quinta-feira, 21 de junho de 2012

APOLOGIA RELIGIOSA


Estou lendo os primeiros capítulos de um dos livros de minha amiga literária Isie Fernandes e fiquei pensando que religião têm as personagens dela, pois sei que ela é evangélica. Será que todas as personagens dela são evangélicas só porque é a religião dela, ou ela consegue fazer personagens que acreditam em outras coisas? Bem, eu teria que ler as Obras Completas da autora para poder responder, mas seus livros ainda estão inéditos, então terei que adiar essa pesquisa.

A reflexão, porém, serviu para eu analisar a minha produção. Será que eu consigo caracterizar com convicção personagens que acreditam em coisas diferentes das quais eu acredito? Qual a religião das minhas personagens? Será que são todas católicas, só porque eu sou católica?

Bem, sim, a grande maioria das minhas personagens é católica, mas não por ser essa minha religião, e sim porque a maioria das minhas personagens vivem no mundo ocidental antes da Reforma de Lutero, Calvino e Henrique VIII. Estão nessa situação todas as personagens de O destino pelo vão de uma janela (883), Pelo poder ou pela honra (1415), O maior de todos (1348), Anoiva trocada (1572), Construir a terra, conquistar a vida (1567-1592), O canhoto (1189-1193). Devo acrescentar que, até meados do século XX, a grande maioria da população brasileira era católica, e eu teria que elaborar alguma estratégia para ter personagens não-católicas (por exemplo, descendentes de alemães protestantes vivendo em colônias tradicionais). Portanto, também são católicas as personagens de Vingança (1899), Fábrica (1910) e Rosinha (1913-1928). Há nuances nessa religiosidade, desde  Vingança  e  O destino pelo vão de uma janela, em que esse aspecto é tão sem importância que nem citado, até  O canhoto , em que a religião é tão importante que tenho monges e um mosteiro beneditino na história (e eu tive que estudar a Regra de São Bento para dar coerência ao comportamento e às atividades das personagens), passando por  Rosinha  e  Fábrica , em que as personagens vão à missa aos domingos.
Nas histórias ambientadas no presente (O processo de Ser, O aro de ouro, Nem tudo que brilha..., Amor de redenção), a questão religiosa não é mencionada, mas às vezes há aspectos de crenças citados – em Nem tudo que brilha..., as personagens se dividem entre quem acredita em reencarnação e quem não acredita. A questão da reencarnação, com personagens que acreditam e personagens que não acreditam, também está presente em Amor de redenção e, na fase que acontece no século V, todas as personagens são arianas, uma variante do catolicismo que foi declarada heresia no Concílio de Nicéia (325).

Minha grande personagem não-católica é Rudbert, que cultua ainda as divindades celtas, em companhia de Atilde, a vizinha feiticeira. É interessante, pois Primeiro a honra se passa na Europa após Cristo e antes da Reforma Protestante do século XVI mas há espaço para personagens pagãs, pois o século V é justamente de expansão do cristianismo pela Europa, então tenho na mesma história personagens cristãs recém-batizadas, e personagens que permanecem pagãs.

Após essa análise rápida, posso concluir que sou capaz de caracterizar bem personagens com crenças diferentes das minhas – a ponto de receber comentários de que eu estaria fazendo uma crítica ao cristianismo com a caracterização de Rudbert e Atilde.

Mas não nomeei este texto “Apologia” para falar da religião das personagens, e sim para falar da única vez em que a minha opinião religiosa prevaleceu. Procuro sempre deixar essas questões de fé em aberto, afinal minhas personagens têm direito de acreditar em coisas diferentes, e eu não tenho interesse em doutrinar o leitor. Então não fecho a questão se Rudbert está certo em seu paganismo, ou Rosala está certa em seu cristianismo; não decido se Roberto está certo em acreditar em reencarnação, ou se está certa Isabel em não acreditar. As personagens não argumentam, não tentam convencer o outro, mas respeitam a opinião diferente em silêncio. E, em Amor de redenção isso acontecia também – Ágila acreditando em reencarnação e Camila não acreditando. Mas, como essa é uma história em que o diabo aparece e contracena (o que já é suficiente para que seja uma história cristã, pois há religiões que não consideram a existência dessa entidade), precisei do meu repertório de crenças para combatê-lo. Camila é católica, Ágila é ariano, e é o poder do nome de Jesus Cristo que dá força ao casal para enfrentar o diabo. O sinal da cruz e a oração do Credo são as armas possíveis.

É claro que não fiz de caso pensado. Não pensei em fazer uma história doutrinadora – e espero não ter feito! Só recentemente percebi como a minha religião foi fundamental para o desenvolvimento da história. Penso que, nesse caso, as personagens – pelo menos Camila – teriam obrigatoriamente que ter a mesma religião que eu, pois é a que eu conheço melhor e cujas crenças eu saberia usar para o desfecho que eu queria. Então é a única história em que eu, através das personagens, defendo os conceitos em que eu acredito, especialmente na cena decisiva entre Ágila e Camila, em que ela fala dos Planos de Deus para a vida dele, e como a interferência do diabo atrapalhou isso, e mesmo assim Deus não o abandonou. É a fé inabalável de Camila que determina seu relacionamento com Ágila e, dessa forma, tudo o que acontece na história. É uma história realmente especial em vários aspectos, e este é apenas um deles.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DUPLA COMEMORAÇÃO

E o blog completa mais um ano – o terceiro de vida. No ano passado, resolvi comemorar o aniversário do blog com o início de uma nova história, que tem o nome provisório de Rosinha, embora seja a história de Toni. Durante o ano, muitos dos textos publicados aqui trataram dessa história, de questões de criação e escrita que eu estava trabalhando, ou de como solucionei alguns problemas que encontrei. Então agora, um ano depois, é hora de contar em que pé estão as coisas.
Estou na página 165, o que dá uma média de 0,45 páginas escritas por dia. Esse é mesmo meu ritmo de escrita: meia página por dia, em média. O que acontece é que escrevo duas ou três páginas num dia, e depois passo um dia ou dois sem conseguir escrever nada; às vezes escrevo mesmo só meia página durante alguns dias. A velocidade não me preocupa, porque não estou apostando corrida com ninguém, nem passo os dias concentrada apenas nessa atividade. Ao contrário: escrever é algo que faço quando não estou cuidando nem da minha vida familiar, nem da vida profissional. Minha família e o emprego que paga minhas contas são prioridades na minha divisão de tempo. Então fico feliz em poder escrever meia página todos os dias, dentro do metrô, na fila do elevador, esperando alguma coisa, ou às vezes à noite, quando não estou caindo de sono. Se eu pudesse passar os dias apenas pesquisando e escrevendo, o ritmo seria muito mais intenso - O maior de todos foi escrito durante as férias e teve suas 160 páginas escritas em 42 dias, o que dá uma média de 3,8 páginas por dia. Imagino que meu ritmo seria mais ou menos esse, se eu não tivesse tantas outras coisas para fazer na vida.
Bem, falando da história em si, diria que ela pode ser dividida basicamente em três fases, não sei dizer se do mesmo tamanho, ou qual é a maior (em número de páginas), porque ainda não escrevi as três. Em termos de duração, a primeira fase é a maior, pois vai do início da história, no ano de 1913, até 1921. A segunda fase dura de 1922 a 1927 e a terceira fase começa em 1927 e termina no final da história, em 1928. Já terminei de escrever a primeira fase, e teve 125 páginas. Poderia especular que essa fase, por ter maior duração, deveria render mais páginas mas, como é “apenas” uma introdução, é melhor não arriscar nenhum palpite. A terceira fase é a de menor duração mas é a mais intensa, então deve render muitas páginas também. Quando acabar de escrever, eu conto qual ficou maior.
Em termos de desenvolvimento e amadurecimento do protagonista, posso dizer que estou indo bem. Toni começa a história com inocentes 13 anos e hoje tem 22 anos. Ele já tomou decisões importantes, já passou dificuldades, já sofreu injustiças: já tem uma visão mais realista da vida. Já saiu da sonhadora fase 1, para a realista fase 2. Caberá a ele harmonizar sonho e realidade, quando a fase 3 chegar.
E quanto ao blog? Bem, recebi mais de 1500 visitas, e meus textos foram vistos mais de cinco mil vezes ao longo do último ano. Infelizmente, ainda não tenho esses dados tabelados, mas acredito que os números vêm crescendo, o que, a meu ver, indica uma consolidação de minha presença na Internet.
Para o ano que se inicia aqui, meus planos são de continuar escrevendo minha história e contar o que posso no blog. O ponto de virada decisivo já passou, então não posso mais contar detalhes da história, para não deixar nem subentendido o que foi que Toni decidiu. Os textos aqui continuarão na linha do ano passado, que achei bastante interessante, e ainda há o que contar: as soluções que eu encontro para as questões que aparecem durante o processo de escrita, de forma que possam servir de dica para quem encontra o mesmo tipo de problema em seu texto.
Então parabéns para nós, que participamos deste blog, e boa leitura para todos.

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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