segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A NOIVA TROCADA

Considero que é a história mais “água com açúcar” que eu tenho. A trama é simples, e baseia-se num mal-entendido (veja a sinopse aqui).

A primeira pergunta foi: onde vou situar essa história? Em que tempo e lugar isso pode acontecer naturalmente? Eu poderia pesquisar culturas atuais “exóticas”, em que o casamento arranjado pelos pais é uma prática comum, ou podia simplesmente recuar no tempo, quando o mundo ocidental também tinha essa prática. De qualquer forma, teria que pesquisar e estaria fora do aqui e agora. Como eu estava escrevendo Construir a terra, conquistar a vida, que se passa no Rio de Janeiro do século XVI – então eu já estava pesquisando esse ambiente, achei essa alternativa mais prática, e resolvi situar a história no Rio de Janeiro, durante o reinado de D. Henrique, entre a morte de D. Sebastião e a União das Coroas Ibéricas.

Assim, Maria Assunción Hernandez é uma espanhola, filha de portugueses, que vem para o Brasil casar-se com Henrique Carvalho, um português rico que vive e trabalho no Rio de Janeiro. Toda a história acontece numa semana, no mesmo lugar: a fazenda de Henrique, exceto a primeira e a última cena, que acontecem na cidade. São poucas personagens: além do triângulo principal, mais 4 personagens participam da história, e há uns outros que são apenas citados – irmãos e pais do casal principal. Considero que misturei elementos de conto e romance, pois as personagens principais são mais desenvolvidas do que no conto e a trama, embora linear (elemento do conto), é mais elaborada (elemento do romance), ao mesmo tempo que há unidade espacial e temporal (elementos do conto).

Usei essa forma mista também em À procura (conto) e Vingança. Gosto dela porque é simples como um conto mas me deixa espaço para desenvolver as personagens e me estender em número de páginas. Em geral, não me preocupo com forma, mas gosto quando a história que eu quero contar cabe nesse formato.

JUAN MIGUEL TORRES

Acho importante dizer uma palavra sobre essa personagem. Não que ela seja mais significativa do que as outras, mas é minha criação mais recente, e tudo na composição dela tem um motivo, que quero contar aqui.

Juan Miguel Torres é personagem de O canhoto, que já foi falada aqui em 1/7/2009, quando contei que é reescrita de uma história de 1988, chamada Mosteiro. Aproveitei de Mosteiro todas as personagens, e fiz apenas ajustes de caracterização, inclusive por causa da re-contextualização da história numa Brugge urbana e flamenga. Jean Michel Beauvans, a personagem principal de Mosteiro era filho de nobre, e sua formação incluía a preparação militar, mesmo ele sendo um canhoto que usa mal a mão direita. Mas Jan Nicolaas van de Linde, personagem principal de O canhoto é um filho de negociante que, por ser um canhoto que usa mal a mão direita, tem dificuldades até mesmo com facas de mesa para cortar o pão. Ou seja, ele nunca empunharia uma espada sem por em risco, em primeiro lugar, a própria vida. Mas a participação dele na Terceira Cruzada da Terra Santa era fundamental para o desenvolvimento da trama. Então eu tive a necessidade de criar para ele um professor de esgrima, que o iniciasse na arte da guerra. Essa personagem nova seria um especialista militar, e seu destino era morrer em batalha, atravessado por uma espada sarracena.

A primeira escolha foi quanto à nacionalidade. Pelos meus planos, Nicolaas e o professor se encontrariam na Itália, mais precisamente em Gênova, cidade mercadora onde Nicolaas poderia trabalhar e se sustentar. Diante disso, a escolha óbvia para esse espadachim era que ele fosse italiano. Mas Nicolaas chega a Gênova em exílio, então achei melhor que esse professor também fosse um estrangeiro, para que eles tivessem algo em comum que os aproximasse, e tornasse possível uma amizade, e o treinamento de esgrima seria conseqüência da amizade, pois Nicolaas – um mercador - nunca procuraria aulas de esgrima, nem pensaria em ir para a Cruzada. Então as alternativas mais próximas passaram a ser francês e alemão, para não mexer com os eslavos do leste. Mas então eu me lembrei de que a Espanha vivia a Reconquista, e um professor espanhol poderia ter toda a família envolvida com treinamentos e guerra, e isso faria dele um bom professor e guerreiro. Além disso, desenvolvi um carinho especial pela Espanha depois que estudei os visigodos, para escrever Amor de redenção.

A escolha do nome Juan Miguel é referência e homenagem a Jean Michel, a personagem principal de Mosteiro. E assim, ele também é João, como Jean Michel, Jan Nicolaas e Hans Günter (o outro grande amigo de Nicolaas, que aparece em outro ponto da história). O sobrenome Torres dá à família a solidez defensiva necessária a quem luta pela expansão de seu território.

Quis que Miguel e Nicolaas tivessem idade e biotipo parecido, para que o relacionamento entre eles não se caracterizasse como mestre-discípulo, mas fosse uma relação entre iguais.

Isso feito, precisava explicar o que um espanhol com esse perfil estaria fazendo em Gênova, e tinha que dar a ele algum problema que Nicolaas pudesse ajudar a resolver, já que Miguel o ensinaria a lutar. Então inventei para ele uma “história anterior” que explicasse a saída da Espanha, a chegada a Gênova, e isso fazia parte do problema de porquê ele não voltava para a Espanha.

Tudo definido, a personagem estava pronta para entrar na história e cumprir seu papel junto a Nicolaas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

TRANSFORMAR CONTOS EM ROMANCES

Este é o projeto que tenho para dois dos meus contos: História do mundo e À procura. Parecia uma tarefa fácil, já que, como disse aqui em 11/11/2009, a única diferença entre meus contos e meus romances é o número de páginas, e não a estrutura. Acontece que há uma série de outros elementos que são menos desenvolvidos nos meus contos – daí o menor número de páginas. Por isso mesmo parecia fácil: bastaria descrever a ambientação, desenvolver melhor a caracterização das personagens, acrescentar alguns diálogos para confirmar as informações e pronto: o conto tinha virado romance. Parecia fácil...
Aproveitando que não estou envolvida em nenhum projeto de criação e escrita, pensei executar logo essa tarefa, e resolver a vida das duas histórias que acabam ficando no limbo. Foi quando descobri que essa transformação não é nada fácil. Percebi que, se não descrevi o ambiente, nem as personagens, é porque esses elementos não são importantes e, na verdade, eu nem sei direito onde a história se passa, nem qual o aspecto físico das personagens. Então não é uma questão de desenvolver: em alguns casos é preciso criar!!
Quando estava revisando o texto sobre os TÍTULOS, percebi que não constavam os contos e resolvi inclui-los. E foi explicando o título de À procura que eu encontrei o gancho para desenvolver a caracterização das personagens: a procura individual de cada um. De repente eu vi as personagens interagindo novamente, cada qual conforme seu objetivo pessoal. Foi como uma luz que se acendesse, e eu peguei uma folha em branco para registrar a idéia – anotar o que cada um procura.
Preciso também situar melhor o local da expedição, com o nome da cidade, nome da gruta – ou das grutas, conforme o local que vou escolher. Então, sabendo exatamente onde a história se passa, poderei acrescentar características regionais às personagens, como entonações e vocabulário.
E não bastará acrescentar as partes novas no texto que já existe: será preciso reescrever, como fiz com O canhoto. É claro que a seqüência de eventos é a mesma, e vou aproveitar todo texto que puder – afinal, o original não é um texto descartado (ruim) – mas o trabalho será realmente de reescrita.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Edição extra

Não aguentei esperar pelo dia combinado, nem pelo texto que já comecei a escrever sobre o assunto, então vou improvisando direto aqui. Qualquer coisa, depois edito.
Estou transformando À procura em romance. Situei melhor a ambientação, que era vaga, descrevi as personagens, criei problemas para todas elas, criei várias cenas novas, muitos diálogos, descrições mais detalhadas do cenário da história, e o conto está virando romance.
Terminei a parte mais tensa, quando o mistério vai ser desvendado. Ontem fui dormir tarde para terminar de fazer. Hoje estou na explicação de tudo. Daqui a pouco (amanhã, porque hoje vou ter que dormir cedo, pois estou com muito sono!), será só terminar. Estou muito contente com o resultado que estou conseguindo, mas acho que vou ter que estudar mais sobre geologia para embasar melhor certas partes. Eu e minhas pesquisas...
É isso. No dia 11, vou postar aqui o texto que fala de como foi que eu decidi transformar o conto em romance.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.

Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.

O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.

O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.

Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.

Nem tudo que brilha... foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.

O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.

O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.

Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.

Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.

A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.

Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.

Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.

Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].

O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.

Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.

Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:

Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.

História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.

Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.

O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.

À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.

sábado, 21 de novembro de 2009

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: "o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar". As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história.

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ONDE ESTÃO OS CONTOS?

Pois é, percebi que algumas vezes eu citei aqui alguns contos (História do mundo, À procura) mas eles não estão listados nem especificados em lugar nenhum, só aparecendo no Blog de Apoio. Então resolvi inaugurar uma lista com os contos, que passa a figurar após a lista de Romances na fila de publicação, e fazer este texto explicando porque meu aparente descaso por eles.
Já comentei neste blog que não me preocupo com a forma a priori, e chamo todas as minhas narrativas pelo nome genérico de história. Então meu critério mais forte para determinar se uma história é conto ou romance acaba sendo o número de páginas, em vez de ser a estrutura em si (o que é errado). Se o conflito é rapidamente resolvido, a história é um conto; se demora mais, é romance. O reduzido número de personagens, a restrição de tempo e espaço, a linearidade da trama acabam sendo uma conseqüência do reduzido número de páginas, em vez de ser seu determinante.
Na única vez que submeti meus contos à analise de um contista profissional, ouvi críticas que poderiam ter me desestimulado. Mas, como ele viu qualidades nos capítulos dos meus romances que leu, eu perguntei a ele “então você acha melhor eu parar de fazer contos e ficar escrevendo só romances?” Com um sorriso meio sem jeito, meio “graças a Deus você entendeu rápido”, ele concordou. Desde então, não fiz mais contos, nem pretendo mais fazê-los. Dois deles, inclusive (À procura e História do mundo), eu quero ver se consigo desenvolver mais e transformar em romances. Os outros poucos sobreviventes, vou publicar num volume junto com duas pequenas cenas e alguns textos em presa que escrevi e que, por não terem personagens estruturados, nem uma trama definida, mas serem divagações em forma de ficção narrativa, eu considerava poesia em prosa.
Textos curtos têm necessariamente que ser brilhantes todo o tempo. Não há espaço para erros. Um romance não precisa ser todo excelente, é possível se manter a qualidade apesar de alguns erros. Talvez por isso eu não sirva para ser contista. Desde que me mostraram que não sei fazer bons contos, mas meus romances se salvam, está sendo mais fácil focar no que eu sei fazer melhor e me aprimorar nisso. Assim como foi um pouco frustrante descobrir que não sou contista, e que o mundo agradecerá se eu parar de fazer contos, foi importante saber que meu caminho é o romance, e é onde devo investir e buscar aperfeiçoamento.

SE EU FAÇO POESIAS?

Não. Já fiz. Afinal, qual adolescente nunca fez um poema, uma quadrinha, uma frase poética? Mas parou por aí. À medida que a narrativa em prosa – e o romance em especial – ia conquistando mais espaço na minha vida, a poesia ia sendo abandonada.
Nunca escrevi nada de grande valor em forma de poesia. Não consigo lidar bem com o trio rima-ritmo-métrica. Sei que a poesia moderna aboliu isso mas eu acho importante utilizar pelo menos um. Além disso, minhas frases ficaram longas, e não cabem mais em forma de verso, nem se eu as quebrar: fica visível que é uma frase quebrada, e não um verso.
Apesar de não lhes dar muito valor, pois não são o forte da minha produção, reuni todas as minhas poesias num livro, que vou publicar em algum momento. Tenho pensado em juntar poesias, textos em prosa, remanescentes de contos e publicar um único volume com tudo o que deixou de ser foco da minha produção.

domingo, 1 de novembro de 2009

“Quando você diz manuscrito, você diz a mão mesmo?”

Interessante a pergunta que Ricardo Bruch fez ao comentar o texto NOVIDADES NO BLOG, depois de um passeio pelo Blog de Apoio, onde eu informo de cada história o número de páginas manuscritas. É engraçado pensar como hoje o computador faz parte da nossa vida de tal forma que parece inconcebível que alguém escreva a mão, com papel e caneta.
Sim, eu escrevo tudo a mão. Escrevi a mão todas as 160 páginas de O maior de todos todas as 376 páginas de O canhoto e todas as 876 páginas de Construir a terra, conquistar a vida. Escrever a mão faz parte do meu método, além de muitas vezes ser a única alternativa que tenho.
Uma vez eu resolvi escrever direto no computador. Foi em História da vingança do cavaleiro bretão. Eu simplesmente sentei diante da tela em branco e comecei a digitar e construir a história. A cada releitura, eu fazia alterações, e foi quando me dei conta da desvantagem de escrever direto no computador: perdi para sempre os textos anteriores às correções. Algumas vezes eu imprimi, para ler e corrigir no papel, e só então passar para o computador – gastei muito papel e tinta para imprimir sempre a mesma coisa, e acabei guardando todas as impressões, numa tentativa de salvar alguma informação sobre o processo de construção da história.
Quando escrevo a mão, fica tudo lá, gravado no papel. Se troco uma palavra, a anterior está ali, riscada mas disponível se eu quiser voltar a ela. Vendo o texto manuscrito, eu consigo refazer meu raciocínio, lembrar o motivo que me levou a cada uma das alterações, sejam acréscimos, cortes, mudanças. O meu processo de escrita fica todo gravado no papel. Como só uso papel de rascunho, muitas vezes uso o verso da história para observações da própria história, ou até da minha vida, e é interessante rever isso também, anos depois. Lembro que eu anotei, por exemplo, que escrevi o nascimento de Miguel, o primeiro filho de Duarte, no dia de São Miguel (29 de setembro). Não tenho nenhuma anotação extra feita em História da vingança do cavaleiro bretão.
Comecei a escrever minhas histórias em 1985, quando o computador pessoal ainda era desconhecido no Brasil (pelo menos eu nunca tinha ouvido falar nele). Tínhamos máquina de escrever em casa, mas eu sempre escrevi mais rápido com caneta e papel do que datilografando. Dessa forma, o método foi construído com o raciocínio manuscrito.
Há ainda uma outra questão para eu preferir o processo manuscrito: posso carregar e sacar papel e caneta em qualquer lugar que eu estiver. Consigo escrever até no metrô cheio, e dentro do elevador. Não sou do tipo que precisa de um ambiente ideal para conseguir escrever: preciso só de caneta e papel para registrar minhas idéias. Então o papel acaba sendo também mais prático e facilita meu trabalho.
Conforme expliquei aqui no texto sobre meu método, depois que a história foi toda manuscrita, ela fica guardada numa caixa de arquivo, ou numa pasta, em local de difícil acesso (para eu não ficar relendo), amadurecendo. Depois de um ano, ela é relida e reavaliada. Caso eu a considere boa, eu mesma digito tudo no computador, fazendo às vezes reparos, correções e acréscimos, tanto no papel quanto no computador. Então o manuscrito é definitivamente guardado e as eventuais alterações posteriores passam a ser feitas somente nesse texto digitado, que vai sendo polido e melhorado até chegar sua vez de virar livro e ser publicado.
Os textos do blog também são primeiro manuscritos. Depois vão para um editor de texto no computador e dali para o blog, na data escolhida. Até serem publicados, os manuscritos ficam andando na minha bolsa para cima e para baixo, sendo lidos, relidos e alterados. O texto digitado também anda comigo num pen-drive mas eu não tenho como acessá-lo dentro do transporte público – daí o papel ser mais prático. Quando publico um texto no blog, anoto a data da publicação no texto digitado e, como o processo de escrita neste caso não importa, jogo fora o manuscrito.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

RE-ESCREVER, REINVENTAR

São coisas que eu faço o tempo todo. Há vários tipos de re-escrever e reinventar:


1) reinventar a história que estou escrevendo – revejo cenas e falas à procura do texto que expressa melhor o que quero dizer. Faço isso o tempo todo, e só paro quando o livro vai para a gráfica.

2) re-escrever o que estou escrevendo – reparos e ajustes durante todo o processo, que só termina de fato com a publicação.


3) reinventar uma história descartada – eu vou testando possibilidades de alteração nas caracterizações, no ambiente e na estrutura da história. Em geral, estou procurando um final que me agrade, para que eu possa pensar em escrever. Cada vez que retomo uma história faço um registro novo por causa da data de criação. Quando são significativas as alterações de estrutura, conto-a como uma nova história. Alterações de ambientação e/ou caracterização não configuram uma nova história.


Tentei reinventar aquela primeira história, de 1985, por duas vezes (total de três versões, portanto) sem sucesso. Tenho carinho por ela, por ter sido a primeira, mas tive que me convencer de que realmente nada se salva nela.


4) re-escrever uma história descartada – de repente percebi que era uma prática recorrente. Re-escrever pode significar simplesmente mudar o texto, mantendo a estrutura básica e uma caracterização e ambientação mínimas, ou às vezes trazendo a história para o aqui e agora – o que seria o re-escrever propriamente dito, que aconteceu em O canhoto, como contei aqui em 1/7/09, mas pode significar também inspirar-me numa história descartada para criar uma outra, com estrutura apenas semelhante, nova ambientação e nova caracterização das personagens.

Esse segundo significado de re-escrever é o mais comum e o mais importante dentro do meu processo, pois acontece sem eu perceber – é inconsciente. Somente depois da nova história pronta (se não escrita, pelo menos totalmente inventada) é que eu percebo que retomei algo que já havia.

Primeiro a honra é a segunda versão de uma história de 1986, pois têm em comum a morte de uma personagem importante logo no início, mas sua permanência durante toda a história, por ser citada pelas outras personagens, que sentem sua falta – o que cria o que eu chamo de “morto que não morre”. Nesta segunda versão, a caracterização das personagens foi aprofundada, a estrutura ficou mais coerente, escolhi outro local e a época recuou alguns séculos.

Fábrica é a terceira versão daquela primeira “história adulta”. Reescrevê-la não foi intencional: desta vez, eu queria falar de questões de trabalho, dinheiro e classes sociais. Mas de repente eu percebi que tinha de novo uma moça rica apaixonada por um rapaz pobre, e ela brigava com o pai por causa desse amor. Então resolvi aproveitar os nomes – e os apelidos, que aqui são importantes – e reescrever, para ver se eles conseguiriam ficar juntos no final. Fiquei muito feliz ao poder reaproveitar uma história tão significativa para mim como foi essa, criada na época das histórias infantis mas já com pretensões de carreira literária, antes que tudo começasse de fato.

Agora que percebi que re-escrever é uma prática possível e até comum para mim, ao descartar uma história que acho interessante, já a marco como suspensa, prevendo que um dia será reescrita – uma espécie de fila de reinvenção. Foi o que aconteceu com o romance Tudo que o dinheiro pode comprar. Ela seria a primeira na fila de publicação mas resolvi descartá-la em vez de publicá-la, pois encontrei algumas incoerências no comportamento da personagem principal, o que significa que a caracterização está falha e inconsistente. Mas gosto da ideia de alguém que tem tanto dinheiro que pensa que pode comprar tudo e todos, por isso ela ficará suspensa, aguardando o momento propício em que meu inconsciente vai querer mexer nesse assunto de novo.

domingo, 11 de outubro de 2009

NOVIDADES NO BLOG

Hoje estou estreando uma novidade. Percebi que seria trabalhoso, repetitivo e correria o risco de ser também infrutífero eu ficar contando detalhes de cada história no meio dos textos. Confiando na memória do leitor, eu poderia também não dar todas as informações necessárias. Então criei uma área específica para as fichas técnicas das histórias, um lugar que estou chamando de “Blog de apoio”, onde coloquei informações básicas sobre cada história: data de criação e publicação, número de páginas, ambientação (época e local), nome das personagens principais e uma pequena sinopse. Se é uma história sobrevivente, há também um link para um trecho do livro.

Então agora, em vez de dar informações no meio do texto, o título ou o nome da personagem vai remeter à ficha técnica daquela história. Os textos já publicados também foram revisados, de forma que agora estão mais enxutos, mais orientados para o tema proposto, e as informações específicas de cada história podem ser acessadas a qualquer momento, pelos vínculos que há nos textos, que aparecem em letra verde. Se já quiser conhecer essa área reservada, clique aqui, ou espere para clicar nos vínculos dos textos quando aparecerem.

APELIDOS

Este é mais um texto para falar das exceções, assim como o texto sobre animais, publicado aqui em 11/7/2009. Minhas personagens não têm apelidos. Há apenas duas exceções que, por serem exceções, são marcantes. Nessas duas histórias, os apelidos são essenciais, e a história seria completamente outra sem eles.

A primeira história com apelidos é de 1985. Não tem título mas eu a chamo de Cheia de charme, por ter, a meu ver, um clima semelhante à musica de Guilherme Arantes. Nela, Mark Harrison e Cindy Hunter tratam-se pelos apelidos Mac e Cissy, e esse uso é exclusivamente entre eles, como símbolo do amor entre eles. Essa história hoje está descartada.

A segunda história é aquela primeira idéia de 1983, que foi escrita em 1986 e re-escrita em 2004, e que eu chamo de Fábrica por ainda não ter arranjado um bom título para ela. Nas duas primeiras versões, a história se passava na Inglaterra, então Alexander e Catherine se chamavam de Alex e Cathy, assim como todas as outras pessoas, especialmente familiares e amigos. Então quando, em 2004, eu percebi que estava fazendo uma releitura dessa história, não bastava aproveitar os nomes, mas tinha que trazer especialmente os apelidos. Como Fábrica se passa no Rio de Janeiro, Alexandre e Catarina se chamam por Alex e Caty. Confesso que mantive Alex paroxítono para mim mas não tive dificuldade em aportuguesar a pronúncia de Cathy para Caty. Eles começam a se chamar pelos apelidos desde que se conhecem, e isso acaba sendo fator de aproximação entre eles.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

POR QUE TANTOS ROMANCES HISTÓRICOS?

Pode ser afinidade com o ideal romântico de fuga da realidade. Um colega que leu O maior de todos afirmou que não se trata de romance histórico, mas apenas uma história ambientada no passado. Concordo com ele. Minhas histórias tratam da natureza humana, e dos conflitos entre o indivíduo e o meio em que ele vive. Na grande maioria dos casos, poderiam ser situadas em qualquer tempo e em qualquer lugar – com ajustes na caracterização das personagens, é claro – e eu escolho onde vou colocá-las, conforme o que eu entendo como necessidade da trama e conforme meus gostos pessoais.

Se Nicolaas (O canhoto) não fosse à Terceira Cruzada, podia ir à Primeira ou à Sétima, ou à Segunda Guerra Mundial, que faria pouca diferença. A história não é sobre a Cruzada, mas sobre a busca individual dele por si mesmo.

Talvez o que eu tenho de mais próximo de um romance histórico seja Construir a terra, conquistar a vida, em que a formação da cidade do Rio de Janeiro, com seus lugares e personagens, é parte importante da história e aparece com destaque, influenciando a vida das personagens fictícias. Mas mesmo essa história poderia acontecer em outro ambiente sem perda de características fundamentais.

A forma romance também poderia ser contestada. É verdade que comecei a escrever tentando me filiar a José de Alencar, autor de vários romances favoritos, mas, como nunca me importei em analisar a forma dos romances que li, também faço os meus sem essa reflexão. O leitor mais atento deste blog já deve ter percebido que me refiro a meus romances pelo termo história, que, a meu ver, abrange todas as formas de ficção narrativa. Uso história (com HI), em vez de estória (com ES) pois história é mais abrangente, e engloba tanto a História real como as estórias fictícias. Então eu tenho histórias muito curtas, que agrupei com as poesias, por considerá-las “poesia em prosa”; histórias curtas, que eu considero contos; histórias longas e muito longas, que eu chamo de romances.

MAIS ORGANIZAÇÃO

Além da grande planilha índice e das duas tabelas quantitativas, explicadas aqui em 11/9/2009, eu também produzo listagens que me ajudam a ter as informações organizadas.

1) “Ordem em que terminaram de ser escritas”, com o título da história, número de páginas, número de capítulos, data final.

2) “Número de páginas por dia”, em que calculo, pelo número de páginas e pelos dias que levei para escrever, qual o número médio de páginas escritas por dia. Registra as informações de título da história, data final, data inicial, número de páginas, número de dias, média por dia. A maioria tem a média de 0,6 páginas por dia, mas as médias oscilam entre 11 e 0,3 páginas por dia. Essa média não significa que eu escrevo 0,6 páginas por dia e paro. Significa que, em alguns dias, eu escrevo três linhas; em outros, 10 páginas, e passo alguns dias sem tempo de escrever nada. Se eu pudesse dedicar uma ou duas horas do meu dia para escrever, minhas médias seriam muito mais altas. Mas, infelizmente, ainda não cheguei ao ponto de viver de literatura, então tenho que me contentar em escrever dentro do metrô, dentro do ônibus, na fila do banco, esperando o elevador, e eventualmente depois que minha filha dorme.

Há ainda uma “tabela curta”, em que constam apenas os sobreviventes, com as informações: título da história, gênero, cor, nome do arquivo com o texto, número de capítulos, número de páginas após digitação, número de páginas do livro publicado, ano de criação, época ou local em que se passa, tipo de romance (curto, longo, muito longo, Cavalaria), e se está registrado nos Direitos Autorais.

Tenho também um arquivo com “análise literária” das histórias sobreviventes (algumas foram descartadas depois), um arquivo de texto com o “motivo que me levou a escolher alguns nomes”, e agora quero também registrar o “motivo de escolha de algumas ambientações”, pois, assim como os nomes, as escolhas das épocas e locais têm motivos sólidos, que eu não quero esquecer (embora já tenha esquecido alguns).

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CONSTRUIR A TERRA, CONQUISTAR A VIDA

Esta história é meu grande orgulho. Grande em vários sentidos: levei exatos seis anos para escrever suas 876 páginas (depois de digitada, coube em 844 páginas)

Desde que eu cursava o segundo grau, tinha intenção de fazer uma história sobre o início do Brasil, contar as dificuldades e vitórias dos heróicos portugueses que, por coragem, ganância ou falta de opção, vieram viver aqui. Em 1986 cheguei a pensar numa história que contaria a vida de um dos degredados que Pedro Álvares Cabral deixou aqui. Chamava-se Gerações, porque chegaria aos dias de hoje, contando a vida também dos descendentes desse degredado. Projeto ambicioso demais: desisti. Em 1993, morei em São Luís-MA e busquei conhecer mais da história da cidade, onde eu já tinha morado de 1983 a 1987. Ficava imaginando como teria sido para os franceses serem derrotados após tanta luta e terem que deixar a terra. Imaginei o comandante, longe de sua terra, longe da família – talvez para sempre, e seu sentimento de solidão e saudade – ops! saudade é palavra que só existe em português!

Depois, quando eu cursava o mestrado, uma professora comentou que, fora das metrópoles, a forma artística mais comum é a literatura porque não precisa de habilidade manual para ser feita, nem de material de suporte, podendo ser produzida e transmitida oralmente. Então tudo se juntou e eu imaginei um português degredado que tinha saudade de sua terra e fazia versos. Eu estava morando novamente no Rio de Janeiro, e sempre apaixonada por esta cidade e sua história. Aproveitei o conhecimento da história e da geografia da cidade que eu já tinha e a idéia do século XVI e criei Tempos primevos, o nome provisório que ela teve.

A personagem principal é um português que veio degredado para Salvador e novamente numa espécie de degredo vem para o Rio de Janeiro expulsar os franceses em 1567: Duarte Correia. Tirei dele a habilidade de fazer versos porque queria que ele representasse melhor a maioria da população da época, que era iletrada, mas a saudade eterna de sua amada Lisboa permaneceu. Depois criei uma segunda personagem, um brasileiro de Salvador, mais novo, para criar uma espécie de contraponto entre os pontos de vista do português reinol e do português da colônia. Assim nasceu Fernão Lopes. Escolhi propositadamente nomes que não usamos mais no Brasil, e que se tornaram Eduardo e Fernando, mas que eram bastante comuns na época.

Recriar um tempo tão remoto sobre o qual não há muita informação organizada foi um constante desafio. Nunca li tanto para ter base para escrever uma história. Também, eu me propunha a cobrir praticamente toda a segunda metade do século XVI no Rio de Janeiro. Acabei terminando a história em 1592, quando achei que os problemas principais estavam resolvidos ou bem encaminhados, não apenas na geração de Duarte e Fernão mas também na dos filhos deles – aquela idéia primeira de falar de mais de uma geração. Era muito interessante comentar com os amigos que estava escrevendo uma história ambientada no Rio de Janeiro do século XVI, e ouvi-los responder: “século XVI? Mas nessa época não havia nada aqui!” E eu dizia: “Havia, sim: minhas personagens estavam lá”.

A experiência foi tão intensa e vívida e minhas personagens são tão reais para mim que hoje eu falo delas e dos lugares por onde elas andaram como se elas tivessem de fato existido: “a casa de Duarte era aqui”; “ali é onde morava Fernão, naquela rua que não existe mais” (embora a Rua de Fernão Lopes nunca tenha existido); “tem sangue de Duarte neste chão”; “aqui foi onde Duarte conheceu Ayraci”; aqui eles fizeram isto e aquilo. E ainda reclamo que os livros de história da cidade não registram a passagem das minhas personagens por aqui, e seus feitos em prol do desenvolvimento da cidade.

Provavelmente cometi algum engano histórico e/ou de caracterização, pois certamente há muita coisa que eu não li e, na falta da informação correta, invento conforme o que entendo como necessidades da trama. Mas a história das personagens está entranhada na história da cidade como se fosse uma coisa só. Talvez este seja o único romance histórico que eu tenho, enquanto os outros são apenas histórias que acontecem no passado. De qualquer forma, é minha Saga, meu Gigante, meu canto de amor e louvor à Cidade que será sempre Maravilhosa, apesar de seus problemas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

QUAL O MELHOR ROMANCE? QUAL A PERSONAGEM PREFERIDA?

Essas perguntas são fáceis de se responder: o melhor romance é o que estou escrevendo, ou que acabei de escrever. E a personagem preferida é a protagonista desse romance. E a justificativa também é muito simples: é o romance que tem mais a ver com a minha realidade atual, coma maturidade que eu atingi, tanto quanto à vida como à literatura e a meu processo de criação.

Não posso negar, porém, o grande carinho que tenho por todos os que foram publicados – e se foram publicados, tanto tempo depois de escritos, é porque, além de eu reconhecer algum valor neles, seja literário, seja catártico, gosto da história e das personagens. Sou muito crítica de todo o processo, então todos os sobreviventes são meus xodós. Não há como sobreviver sem ser xodó. E, como são todos filhos, não é possível escolher um como mais querido. Por isso é difícil para mim dar uma indicação de um romance meu para alguém: eu sempre vou sugerir o mais recente.

CLASSIFICAÇÃO E TABELAS

Quem convive comigo diariamente já conhece – e às vezes até brinca com – minha afinidade com a organização das informações em forma de tabelas. Torna-se evidente, portanto, que minhas histórias também são organizadas numa tabela, certo? Bem, quase. Na verdade, tenho várias tabelas, além de algumas listagens.

O arquivo principal é a grande planilha índice, que não é tabela por não ter o quadriculado de linhas e colunas. Já tentei jogar no Excel mas gosto da visão de páginas inteiras que o Page Maker me dá. De qualquer forma, há colunas de informações: nome das personagens; ambientação; título; data de criação; data de descarte; quantidade de páginas; observações.

Outro par de tabelas muito importante é quantitativo:

1) a tabela de quantas histórias criadas e sobreviventes por mês, que totaliza quantas histórias em cada ano (coluna) e quantas histórias em cada mês (linha). Por causa dessa tabela, sei que criei mais histórias em 1996 (39 histórias), e que o mês mais criativo é outubro (31 histórias). Sei também que as melhores histórias (sobreviventes) são de 1994 (5 histórias) e que o mês com melhores resultados é março (4 histórias). E sei também que não criei nenhuma história em 2008 (muito ocupada escrevendo O canhoto), assim como não restou nenhuma sobrevivente dos anos de 1985, 1987, 1988, 1990, 1997, 1998 2000, 2002, 2004, 2006. Também é interessante notar que não há nenhuma história feita em outubro ou dezembro que seja sobrevivente – e olhe que outubro é o mês mais criativo!

2) Tabela de quantas histórias de cada cor por ano. Antes de falar da tabela em si, é preciso explicar minha classificação das histórias por cores, que se dá em função da ambientação escolhida. São seis cores, a partir das cores do Creative Paper, um pacote com folhas de papel craft de tamanho próximo a A4, próprio para atividades didáticas e criativas. Um dia, eu resolvi usar meia-folha desse papel para fazer uma espécie de capa e lombada das histórias, que me facilitasse agrupar as folhas e visualizar a espessura de cada uma. Excluí preto e branco e dividi as histórias pelas outras seis cores restantes. Ficou assim:

- amarelo = histórias ambientadas no Rio de Janeiro, na época em que estou vivendo (presente) – 134 histórias no total; 4 sobreviventes.

- verde = histórias ambientadas no resto do Brasil, época presente – 29 no total; 1 sobrevivente

- rosa = Brasil; época passada (anterior ao século XX) – 28 no total; 4 sobreviventes

- azul = histórias ambientadas fora do Brasil, época presente – 21 no total; 1 sobrevivente

- vermelho = fora do Brasil; época passada (inclui Romances de Cavalaria) – 47 no total; 9 sobreviventes

- laranja = histórias sem local e sem época definida; presente eterno; fábula; contos de fadas – 28 no total; 1 sobrevivente.

Essa tabela me permite saber quantas histórias de cada tipo foram criadas em cada ano e quantas sobrevivem. É interessante notar que eu crio mais histórias amarelas, mas as vermelhas são melhores (mais sobreviventes). Estes são os principais registros, que são usados para todas as histórias, e que resumem as principais informações de tudo o que eu já fiz.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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