sexta-feira, 21 de março de 2014

800 PÁGINAS

Por estar lendo Construir a terra, conquistar a vida e escrevendo De mãos dadas, as duas com mais de 500 páginas, percebi como é mais fácil escrever muito quando as personagens secundárias ajudam a carregar a trama – que é o que acontece em Construir a terra, conquistar a vida, em que Fernão, Ayraci, Inês e os filhos têm seu momento de protagonismo. Duarte integra e harmoniza, mas divide o fardo de carregar a história com o resto da família.
Já a situação em De mãos dadas é diferente: Toni carrega sozinho a história. Ele não apenas resolve sozinho seus problemas como ainda participa ativamente da solução dos problemas das personagens secundárias. Numa atitude “fominha”, ele não abre brecha para mais ninguém ser protagonista, nem mesmo temporariamente. É bem mais difícil de construir e levar uma história de longa duração assim. Acho que não conseguiria passar 25 anos com Toni, como passei 25 anos com Duarte e Fernão.
Em De mãos dadas, as tramas secundárias são convergentes, e caem todas nas costas do pobre Toni. Em Construir a terra, conquistar a vida, as tramas secundárias são divergentes e são resolvidas próximo a Duarte e com apoio dele, mas cada personagem secundária resolve seu próprio problema. E o interessante é que fazer isto ou aquilo não foi escolha intencional, mas conseqüência do caminho trilhado. Eu não decidi de antemão, simplesmente aconteceu.
Olhando também para as outras histórias, percebi que minha tendência é ter protagonistas centralizadores e tramas convergentes. Quem sabe, na próxima história de longa duração (sete anos ou mais na vida das personagens), eu não experimento de novo fazer tramas secundárias divergentes, e ter um protagonista que cede temporariamente seu espaço às personagens secundárias – mas desta vez, com tudo planejado e intencional. Seria um desafio interessante.

sábado, 1 de março de 2014

A VOZ DAS PERSONAGENS

Eu prezo muito a correção gramatical, e tomo certos cuidados no trabalho com meus textos: evito repetição de palavras no parágrafo; evito aliterações; certifico-me de que as frases estão completas, com sujeito, verbo e complementos, corretamente ordenados e pontuados; entre outros detalhes igualmente importantes para que o texto fique estilisticamente bom.
Esse perfeccionismo acaba na hora de fazer os diálogos. Eu, o narrador em terceira pessoa, não posso cometer erros gramaticais, nem usar linguagem coloquial. Mas as personagens podem cometer erros e devem usar linguagem coloquial. Então, enquanto o narrador diz “Toni pegou-a ao colo e levou-a para o outro lado”, uma personagem estaria sugerindo “Vai lá, pega ela no colo e leva ela pro outro lado”. O narrador não deve ter a mesma voz que as personagens, e os diálogos (as personagens) não podem ter a mesma voz que o narrador em terceira pessoa. Um costuma ser mais formal e o outro deve ser totalmente informal.
Tenho visto, em sites com as famosas “dicas” para escrever, a informação de que diálogos são difíceis de se fazer, pelo grau de informalidade e naturalidade que devem ter. Ora, é justamente por isso que é tão fácil se escrever diálogos! Ponha-se na pele da personagem e desande a conversar, ora bolas! Imite o sotaque de sua personagem, faça seus trejeitos. Incorpore: os diálogos serão informais e naturais.
Outro dia, escrevendo De mãos dadas, fiz um diálogo em que, a certa altura, Toni diz: “Lá na empresa, eu faço a diferença. O que eu faço lá ninguém mais faz e isso me faz muito bem”. Assim que reli a primeira vez, meus sensores já detectaram faço-faço-faz-faz e meu primeiro impulso foi riscar e corrigir, escolhendo três verbos diferentes para trocar. Mas logo freei a mão, ao lembrar de que Toni não está lendo e escrevendo: ele está falando! Mais: ele está argumentando! Ninguém pensa em elegância de estilo quando defende seu ponto de vista verbalmente. Ainda mais que Toni estudou apenas o mínimo necessário para fazer seu trabalho. Ele não é um intelectual, menos ainda um erudito. O gosto dele para leitura é no nível do senso-comum, sem nenhum refinamento. Ele nem gosta de poesia. Nem sei se ele lê o jornal do dia. Então, se eu corrigisse as repetições da fala dele, o resultado seria artificial e arriscaria até ser pedante. Poderia ficar assim: “Lá na empresa, eu sou o diferencial. O que eu realizo lá ninguém mais faz, e isso me agrada muito”. Sem repetições, mas não é o meu Toni falando. Então, ao mesmo tempo em que eu me esforço para narrar “Entregou-lhe o livro pedido” (ênclise correta), minhas personagens pedem “Me dá aqui esse livro” (próclise no lugar errado).

O segredo para dar a voz correta às personagens nos diálogos é bem simples: o autor precisa saber vestir muitas peles; pensar, sentir, agir e falar como cada uma de suas personagens, de preferência todas ao mesmo tempo. E precisa saber sair de todas essas peles na hora de usar um narrador em terceira pessoa. No começo, pode não ser fácil de se fazer mas, depois que se pratica, os diálogos se tornam a parte mais simples e prazerosa de se escrever.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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