu o lugar de protagonista – mesmo porque eu não saberia a quem entregar esse bastão.

Escrever com o protagonista em algum tipo de “limbo” é um exercício bastante complexo e, muitas vezes, inglório. Já tive a minha quota e só uma possível re-escrita de O caso MArchand me faria tentar de novo. Mas fica a sugestão para quem quiser experimentar.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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