quinta-feira, 23 de agosto de 2012

PERSONAGEM COM DUPLA FUNÇÃO


Quero falar sobre a dupla função / dupla caracterização da personagem de Letícia Prado. Há alguns dias atrás, vi uma dica no Facebook de Ricardo Ragazzo (espero que o link funcione) que rendeu comentários, incluindo a questão “resumirás teu livro em apenas uma palavra”. Nem uma sinopse (cerca de 20 linhas), nem uma frase (máximo de três linhas), mas apenas uma palavra. Certamente, a questão é “defina qual é o tema absolutamente principal da história”, para não se afastar dele, nem deixá-lo ficar secundário. É claro que quis aplicar isso, e defini como tema principal da história de Toni a palavra “ambição”. Afinal, foi por isso eu ele saiu da casa do pai, é por isso que ele está sofrendo todo tipo de necessidade e tentação em São Paulo.
Então, diante da definição dessa palavra-tema principal, Letícia Prado é uma aliada, pois ela entra na história para ajudar Toni a resolver essa questão com o dinheiro. Mas, embora Toni seja movido, sim, por uma grande ambição, ele não quer o dinheiro (e uma vida melhor) apenas para ter, para si mesmo. Ele quer dinheiro para se casar com Rosa. Ele quer uma vida melhor para dividir com Rosa. Então, embora o tema da história e a motivação da personagem principal sejam a ambição, o objetivo da personagem é o amor. Por esse ponto de vista, Letícia é antagonista de Toni, pois a solução que ela oferece a ele o afasta de Rosa. Então fiquei pensando como é interessante construir essa personagem que é ao mesmo tempo uma aliada e uma inimiga, pretensa-mocinha e quase-vilã, além de ter uma personalidade frágil porém firme e decidida.
Quando inventei o artifício “Letícia” na tentativa de resolver e dar emoção à estadia de Toni em São Paulo (já que ela é aliada e inimiga), percebi que tinha finalmente uma história possível (não é a primeira vez que tento escrever essa história), que eu não estava conseguindo construir sem ele. Mas a presença de Letícia quase me fez descartar mais esta versão da história porque, nessa segunda fase da história, é ela quem posa de mocinha, tentando roubar o lugar de Rosa na vida de Toni e na estrutura da história. Só quando consolidei a posição de Rosa é que eu pude permitir a existência de Letícia. Então mais uma vez ela é dúbia, sendo ao mesmo tempo o possibilitante e o inviabilizante da história.
Estou escrevendo a parte em que Letícia Prado começa a brilhar na história. Espero que os leitores se deixem levar por sua personalidade forte numa aparência frágil, e se afeiçoem a ela, sem perceber como ela se esforça por afastar Toni de seu objetivo, que é casar-se com Rosa. Espero também que os leitores perdoem seu egoísmo e entendam seus motivos; e por fim, lamentem quando ela sair da história, no final da segunda fase (lembrando que sair da história não significa morrer, apenas afastar-se da trama principal). Letícia Prado: uma personagem para ser amada na segunda fase e superada na terceira fase. Adoro isso!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

ANIVERSÁRIOS E OUTRAS FESTAS


Minhas personagens não comemoram seus aniversários. Um dos motivos é que eu simplesmente não sei qual o dia em que elas nasceram. Também não sei se, nos séculos passados, as pessoas comemoravam seus aniversários. Penso que as grandes festas eram as religiosas – Natal, Páscoa, dia do Padroeiro, santos de devoção. São festas públicas, que envolvem toda a comunidade, enquanto aniversário é uma festa particular por excelência.
É claro que as minhas personagens têm data de nascimento, sabem quantos anos têm e que dia fazem aniversário (“dia dos anos”, como dizia minha avó materna). Somente as personagens dos séculos V e VI (todas de Primeiro a honra e Ágila, de Amor de redenção) se guiam pelas estações, e não pelos meses e anos, então elas não sabem em que dia nasceram. Contam sua idade, mas não têm como comemorar aniversário.
Então, se em casa elas têm almoço especial, se os amigos fazem um brinde, eu não conto. Nem ao menos digo que fizeram aniversário. Já falei sobre isso aqui, quando disse que as personagens não têm signo.
Contrariando tudo isso, Toni e Rosa não apenas têm data de nascimento como comemoram seus aniversários. Minha ideia inicial era de fazê-los nascer no mesmo dia mas, por terem características de temperamento diferentes, depois achei melhor que fossem de dias diferentes, para inclusive terem signos diferentes. Assim, Toni é de Capricórnio, aquele que trabalha para conquistar o conforto que deseja. E Rosa, nascida dez dias depois, já é de Aquário, que vive alimentando sonhos e ilusões utópicos (são as características dos signos que mais refletem o comportamento das personagens). Diante disso, acabei tendo que comemorar também o aniversário de Letícia, que é do signo de Libra, e de Júlia (personagem que ainda vai entrar na história), que é do signo de Virgem.
E, já projetando para o futuro, tenho uma próxima história, de curta duração, ambientada no Rio de Janeiro entre 2010 e 2012, em que as personagens principais também comemoram seus aniversários. Poderia significar uma mudança de atitude, indicando uma nova preocupação com comemorações, mas um outro projeto de história, de longa duração, ambientada num tempo/espaço fantástico, também não terá festa de aniversário. Então novamente essa é uma questão relacionada às necessidades de cada história, e não relacionada a uma mudança de estilo ou comportamento meu.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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