sábado, 21 de novembro de 2009

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: "o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar". As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história.

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ONDE ESTÃO OS CONTOS?

Pois é, percebi que algumas vezes eu citei aqui alguns contos (História do mundo, À procura) mas eles não estão listados nem especificados em lugar nenhum, só aparecendo no Blog de Apoio. Então resolvi inaugurar uma lista com os contos, que passa a figurar após a lista de Romances na fila de publicação, e fazer este texto explicando porque meu aparente descaso por eles.
Já comentei neste blog que não me preocupo com a forma a priori, e chamo todas as minhas narrativas pelo nome genérico de história. Então meu critério mais forte para determinar se uma história é conto ou romance acaba sendo o número de páginas, em vez de ser a estrutura em si (o que é errado). Se o conflito é rapidamente resolvido, a história é um conto; se demora mais, é romance. O reduzido número de personagens, a restrição de tempo e espaço, a linearidade da trama acabam sendo uma conseqüência do reduzido número de páginas, em vez de ser seu determinante.
Na única vez que submeti meus contos à analise de um contista profissional, ouvi críticas que poderiam ter me desestimulado. Mas, como ele viu qualidades nos capítulos dos meus romances que leu, eu perguntei a ele “então você acha melhor eu parar de fazer contos e ficar escrevendo só romances?” Com um sorriso meio sem jeito, meio “graças a Deus você entendeu rápido”, ele concordou. Desde então, não fiz mais contos, nem pretendo mais fazê-los. Dois deles, inclusive (À procura e História do mundo), eu quero ver se consigo desenvolver mais e transformar em romances. Os outros poucos sobreviventes, vou publicar num volume junto com duas pequenas cenas e alguns textos em presa que escrevi e que, por não terem personagens estruturados, nem uma trama definida, mas serem divagações em forma de ficção narrativa, eu considerava poesia em prosa.
Textos curtos têm necessariamente que ser brilhantes todo o tempo. Não há espaço para erros. Um romance não precisa ser todo excelente, é possível se manter a qualidade apesar de alguns erros. Talvez por isso eu não sirva para ser contista. Desde que me mostraram que não sei fazer bons contos, mas meus romances se salvam, está sendo mais fácil focar no que eu sei fazer melhor e me aprimorar nisso. Assim como foi um pouco frustrante descobrir que não sou contista, e que o mundo agradecerá se eu parar de fazer contos, foi importante saber que meu caminho é o romance, e é onde devo investir e buscar aperfeiçoamento.

SE EU FAÇO POESIAS?

Não. Já fiz. Afinal, qual adolescente nunca fez um poema, uma quadrinha, uma frase poética? Mas parou por aí. À medida que a narrativa em prosa – e o romance em especial – ia conquistando mais espaço na minha vida, a poesia ia sendo abandonada.
Nunca escrevi nada de grande valor em forma de poesia. Não consigo lidar bem com o trio rima-ritmo-métrica. Sei que a poesia moderna aboliu isso mas eu acho importante utilizar pelo menos um. Além disso, minhas frases ficaram longas, e não cabem mais em forma de verso, nem se eu as quebrar: fica visível que é uma frase quebrada, e não um verso.
Apesar de não lhes dar muito valor, pois não são o forte da minha produção, reuni todas as minhas poesias num livro, que vou publicar em algum momento. Tenho pensado em juntar poesias, textos em prosa, remanescentes de contos e publicar um único volume com tudo o que deixou de ser foco da minha produção.

domingo, 1 de novembro de 2009

“Quando você diz manuscrito, você diz a mão mesmo?”

Interessante a pergunta que Ricardo Bruch fez ao comentar o texto NOVIDADES NO BLOG, depois de um passeio pelo Blog de Apoio, onde eu informo de cada história o número de páginas manuscritas. É engraçado pensar como hoje o computador faz parte da nossa vida de tal forma que parece inconcebível que alguém escreva a mão, com papel e caneta.
Sim, eu escrevo tudo a mão. Escrevi a mão todas as 160 páginas de O maior de todos todas as 376 páginas de O canhoto e todas as 876 páginas de Construir a terra, conquistar a vida. Escrever a mão faz parte do meu método, além de muitas vezes ser a única alternativa que tenho.
Uma vez eu resolvi escrever direto no computador. Foi em História da vingança do cavaleiro bretão. Eu simplesmente sentei diante da tela em branco e comecei a digitar e construir a história. A cada releitura, eu fazia alterações, e foi quando me dei conta da desvantagem de escrever direto no computador: perdi para sempre os textos anteriores às correções. Algumas vezes eu imprimi, para ler e corrigir no papel, e só então passar para o computador – gastei muito papel e tinta para imprimir sempre a mesma coisa, e acabei guardando todas as impressões, numa tentativa de salvar alguma informação sobre o processo de construção da história.
Quando escrevo a mão, fica tudo lá, gravado no papel. Se troco uma palavra, a anterior está ali, riscada mas disponível se eu quiser voltar a ela. Vendo o texto manuscrito, eu consigo refazer meu raciocínio, lembrar o motivo que me levou a cada uma das alterações, sejam acréscimos, cortes, mudanças. O meu processo de escrita fica todo gravado no papel. Como só uso papel de rascunho, muitas vezes uso o verso da história para observações da própria história, ou até da minha vida, e é interessante rever isso também, anos depois. Lembro que eu anotei, por exemplo, que escrevi o nascimento de Miguel, o primeiro filho de Duarte, no dia de São Miguel (29 de setembro). Não tenho nenhuma anotação extra feita em História da vingança do cavaleiro bretão.
Comecei a escrever minhas histórias em 1985, quando o computador pessoal ainda era desconhecido no Brasil (pelo menos eu nunca tinha ouvido falar nele). Tínhamos máquina de escrever em casa, mas eu sempre escrevi mais rápido com caneta e papel do que datilografando. Dessa forma, o método foi construído com o raciocínio manuscrito.
Há ainda uma outra questão para eu preferir o processo manuscrito: posso carregar e sacar papel e caneta em qualquer lugar que eu estiver. Consigo escrever até no metrô cheio, e dentro do elevador. Não sou do tipo que precisa de um ambiente ideal para conseguir escrever: preciso só de caneta e papel para registrar minhas idéias. Então o papel acaba sendo também mais prático e facilita meu trabalho.
Conforme expliquei aqui no texto sobre meu método, depois que a história foi toda manuscrita, ela fica guardada numa caixa de arquivo, ou numa pasta, em local de difícil acesso (para eu não ficar relendo), amadurecendo. Depois de um ano, ela é relida e reavaliada. Caso eu a considere boa, eu mesma digito tudo no computador, fazendo às vezes reparos, correções e acréscimos, tanto no papel quanto no computador. Então o manuscrito é definitivamente guardado e as eventuais alterações posteriores passam a ser feitas somente nesse texto digitado, que vai sendo polido e melhorado até chegar sua vez de virar livro e ser publicado.
Os textos do blog também são primeiro manuscritos. Depois vão para um editor de texto no computador e dali para o blog, na data escolhida. Até serem publicados, os manuscritos ficam andando na minha bolsa para cima e para baixo, sendo lidos, relidos e alterados. O texto digitado também anda comigo num pen-drive mas eu não tenho como acessá-lo dentro do transporte público – daí o papel ser mais prático. Quando publico um texto no blog, anoto a data da publicação no texto digitado e, como o processo de escrita neste caso não importa, jogo fora o manuscrito.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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