terça-feira, 21 de setembro de 2010

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.

Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.

Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).

Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.

sábado, 11 de setembro de 2010

ASTROLOGIA, ACUPUNTURA E OUTROS “BICHOS”

Sempre acho tentador tentar descobrir, pelas características, pelo comportamento e pelos gestos, qual o signo das minhas personagens. Nunca o resultado é satisfatório. Como não penso nisso ao construir as personagens, elas acabam tendo características de vários signos – ou de nenhum em especial. Como uma coisa leva a outra, minhas personagens não fazem aniversário. Melhor dizendo, elas envelhecem e fazem anos, sim, mas eu não conto o dia e o mês. Às vezes, eu digo apenas que alguém nasceu no verão ou no outono, mas isso significa pouco para determinar um signo. Uma pequena exceção pode ser feita às personagens que nascem durante as histórias, que às vezes têm uma data de nascimento mais exata. Até para o horóscopo chinês é difícil definir, pois o ano chinês é diferente do nosso ano ocidental. Minhas personagens em geral têm ano de nascimento mas, como não sei se nasceram no início, no meio ou no final do ano, não posso enquadrá-las corretamente no horóscopo chinês. Definir signos para as personagens é uma forma de classificá-las, além de caracterizá-las.

Jorge Luís Borges tem um conto chamado Congresso do mundo, em que as personagens representam categorias de pessoas, e uma personagem pode representar mais de uma categoria ao mesmo tempo. É uma ideia que acho interessante, e que encaixa bem na minha maneira de pensar e organizar as informações por padrões. Assim, Duarte, por exemplo, representa os portugueses que vivem no Brasil, os degredados, os que se casam com índias, os que têm filhos mestiços, os que vivem no Rio de Janeiro, os que moram no Morro do Castelo, os que lutaram com Estácio de Sá em 1567, e tantas outras categorias que expressam suas características e seus feitos.

Nos últimos três anos, venho me envolvendo com a medicina tradicional chinesa (MTC), pois resolvi tratar meus problemas de saúde com acupuntura. Como eu gosto de perguntar e meu acupunturista gosta de explicar, venho aprendendo muito com ele, e por minha conta, fazendo leituras complementares. Tenho usado a MTC para auto-conhecimento, compreendendo como meus problemas de saúde física e emocional estão entrelaçados, o que se torna chave para resolvê-los (pela acupuntura). Levo para meu acupunturista auto-análises de personalidade que o ajudam a escolher os pontos para o tratamento. Minhas análises se baseiam muito nos aspectos emocionais e psicológicos, e eu gosto de analisar também familiares próximos, e chego a conclusões de “tratamento”: Fulana precisa tonificar o rim para melhorar a auto-estima. Beltrano é muito ansioso, é preciso dispersar a energia do baço. Cicrano está com excesso de yang no fígado, por isso está tão nervoso. Então, há algumas semanas, meu acupunturista me emprestou o livro Acupuntura e psicologia, de Yves Requena, que traz, entre outras explicações, uma descrição das cinco constituições e dos seis temperamentos da MTC. Achei muito interessante confirmar que tenho constituição Metal, com um pouco de Terra e de Água. Agora estou lendo sobre os temperamentos e, sem sentir, comecei a associar características dos temperamentos a minhas personagens. Então pensei que posso usar essas características na hora de compor as personagens. Assim, a classificação não será óbvia – como é atribuir às personagens um signo – e eu terei um parâmetro de comportamento físico, intelectual, emocional e psicológico para me guiar, além de algumas características físicas, o que pode até facilitar meu trabalho de composição. É algo que vou experimentar na próxima história que eu criar, quando partir do zero em todos os aspectos. Até lá, já terei organizado as informações e terei estudado-as e compreendido a estrutura principal de cada temperamento, para conseguir criar personagens que se encaixem bem (não pretendo fazer personagens-protótipos) nas características. Ou será que todas as minhas personagens, passadas e futuras, estão para sempre fadadas a ter temperamento Yang Ming como eu?

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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