quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entrevista a Rainer - parte 2

Publico aqui mais algumas perguntas da entrevista dada a Rainer Gruggenberger, sobre meu livro Primeiro a Honra. A primeira parte da entrevista está aqui.

6) Você escreve, no Prefácio, que gostou “do contato” que teria feito “com os povos celtas”. Em qual sentido e em qual maneira você fez esse contato? Foi só através dos livros históricos? Você tem raízes italianas e parece que você se identifica muito com os celtas. Claro que também o norte da Itália tivesse as influências celtas, mas ao que precisamente atribui ao fascínio? Eu acho que você desenhou uma imagem, que deixa pensar que você encontrasse nos celtas o povo puro, natural e não corrupto pelos maus hábitos da civilização, um mito que sobretudo muitos Românticos procuravam. Você acha mesmo que os celtas reais pareciam com os celtas do seu romance? Não acha que também os celtas, como todos os povos, tinham as suas regras absurdas e nesse sentido desnaturadas?

Meu vínculo com os celtas nasceu na faculdade de história da arte, pois os cursos são estruturados de uma forma que eu discordo: 1) Pré-história: pinturas rupestres da região franco-cantábrica e do levante espanhol; 2) Idade antiga: Egito, Mesopotâmia, Grécia, Roma; 3) Idade média: estilo bizantino, renascimento carolíngio, estilo românico, estilo gótico. Eu sempre me perguntava se os homens pré-históricos das cavernas francesas tinham se mudado para o Egito para construirem ali sua civilização, e só tinham voltado para a Europa no século VIII, para prepararem a ascensão de Carlos Magno. Havia uma lacuna na história que nenhum professor se preocupava em preencher (e, na verdade, também não havia tempo hábil para incluir outros assuntos). Então, em pesquisas particulares, um dia descobri que os homens das cavernas francesas tinham criado sua própria cultura, e eram conhecidos pelo nome genérico de celtas, e tinham uma arte riquíssima, digna de ser estudada nos cursos de história da arte. Eu ainda quero escrever uma história que se passe na Primeira Idade do Bronze, em Hallstatt - essa, sim, será a devida homenagem a esse povo que começou a construir o que hoje é a Europa. Meu contato com os celtas acontece através da arte (que nem é marcante durante o livro, exceto pela habilidade manual de Rudbert) e é uma satisfação para mim ter personagens celtas - mesmo que sejam celtas à minha maneira. Procurei dar a minhas personagens características possíveis das pessoas celtas, de forma que não houvesse incorreções históricas, mas meus celtas - como meus francos - são fictícios e, como minha intenção não era uma recriação antropológica, não me preocupei em fazer meus celtas um modelo perfeito de como devem ter sido os celtas, mas apenas um modelo possível.

Não considero que os celtas fossem puros e incorruptos. Ninguém é puro se é humano. Certamente eles tinham costumes que consideramos absurdos e desnaturados, mas quanto de seus costumes eu vou usar é algo que as necessidades da minha trama é que vão decidir.

7) Os protagonistas francos têm nomes franceses (Rosala, Constance, Thierry, Lanrose, Sigemond Toulière) enquanto os gauleses se chamam Berta, Archibald, Adèle, Atilde, Rudbert e Gregor. Para mim parecem ser nomes típicos germánicos e não gauleses. Você encontrou esses nomes num livro sobre os celtas?

Todos os nomes na verdade são francos, ou de origem franca. Não consegui encontrar nomes Parisii para meus celtas, então tive que me contentar em usar nomes da época simplesmente, e dei preferência aos francos por estarem em um reino franco, imaginando que a mistura de culturas já vinha acontecendo há algum tempo. Agora me ocorre que eu poderia ter usado nomes de origem romana, mas esses também eram difíceis de encontrar.

Thierry era o nome do filho do rei Clodoveu; Berta era o nome da mãe de Carlos Magno; Atilde é partícula de Clotilde e Batilde, mulheres merovíngias; Archibald contém partículas de nomes merovíngios - archi e bald; Rosala, Constance e Adèle eram nomes que existiam na época - de rainhas ou santas; Rudbert não existia, mas contém bert (que é germânico mesmo, mas usado também pelos francos, como em Berta), então inventei; e Ailan é totalmente invenção minha.


8) Eu, sobretudo como iniciante do português, gostei muito da simplicidade e da clareza da sua expressão literária. Em particular a escolha de um vocabulário simples e quotidiano, e o fato de que o romance consta principalmente dos diálogos facilita muito a leitura e aumenta o prazer dela. É um seu dogma que a linguagem deve ser tão simples e clara quanto possível? Você sabe que o seu romance, por isso, se prestaria bem ao acompanhamento da instrução do português para estrangeiros num nível intermediário? O romance linguisticamente serviria também como leitura para crianças lusitanas, se não tivesse um conteúdo que sobretudo no segundo capítulo se torna muito violento e que, em geral, trata a sexualdidade no modo mais ou menos explícito. Qual é o seu público principal? Haveria muita gente interessada em romances sobre um amor difícil, num país com as telenovelas que tratam uma temática parecida, ainda que o tempo e o espaço sejam diferentes?

Eu escrevo do jeito que eu gosto de ler. Minhas personagens são pessoas do povo, não há porque terem linguagem rebuscada ou erudita. E o narrador sou eu mesma, então prefiro usar uma linguagem que eu domino. Gosto de abordar as relações entre as pessoas e acho que elas ficam mais evidentes quando as pessoas se encontram e trocam ideias - daí os diálogos. Aos poucos, fui aprendendo a marcar a ação com a fala das personagens, e usar os diálogos para fazer descrições das personagens e para dar informações da situação social e cultural daquele grupo. Acho mesmo que é uma forma mais leve de apresentar informações complexas e menos didática do que se fosse feito com descrições. Assim, não sou eu-autora dando uma informação ao leitor, mas uma personagem dando informação a outra personagem, e o leitor pega a informação para ele também. Ocorre-me agora que talvez esse artifício faça o leitor se achar esperto e inteligente, pois não precisa que o narrador lhe conte nada, porque ele é capaz de pescar as informações de que precisa nas conversas entre as personagens. Nunca pensei em recomendar meus livros para estrangeiros aprendendo português, nem para outros falantes da minha língua, porque nunca tive leitores com esse perfil, mas é uma boa ideia. Não recomendo a leitura desse livro em particular para crianças e adolescentes, porque o considero violento. Tenho outros livros que poderiam ser lidos por adolescentes, por tratarem de temas menos traumáticos. Na verdade, quando estou escrevendo, não tenho um determinado grupo como público alvo. Costumo dizer que meu público-alvo sou eu mesma, pois escrevo para minha satisfação própria. A leitura dos outros é uma consequência da existência do texto, e não um objetivo. Diante disso, o livro é recomendado para pessoas que estejam na faixa etária que eu estava quando o escrevi. Então livros que eu escrevi com 19 anos podem ser lidos por adolescentes; livros que eu escrevi com 30 anos nem sempre podem ser lidos por adolescentes.

domingo, 11 de dezembro de 2011

SURPRESAS E IMPREVISTOS

Cheguei ao ano de 1918 e Toni está desempregado. Há uma guerra, e o Brasil se viu impelido a participar. Então imaginei que, no desespero, Toni gostaria de ir para a guerra, mesmo que fosse para morrer e... e por que ele não procuraria seguir a carreira militar, já que ele está procurando emprego em todo lugar? Só então me dei conta de que ele faz 18 anos justamente em 1918 e precisa se apresentar para o serviço militar obrigatório. Ele serve por um ano, depois não sai, e seus problemas de dinheiro e emprego estão resolvidos. Sim, é ótimo e perfeito... para ele! Para mim é péssimo, porque preciso dele desempregado em 1922 para o ponto de virada mais importante da história. Minha esperança era de que a obrigatoriedade do serviço militar fosse algo recente. Dessa forma, ele não teria que se apresentar e não correria o risco de resolver seus problemas assim. Pesquisei na Internet e o que foi que eu descobri? Que o serviço militar para todos os rapazes aos 18 anos existe no Brasil desde 1906 mas só se tornou obrigatório em 1918, justamente por causa da Grande Guerra. Eu não contava com esse tipo de imprevisto. Passo tanto tempo escrevendo sobre o passado remoto que esqueço das questões do passado mais recente, que ainda influenciam a vida atual. Então agora tenho que inventar um jeito dele ficar quite com suas obrigações junto ao Exército Brasileiro sem ir para a guerra, e sem se tornar militar de carreira. A questão da guerra até é mais fácil, porque o Brasil enviou poucos contingentes. Mas uma carreira militar para Toni está difícil evitar. Tenho que estudar mais sobre como era o serviço militar nessa época – e eu tenho parentes e amigos no Exército Brasileiro que talvez saibam do assunto para me ajudar – para salvar minha história do colapso. Se o ano de 1922 não for exatamente do jeito que eu planejei, a história perde o sentido e terá que ser descartada.
Mas por outro lado, é uma boa oportunidade de usar um deus-ex-machina. Vou estudar primeiro e depois decido o que fazer.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 6 MESES

Ontem precisei procurar o nome de uma empresa específica, onde Toni está trabalhando, e me deparei com as expressões “triângulo central”, “antigo triângulo”, referentes à organização urbana de São Paulo. Fui pesquisar e acabei fazendo um estudo sobre geografia histórica de São Paulo – a fundação, urbanismo na época colonial, expansão urbana, os rios (hoje canalizados e alguns subterrâneos) Tamanduateí, Itororó, Saracura, Anhangabaú, além dos famosos Tietê e Pinheiros. Li também sobre os marcos urbanos centrais mais importantes desde a fundação e até o início do século XX: o Pátio do Colégio, o São Bento, a Sé, a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, os cafés, as tabernas, a Avenida Paulista com o Parque Villon, os bairros operários, e fui desenhando os contornos da cidade em 1917. Estou encantada com tudo o que estou descobrindo (e aprendendo) sobre a história e a geografia de São Paulo.
Na minha história, o ano de 1917 está chegando ao fim, e o Brasil acaba de entrar na Primeira Grande Guerra, enquanto Toni prossegue em sua luta pessoal por uma vida melhor. Na semana passada, organizei todos os fatos fictícios em ordem, e anotei tudo na minha tabela temporal. Ou seja, peguei aquela estrutura da história, da fase de elaboração, e inclui na tabela com os eventos da história de São Paulo e do Brasil. Então agora eu já sei quando cada coisa vai acontecer, quantos meses ele vai ficar em cada emprego, que emprego será. Está tudo organizado de forma que eu rapidamente consigo acessar as informações. Às vezes tenho vontade (mais do que necessidade) de imprimir os calendários desses anos, só para saber que dia da semana caiu cada evento, mas logo tento me convencer de que saber o dia da semana não é importante nesse caso. Mas, para um dos eventos, o dia da semana é importante, então provavelmente terei que consultar o calendário na hora de marcar o casamento.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Entrevista a Rainer - parte 1

Após o lançamento de Primeiro a honra, em julho último, fui entrevistada por Rainer Guggenberger, estudante de filosofia austríaco (xii, não sei de que universidade ele é...) Foi uma experiência nova e intrigante, pois ele buscou relacionar meu texto a textos de autores da literatura e da filosofia internacional – algo que eu não faço conscientemente. Para responder às questões dele, tive que refletir e buscar explicações para coisas que eu simplesmente fiz sem pensar. Foi um desafio e tanto, que agora começo a dividir com vocês. Não poderei publicar a entrevista inteira, porque, em algumas respostas, eu falo de aspectos importantes do meio e da conclusão do livro, e estragaria o prazer do leitor descobrir tudo por si mesmo, ou de me esperar contar. São ao todo 23 perguntas, mais considerações finais, então vou publicando um pouquinho de cada vez, e somente as perguntas mais gerais, que não contam o fim do livro.


1) Você tem a sua própria editora chamada MôniCadorin que oficialmente se chama “Edição do Autor”? Como é publicar no Brasil um romance por conta própria? Qual é o seu motivo e qual é o seu objetivo ao publicar os seus romances?

Sim, eu faço publicação independente, por minha conta, sem editora (empresa). Sou cadastrada na Agência Brasileira do ISBN como editora-pessoa-física, o que me permite ser editora de meus próprios livros. Como já tive uma editora (empresa familiar) e eu era a responsável por toda a produção editorial e gráfica - ou seja, pela produção do livro propriamente dita, depois que minha editora fechou, escolhi continuar eu mesma cuidando da publicação dos meus livros. Para mim, a parte mais difícil de todo o processo é a divulgação e a distribuição, uma vez que não sou empresa e, portanto, os meios utilizados pelas editoras não se abrem para mim.

Percebo que o mercado editorial no Brasil, atualmente, é composto por 1) editoras chamadas "grandes", que escolhem que livros vão publicar e arcam com todos os custos. Em geral, elas publicam autores consagrados, sejam nacionais ou estrangeiros, pois dependem do sucesso de vendas para conseguirem recuperar seu investimento, uma vez que trabalham com grandes tiragens (acima de 2000 exemplares) para reduzirem o custo unitário do exemplar impresso. 2) editoras chamadas "pequenas", que podem ser contratadas pelos autores para terem seus livros publicados. Nesse caso, o autor paga pela publicação de seu livro, e a editora entra com todos os serviços, desde a revisão do texto até a distribuição e venda nas livrarias. Essas editoras trabalham com tiragens pequenas (abaixo de 500 exemplares), conforme os pedidos do autor e das livrarias. 3) editoras chamadas "on-demand", que fornecem espaço para o autor divulgar seu livro na internet. O próprio autor faz a diagramação e a capa, e utiliza ferramentas no site da editora para preparar seu livro. Nesse caso, os livros são impressos um a um, conforme as vendas do site, e somente nesse caso autor e editora recebem. Como a tiragem é unitária, o preço do exemplar fica bastante caro. 4) a outra alternativa que o autor tem, portanto, é ser seu próprio editor, e foi o caminho que eu escolhi. Nesse caso, é importante que o autor tenha uma rede de leitores formada, e eu considero prudente trabalhar com tiragens pequenas, conforme a expectativa de venda.

A expressão "Edição do autor" é exigência da Agência do ISBN, pois, uma vez que eu não me constitui em empresa, não me cabe usar oficialmente um nome-fantasia. É por isso que, na folha de rosto e na ficha catalográfica constam essa expressão, enquanto que, na capa, onde eu posso "inventar", me dei ao direito de usar minha assinatura (MôniCAdorin - que é uma contração de Mônica de Almeida Cadorin) e a logomarca que tinha sido feito para minha editora (que fechou antes de usar a marca).

Publicar meus romances para mim é consequência de escrevê-los. Não posso negar que é realização de um sonho ver a ideia que eu tive e escrevi sendo lida e comentada pelas pessoas. É gratificante ver amigos, colegas e até pessoas que não conheço pessoalmente envolvidas com uma história que eu escrevi, e isso só é possível com a publicação. Eu acho cansativa a leitura na internet, e acho que o livro de papel ainda tem lugar no imaginário das pessoas; por isso gosto de publicar em papel. Com o desenvolvimento da tecnologia do e-book, penso em estudar o assunto e talvez lançar meus livros também nesse formato, sem abrir mão do papel, pelo menos por enquanto.


2) Não entendo por que o romance tem o copyright do ano 1996. Tem a ver com o fato de que no fim do livro você datou 9/8/95? Foi quando você começou a escrever o romance ou quando terminou de escrever? O livro foi impresso no ano de 2010, mas foi lançado na metade de 2011. Qual foi a razão?

Essa questão das datas realmente parece confusa, não? Essa história foi criada em 2 de junho de 1995; eu comecei a escrever em 4 de junho de 1995 e terminei de escrever em 9 de agosto de 1995 (data no final do livro). Seguindo as minhas próprias regras (veja o texto do meu blog), a história ficou guardada por um ano, depois do qual, eu reli, considerei boa e digitei. Quando estava pronta, levei para o Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional e a registrei (data do copyright - 1996). Em 2010, comecei o processo de publicação com o registro do livro na Agência Brasileira do ISBN, mas a publicação só ficou pronta no início de 2011, pois, depois do registro, é necessário ainda pedir a ficha catalográfica, revisar a diagramação, conferir as medidas da capa, mandar os arquivos para a gráfica e receber o livro impresso, e tudo isso levou tempo. Ainda tive alguma dificuldade em escolher o local para o lançamento, e precisei de tempo para planejar e organizar todo o evento, por isso o lançamento só aconteceu em julho de 2011. O intervalo de tempo entre o registro e a publicação se deveu ao fato de que, em 1996, eu não tinha uma editora que fizesse a publicação para mim, e ainda não tinha tido a experiência de ter uma editora própria. Com a minha extinta editora, publiquei meus seis primeiros livros, entre 2002 e 2008 (todos escritos antes de "Primeiro a honra") e foi preciso primeiro definir se a editora ia mesmo fechar para que eu pudesse decidir se faria a publicação por minha conta ou se procuraria uma outra editora que fizesse o trabalho.


3) Você escreve no prefácio que a sua história tem relação com você mesma, porque foi motivada por um sonho seu, de que, entretanto, não se lembra mais. Você sonha todas as suas histórias dos romances? Você acha um romance mais autêntico sendo em parte um fruto de um sonho?

Todas as minhas histórias têm muito de mim. Todas são símbolos do meu inconsciente, que consegue assim se expressar e sublimar suas angústias. Tenho muitas histórias que me vêm em sonhos, mas não todas. O sonho é apenas uma ferramenta, mas não a única, nem a melhor. Uma história baseada num sonho não é mais autêntica do que uma ideia que me venha acordada, inclusive porque todas as ideias são elaboradas e trabalhadas até virarem uma história coerente, com estrutura completa, personagens interessantes, ambientação detalhada, e tudo o que é necessário para se contar bem uma história.


4) Você confessou que em parte o seu romance nasceu como releitura de uma outra história mais antiga. Como se chama? foi publicada?

A história mais antiga se chamava simplesmente "Idade Média". Foi criada em fevereiro de 1986 e chegou a ser escrita. Nela, a personagem feminina se casava com seu prometido (já que o amado morria), mas só conseguia se sentir feliz quando arranjava outro para ocupar o lugar de seu amado, configurando portanto adultério. Tinha algumas falas interessantes, mas era muito inconsistente e tinha problemas graves de caracterização e, por isso, encontra-se hoje descartada (ou seja, guardada numa caixa marcada para não ser publicada). A releitura do tema não foi intencional. Às vezes acontece no meu processo de criação: uma história que não deu certo retorna com uma roupagem diferente para trabalhar o mesmo tema que, nesse caso, é a perda do amado e a superação dessa perda. Os problemas vividos por Isabelle (de Idade Média) e por Rosala (de Primeiro a honra) são muito diferentes, e também as soluções que elas encontram, mas as duas conseguem encontrar um novo amor que, se não ocupa completamente o lugar deixado pelo amor que se foi, pelo menos as faz acreditar que ainda é possível amar.


5) Você situa a “história na época dos reis merovíngos, quando, após a queda do Império Romano, o Ocidente se reorganizava em civilização.” Há varias épocas na história quando uma parte do mundo “se reorganizava em civilização”. Porque você escolheu ambientar a história no quinto século depois de Cristo na região de Paris, de Órleans e de Soissons? Fez também parte do seu sonho? Você fez a sua pesquisa só no Brasil considerando somente fontes escritas ou traduzidas em português?

Quando inventei, essa história acontecia lá pelo século XIII, ou XIV, em Orléans, Reims e Paris. Mas, no meu processo de escrita, depois que a estrutura e a caracterização estão prontas, eu cuido de estudar o ambiente escolhido, e foi quando achei que já tinha inventado e escrito (embora quase tudo já estivesse descartado) muita coisa nessa época pós-carolíngia e eu sempre tive vontade de ambientar uma história na época pré-carolíngia, então achei que era minha chance de realizar esse desejo. Tenho um vínculo afetivo forte com a França e com a Idade Média, talvez pela forma como o assunto me foi apresentado na escola, ou pelos contos de fadas lidos na infância, ou pelos livros e filmes de fantasia, cujo imaginário sempre é a Europa medieval, ou por tudo isso junto. Então, quando tenho uma ideia que precisa ser ambientada no passado, meu primeiro destino é a França Medieval. Se a história ficar boa, então procuro outro lugar e outra época possíveis, para não ficar sempre falando das mesmas coisas, mas às vezes o vínculo entre caracterização e ambientação é tão forte que não consigo quebrar, especialmente num caso como esse, que eu descobri que era releitura de uma história mais antiga, que se passava na França durante a Idade Média. Achei que seria interessante escolher um momento em que a estrutura da legislação não fosse tão forte, e que assassinatos pudessem ficar socialmente impunes, restando ao ofendido apenas a alternativa da vingança, e me pareceu que um reino em construção me ofereceria essa possibilidade - por isso os primeiros anos do reinado de Clodoveu. Paris era necessária por ser a capital do reino, onde estaria Toulière, cavaleiro do rei. Estudando, descobri que a capital de Clodoveu era Soissons, então movi o alvo para essa cidade. Diante disso, não podia mais usar Reims, pois fica muito perto de Soissons, e eu queria que Rosala fizesse uma pequena jornada entre a casa de Rudbert e o objetivo de sua vida. Como Paris já vinha sendo usada, a família de Rudbert deixou de ser Rèmi para ser Parisii. Orléans me servia por ser uma cidade que existia na época, fica a sul tanto de Paris como de Reims e Soissons, e perto da fronteira do reino. Nenhuma das cidades estava no meu sonho, e nem mesmo a época: são escolhas conscientes que eu faço depois, quando estou transformando o sonho em história. A pesquisa é feita mesmo toda no Brasil, com o auxílio da maravilhosa internet, que me fornece textos em português, inglês e francês (nesse caso específico, eram as línguas que me interessavam), além de imagens das cidades e da paisagem, e mapas atuais e da época que estou estudando. Também pesquisei em livros sobre história da moda, para saber o que as pessoas estariam usando - isso era muito importante para ajudar na caracterização contrastante de Rosala e Ailan. Conto também com minha formação em história da arte, que me permite conhecer a arquitetura e os objetos decorativos da época, além de noções de história, sociologia, filosofia e religião, que eu complemento com leituras específicas sobre as datas e cidades escolhidas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DIÁLOGOS

Meu fascínio pelos diálogos nos textos dos outros (para aprender a fazer nos meus) é intuitivo e emocional, e não tem um motivo racional que eu possa usar como argumento. Acho que o texto fui com mais facilidade e leveza quando os assuntos são tratados em forma de diálogo.

Essa é minha opinião e meu gosto pessoal, mas eu não estou sozinha. A uns bons anos atrás, meu pai, jornalista e repórter, me contou como os noticiários da televisão vinham mudando, dando-se cada vez mais espaço a matérias externas, em vez nas notícias de estúdio. E ele me explicou: as pessoas querem ver a sua cidade, querem saber quem foi que disse o que o jornalista está contando. Trazendo para as histórias: as pessoas não querem um narrador que conta o que está acontecendo; elas querem ver e ouvir as pessoas interagindo em seu próprio ambiente.

É claro que, para descrever as personagens e contar seus pensamentos mais íntimos, só a narração é possível... Claro nada! Eu posso descrever uma personagem com diálogos. Como? Outras pessoas comentam a aparência e o jeito de ser da personagem em questão. É claro que, dessa forma, temos apenas a opinião das outras personagens, e não a descrição “isenta” do narrador, muitas vezes uma espécie de deus onisciente. Mas quem precisa de uma opinião isenta? Gostei muito da forma como descrevi Inês Martins, em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Ayraci destacando características que a tornam feia e Fernão tentando suavizar os defeitos para convencê-los de que ela é bonita. Ficou mais ou menos assim (estou repetindo de memória, então não garanto que o texto tenha ficado exatamente assim):

- O que viste nela, Fernão? Ela é feia! –Duarte opinou.
- Não é feia, não! –Fernão defendeu.
- Ela tem olhos arregalados!
- Não são arregalados, são grandes.
- Sim, e bem abertos –Duarte completou.
- Não vejo problema nenhum nisso. Eu gosto dos olhos dela.
- Ela não tem queixo –Ayraci disse, em voz baixa.
- Tem sim. Só que... é pequenino.
- Não adianta, Fernão –Duarte concluiu- Ela é feia.
- Eu não acho. Para mim, ela é bonita. A moça mais bonita da cidade. E não vou ficar aqui a ouvir insultos.

Isso é só um pedacinho, porque descrevo também outras características da moça. Usando diálogos, posso também usar exageros. Não fica bem um narrador sério e “isento” dizer que a moça teria olhos arregalados e não teria queixo. Eu acabaria usando os termos de Fernão, e o leitor acharia que os olhos de Inês eram apenas grandes e bem abertos quando me agrada passar a imagem de olhos arregalados.

Quanto aos pensamentos íntimos das personagens: embora eu conte em terceira pessoa (como é a voz do meu narrador), faço de forma a usar o jeito de falar da personagem, como se ela estivesse falando consigo mesma. E, se o parágrafo ficar muito extenso, faço a personagem falar em voz alta, para escrever um travessão e quebrar a massa pesada do parágrafo. Um exemplo hipotético ficaria assim (de propósito vou fazer o conteúdo vazio e sem sentido, para enfatizar a forma):

Tinha que ser assim –ele pensou- Afinal, há anos sabia dessa questão e evitava enfrentar o problema. Ninguém mais podia ajudá-lo, pois afastara-se dos amigos e perdera contato também com os inimigos (segue o blá-blá-blá)
- Não adianta lamentar. Agora está feito.
Mas, em seus pensamentos, ainda tinha a imagem dos eventos passados, como aquele dia em que sua mãe lhe dissera como era importante resolver os problemas na hora em que se apresentam. E ele nunca dera ouvidos a sua mãe... (segue o blá-blá-blá)


O uso de diálogos é, portanto, uma ferramenta importante não apenas para fazer as personagens se comunicarem, mas também para passar informações para o leitor de uma forma interessante, quebrando a monotonia da voz do narrador.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CONTEXTUALIZAR

Estou adorando estudar sobre a Greve Geral de 1917, e fazer minhas personagens participarem desse momento tão importante da História de São Paulo – e que refletiu em outros estados do país. É uma pena que esse evento não seja bem estudado nas escolas de outros estados (ao menos eu não lembro de ter estudado), pois mostra como nem sempre os brasileiros tiveram “sangue de barata”, mas já foram capazes de ir para as ruas brigar (literalmente) por seus direitos. Conhecer o fato é uma coisa. Mas como usá-lo na história?

Greve no Crespi? Uma personagem trabalha lá. Barricadas nas ruas? Tenho personagens lá. O enterro do operário? Minhas personagens estiveram presentes. Edgard Leuenroth? Sim, conheço, muito amigo de uma personagem minha. E assim entrelaço a minha história na história de São Paulo, a ponto de (ao menos para mim) se tornar inconcebível o evento acontecer sem a participação das minhas personagens.

E como fazer esse entrelaçamento de forma interessante e informativa, mas sem cair no didatismo maçante? Eu uso diálogos. Em vez de narrar “os operários queriam isso, isso e isso”, faço Toni perguntar “mas afinal o que é que vocês querem?”, para que um colega de pensão responda “isso e isso”, e outro complete “e isso também”. Assim, estou dando a informação de que o leitor precisa para conhecer o fato histórico mas, uma vez que ponho o texto na boca das personagens, dou a ele mais movimento e mais vida, e o fato histórico passa a fazer parte da minha ficção. Em vez de narrar “os operários eram explorados e trabalhavam até 14h por dia, incluindo mulheres e crianças”, eu faço um dos rapazes dizer algo como “É uma exploração! Perto de onde eu fico, há duas meninas, uma de dez e outra de doze anos. Lá, nós trabalhamos doze horas por dia, mas tem fábrica em que os operários trabalham até 14h por dia. Isso é um massacre!” para depois Toni responder “Isso não é vida. Alguém tem que fazer alguma coisa”. E assim a conversa política prossegue e eu vou apresentando os fatos: os colegas operários contam a Toni como é a vida deles, explicando ao leitor a motivação da Greve Geral, e tudo o que aconteceu naqueles dias em que expus minhas personagens ao ideal da Anarquia.

Achei na Internet um mapa que situa os pontos dos conflitos, das passeatas e os marcos mais significativos. Posso contar nome de bairros, nomes de ruas, nome das fábricas. Me aproprio da História.

Estou muito orgulhosa de meus estudos, pois já sei onde ficam muitos bairros de São Paulo. Quando ouço, no rádio ou na televisão, alguém citar algum bairro (desses mais antigos que estou usando na história), já me vem à mente meu mapa de bairros, e eu consigo visualizar onde ele fica. Aprender é muito bom, especialmente porque eu me sentia em dívida com São Paulo, por saber tão pouco sobre sua história recente e geografia, por não conhecer bem a cidade, e por nunca ter situado nenhuma história lá. Ao final da história, terei resolvido duas dívidas, e só restará pegar um ônibus aqui para ir passear em São Paulo sem precisar de mapa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ANTES DE COMEÇAR – O PROJETO

Eu sempre preciso fazer muita pesquisa antes de começar a escrever, porque preciso conhecer em detalhes o local e a época em que resolvi ambientar a história. Isso não significa que eu vá usar todos os detalhes na história, mas eu preciso conhecê-los para me sentir à vontade para criar. Eu desenhei mapas de Brugge (para O canhoto) e do Rio de Janeiro (para Construir a terra, conquistar a vida), como estou agora fazendo com São Paulo (para Rosinha), retirando partes modernas e tentando reconstruir o que havia na época das histórias.

O estudo do ambiente acontece em paralelo à construção da história, pois é necessário enquadrar a caracterização das personagens e a sucessão de eventos ao contexto escolhido. O nome de Antônio só me veio à cabeça quando eu resolvi aproveitar o contexto da imigração italiana do final do século XIX às minhas personagens. Assim, uma coisa influencia a outra, e todas juntas constroem a história do jeito que eu quero contar.

As idéias vêm de toda parte e de lugar nenhum (como já contei) e à medida que vou caracterizando as personagens, a trama prossegue, e vice-versa, até um momento de impasse, que me faz descartar a história, ou até o final do jeito que eu quero. Mesmo tendo encontrado um bom final, eu procuro outros finais possíveis, para me assegurar de escolher o melhor deles. Para isso, às vezes é necessário recuar e alterar eventos que estão mais próximos do meio do que do final. Não importa, eu gosto de testar possibilidades.

Tendo a estrutura da história e a caracterização das personagens, preciso aprofundar o estudo da ambientação, inclusive tentando descobrir fatos históricos que eu possa incorporar à minha história para acrescentar verossimilhança. Por exemplo, eu não posso deixar de citar na história que estou escrevendo agora (Rosinha) o surto de Gripe Espanhola de 1918, nem o dia mais frio da história de São Paulo, que também aconteceu em 1918. Assim, entrelaço a minha ficção na história real da cidade (e do estado) de São Paulo.

Muitas vezes, outras pesquisas, além da histórica, também são necessárias. Desta vez, quis conhecer melhor o processo de colheita e beneficiamento do café, já que os primeiros anos da história se passam numa fazenda de café. Para O canhoto, precisei estudar psicologia para entender se era possível a amnésia de Maurits, e que fatores eram necessários para que a amnésia fosse possível. Foi muito bom porque ajudou inclusive na caracterização da personagem e na estruturação dos eventos passados e futuros.

Quando tenho todas essas informações, e a certeza de que há uma boa história a ser contada, então vem a parte trabalhosa: pegar papel e caneta e começar a escrever.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 4 MESES

Minha história ainda não tem título. Continuo chamando de Rosinha, embora Antonio tenha se tornado a personagem principal. Já tenho mais de 50 páginas escritas e já comecei a andar com alguns “apetrechos” na bolsa: mapas e quadro do tempo.

Eu não conheço São Paulo. Já andei por alguns pontos da cidade, mas não o bastante para dizer que sei onde ficam os bairros, os parques, as ruas, os marcos de referência. Bem, não sabia, porque imprimi alguns mapas para me auxiliarem a visualizar por onde Toni está andando. É a maravilha do Google Maps: diferentes níveis de aproximação (zoom) para que eu tenha mapas de ruas, de bairros, de região. São ao todo cinco, cada um em pelo menos duas folhas A4 coladas com fita de empacotamento. Até o final da história, conhecerei São Paulo melhor, pelo menos na área entre as Marginais (Barra Funda, Perdizes, Pinheiros, Vila Mariana) e até Tatuapé e Água Rasa. São os limites da região por onde Toni anda, procurando emprego. Até agora, ele está tendo dificuldades, mas sem maiores problemas.

Outra necessidade que senti foi de fazer um mapa temporal – um quadro de meses e anos – onde eu pudesse anotar, para consulta rápida, os principais eventos da história de São Paulo, do Brasil e do Mundo, para inclui-los na minha história. É um recurso que já usei em Construir a terra, conquistar a vida e que foi extremamente útil. Estou num momento bem interessante – os anos de 1917 e 1918 – quando a cidade de São Paulo viveu os três “G” que marcaram aquela geração: a Greve Geral de 1917; a Grande Guerra, na qual o Brasil ingressou em 1917; e a Gripe Espanhola, que chegou ao Brasil em 1918. É maravilhoso ter tantos eventos importantes para Toni participar. É uma forma simples e eficiente de dar verossimilhança à história e contextualizá-la. Então, à medida que vou lendo e pesquisando, vou preenchendo o quadro e usando as informações na história. É claro que nem todos os anos têm coisas legais para aproveitar. São momentos para aprofundar os problemas das personagens ou para dar uma “corridinha” com a narração, até outro momento interessante, seja pela história real ou pela história inventada.

Estou ansiosa para chegar logo ao próximo ponto de virada, que acontece daqui a alguns anos, quando Toni terá novamente uma escolha difícil a fazer (o nome dele foi escolhido com isso em mente, como contei aqui). São os melhores momentos, pois é quando o conflito interno da personagem explode, e conhecemos melhor seu caráter e sua personalidade. Mais um pouco e eu chego lá.

sábado, 1 de outubro de 2011

AMADURECER O AUTOR

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, não existia computador pessoal, e a Internet ainda era uma admirável forma de comunicação entre universidades e talvez alguma outra instituição ou empresa. As chances de você encontrar um colega escritor – iniciante ou experiente – eram bem escassas. Para agravar meu isolamento, eu morava em São Luís – MA e, embora se diga que “quem dorme em São Luís acorda poeta”, eu não tive o prazer de conhecer nenhum escritor nos cinco anos em que morei lá. Além do mais, eu era uma adolescente tímida, com muito pouca vida social, e não me lembro de eventos literários acontecendo na cidade.

É bem verdade que, aos 18 anos, eu estava no Rio de Janeiro, cursando Educação Artística e participando de tudo o que podia: vernissages, exposições, palestras, peças de teatro, filmes, óperas, concertos. Mas era difícil encontrar os pares literários. Autores experientes dão palestra mas, em geral, não se interessavam por ouvir uma adolescente principiante.

Mas essa historinha é para dizer que eu não tinha outros escritores a quem mostrar meus primeiros escritos, como vejo acontecer hoje, graças à Internet. Minhas amigas queridas adoravam tudo o que eu escrevia (ou não) mas não tinham experiência nem de vida nem de literatura para me indicar falhas, defeitos, incoerências, erros. Eu tive que aprender sozinha. Em 1989, quando eu fiz a primeira avaliação dos meus textos, eu percebi como eu havia melhorado, como eu estava mais experiente e amadurecida, e como muitos textos não resistem ao tempo, enquanto outros – os melhores, é claro – só precisam de ajustes para continuarem sendo considerados bons.

Quero dizer com isso que o que me fez chegar onde estou não foi a crítica alheia, mas a minha própria crítica. Então, quando hoje vejo novos escritores pedindo comentários dos outros, fico pensando se a opinião externa é assim tão importante. Isso porque os leitores podem até apontar algumas questões pertinentes, mas cabe ao escritor refletir sobre suas fraquezas e encontrar seu caminho sozinho. Amadurecer é um processo solitário, como comer, sentir, nascer, morrer. Ninguém pode fazer isso por você e, se você não estiver pronto, nenhuma opinião externa vai ajudar. Crescer é um processo lento e sofrido, e algumas pessoas não suportam a dor – por isso não conseguem crescer. Dói olhar para trás e ver que muito do que eu fiz era ruim. Dói descartar vidas que eu vivi, filhos queridos que tão boa companhia me deram. Mas, se a trama é inconsistente, se a caracterização das personagens é falha, se o texto não foi bem trabalhado – e agora sou capaz de perceber tudo isso! – então não adiante mantê-las com vida. Aos poucos, a gente aprende também a superar as perdas; a levantar após cada queda e seguir adiante; a amar os mortos porque um dia estiveram vivos, em vez de lamentar por não estarem mais vivos.

Essa é a minha trajetória. Aprendi apanhando de mim mesma; lendo e relendo meus textos e criticando-os mais severamente do que qualquer leitor faria; escrevendo e re-escrevendo, quase doentiamente, até que meu público-alvo (eu mesma) ficasse satisfeito com o resultado.

Sorte de quem está começando agora ter a Internet tão cheia de grupos e oportunidades, e poder encontrar pessoas com quem trocar idéias e leitores que indicam pontos inconsistentes a serem melhorados. Com essa ajuda, esses jovens poderão re-escrever mais, e assim alcançar mais cedo um bom nível de maturidade. É claro que precisam ser humildes para aceitar a opinião de outra pessoa, precisam refletir sobre as questões apontadas e buscar as melhores soluções. Mas não basta mudar uma passagem porque alguém falou. Não. É preciso compreender porque foi feito daquela forma, como corrigir (se for o caso) ou como justificar que tenha sido feito daquele jeito; e como evitar o erro (ou aprender a justificá-lo) no futuro. Não tem jeito: amadurecer é um processo individual e solitário.


Outros textos relacionados:

A maturidade

Amadurecer o texto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AMADURECER O TEXTO

Tenho muita desconfiança das pessoas que acabam de escrever um livro e já saem procurando publicação – quando não publicam os capítulos em seus blogs particulares, à medida que vão escrevendo. Eu não consigo. Não considero que o texto esteja pronto quando se põe o ponto final. Acho que essa é a hora em que o trabalho vai de fato começar. Acho que nesse momento estamos diante de um diamante bruto, que ainda precisa ser bem lapidado e polido para que se torne um brilhante da melhor qualidade.

Ultimamente tenho visto alguns textos de colegas de comunidades que parecem exatamente isso: belos diamantes, mas em estado bruto. A pressa na publicação e no retorno dos leitores (“comentem por favor”) faz que os textos sejam publicados até com erros de digitação e gramática. Às vezes a compreensão da mensagem fica prejudicada por um texto truncado, mal pontuado e mal explicado. Acredito que na maioria das vezes isso acontece porque o botão “Publicar” é apertado antes que o autor releia o que digitou. Isso é muito grave, pois essas pessoas estão considerando que seus textos recém-escritos estão prontos: que seus diamantes são brilhantes. Então recebem comentários vagos de “que lindo”, ou “adorei”, ou o extremo oposto “que porcaria”, ou “aprenda português antes de escrever”. Quando eu comento, procuro apontar as inconsistências, e que há erros de português. Às vezes são coisas simples, que bastava o autor reler para corrigir. Então essa pressa expõe o autor ao público com um texto que ainda não está pronto, que ainda tem muito o que melhorar.

Quem faz isso, em geral, são pessoas que estão começando agora, e estão ainda procurando seus caminhos e descobrindo o próprio estilo. É preciso não apenas ler, mas reler, re-escrever, afastar-se do texto para depois retomá-lo, analisar sintaticamente e estilisticamente, procurar clichês e sempre que possível eliminá-los, afastar-se novamente, retomar, analisar tudo de novo, buscando sempre aproximar o texto da perfeição.

Nossa, mas isso é trabalho para meses! –alguém poderia observar. E eu respondo: SIM! Todo o processo de criação, escrita e amadurecimento pode levar na verdade ANOS! E então eu pergunto: há algum problema nisso? Você não gosta do seu texto? Quer livrar-se dele o quanto antes? A publicação no Brasil é difícil, então é melhor você chegar na editora com um texto que encante o editor e não dê trabalho para virar livro.

Sei que minha escolha é um pouco extrema, pois posso levar meses elaborando e fazendo a pesquisa prévia; depois posso passar mais de um ano escrevendo; depois de pronto, o texto fica guardado por um ano (o tempo que eu preciso para esquecê-lo), e só depois eu releio, avalio, analiso, digito re-escrevendo, releio, e ele fica guardado até chegar a vez de ser publicado. Enquanto isso, continuo relendo, corrigindo, re-escrevendo o que for necessário. Acho que eu me sentiria confortável em procurar publicação para um texto meu somente um ano depois de tê-lo digitado, pois minha fase de polimento só começa após a digitação. Isso significa pelo menos dois anos depois do ponto final. Por sorte (na verdade, por circunstâncias várias), tenho uma longa fila de publicação e meu próximo livro a ser publicado (A noiva trocada) foi escrito em 1996 e vem sendo lapidado e polido desde então, o que me deixa tranqüila de que ele está mesmo pronto para ser publicado.


Outros textos relacionados:

A maturidade

Amadurecer o autor

domingo, 11 de setembro de 2011

A MATURIDADE

Um dia, numa das minhas comunidades literárias favoritas, me irritei e meio que “subi nas tamancas”, e por isso resolvi escrever um texto sobre o assunto, mas acabei escrevendo três textos relacionados (este e mais Amadurecer o texto e Amadurecer o autor). A motivação desses textos é que tenho lido muitos textos de jovens colegas que encontro nas comunidades do Orkut e em outras comunidades e fori, que estão começando suas trajetórias agora e acabo ficando indignada com um ou outro, pois demonstram ser talentosos, com idéias interessantes, mas se apressam em mostrar textos recém-escritos, não revisados, inconsistentes e até incoerentes. Eu acabo me sentindo na obrigação de dizer “colega, sua idéia é ótima, mas o texto deixa a desejar”. O conteúdo é bom mas a forma atrapalha. É o trabalho da língua escrita – o objetivo da profissão do escritor! – que puxa o tapete da juventude. Isso acontece pela falta de hábito de escrever – sim, porque estão começando agora! São pessoas com dois ou três anos de carreira, talvez até menos! E foi essa minha indignação que me levou a refletir sobre como amadurecer um escritor e como amadurecer um texto. Como eu não sei da vida dos outros, tratei de pensar na minha vida, e em como esse processo de maturidade vem acontecendo comigo. Por gostar de números e tabelas, levantei a informação de quantas histórias eu já escrevi na vida, para ter chegado no ponto em que cheguei. Devo confessar que os números me surpreenderam, porque eu não esperava tanto. Eu já escrevi 51 histórias completas, e 12 delas tiveram uma segunda versão completa escrita; e 19 histórias ficaram incompletas, algumas com mais, outras com menos páginas. Ou seja, no total já escrevi 82 textos, sendo 63 completos, com começo, meio e fim. E eu tenho apenas 20 histórias sobreviventes, o que significa que, das 63 completas, só 32% se salva e 68% é porcaria.

É claro que não se pode generalizar, e o fato de eu escrever muitos textos ruins não significa que todo mundo escreva também. Mas acho que essas contas servem para mostrar a meus colegas com menos experiência que dificilmente alguém pode ser brilhante todo o tempo; e que encontrar defeitos em seu próprio texto não indica que você é mau escritor, ou que você está fadado ao fracasso. Ao contrário, acho louvável ter humildade de reconhecer seus erros, suas fraquezas, seus enganos – e escondê-los do mundo! Não mostro tudo o que já escrevi, apenas o que eu considero o melhor. Outra conclusão que se pode tirar é: prepare-se para descartar seus primeiros textos (ou re-escrevê-los), porque dificilmente serão os melhores.

Penso que a prova de fogo de um escritor é descartar seu primeiro texto. Quando alguém relê seu primeiro texto e o considera ruim, então há esperança de que se torne um bom escritor, pois já conseguiu um passo de amadurecimento e autocrítica. É por isso que eu sempre sugiro aos colegas: ESCREVA! Escreva sem parar, escreva tudo o que vem à cabeça. Só se aprende a escrever escrevendo. Fazer cursos, ler livros, trocar idéias com os pares pode ajudar mas é a sua intimidade com o seu texto que vai fazer você crescer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E SE A PERSONAGEM PRINCIPAL ESTIVER AUSENTE?

Essa pergunta pode soar estranha, afinal, uma personagem, para ser principal – protagonista – precisa estar presente na história para carregar a trama. Eu sei disso mas, mesmo assim, por três vezes, tentei escrever uma história em que o protagonista não aparecesse. A bem da verdade, ele aparece, ocupa seu lugar de personagem principal e depois é afastado da trama. Tudo acontece por causa dele, e as outras personagens se encarregam de caracterizá-lo, como se ele estivesse presente o tempo todo. Foi o que eu fiz em O caso MArchand, Idade média, e Primeiro a honra. Ao chegar ao final das histórias, porém, fiquei com a sensação de não ter alcançado meu objetivo – talvez por isso duas dessas histórias estejam descartadas, e somente Primeiro a honra tenha sobrevivido, por tratar desse tema de uma forma mais madura e refletida. Porque o que acontece é que essa personagem, ao ser afastada da trama, na verdade perde seu lugar de protagonista, e vai ocupar o lugar de “motivo” da ação das outras personagens. Então Michel Archand não é a personagem principal, mas apenas o motivo pelo qual a história acontece. A personagem principal, o protagonista, aquela que carrega a trama, é o Detetive Chaloult. A história acontece ao redor da personalidade e da vida de Archand, mas quem conduz é Chaloult. O dia que eu souber escrever romance policial, essa história volta à vida.

Há um outro caso, numa história que é claro que não vou dizer o nome, em que a personagem principal morre no final, e eu conto como foram o velório e o enterro, em meio aos lamentos das outras personagens. É muito interessante porque, desde que morre, o protagonista está presente em todas as outras cenas, mas sem dizer nenhuma palavra e sem fazer sequer um movimento (é claro, pois está morto). Ele se torna “motivo” das ações das outras personagens mas seu protagonismo continua sólido como foi em toda a história. Cada palavra, cada gesto das outras personagens parecem dialogar com o silêncio e o imobilismo do protagonista. O silêncio dele fala; a imobilidade gesticula. Como já era mesmo o fim da história, nenhuma outra personagem assumiu o lugar de protagonista – mesmo porque eu não saberia a quem entregar esse bastão.

Escrever com o protagonista em algum tipo de “limbo” é um exercício bastante complexo e, muitas vezes, inglório. Já tive a minha quota e só uma possível re-escrita de O caso MArchand me faria tentar de novo. Mas fica a sugestão para quem quiser experimentar.

domingo, 21 de agosto de 2011

ROMANCE, NOVELA, CONTO, CRÔNICA

Não vou falar nenhuma novidade, e inclusive há sites, livros e textos que explicam mais detalhadamente as características desses quatro gêneros de prosa literária. Mas achei importante começar essa fase didática por um aspecto mais geral para depois começar a falar mais especificamente do romance, e de como é, para mim, escrever um romance.

Romances e novelas costumam ser mais longos do que contos e crônicas mas as diferenças principais estão na estruturação e na forma de se escrever cada um deles. O tamanho é conseqüência da estrutura, e não causa.

A crônica, em geral, é um texto curto, baseado em algum aspecto pitoresco da atualidade ou da vida cotidiana. Pode contar uma história ou ser apenas uma reflexão sobre algum evento. Portanto, pode ter personagens ou não. A linguagem é, em geral, leve, fácil e bem-humorada. Mesmo se a crônica contar uma história fictícia, a relação com o cotidiano permanece e a caracteriza.

A característica principal do conto é sua unicidade estrutural. Há apenas um aspecto a abordar, o que produz as outras características: poucas personagens, em geral planas; trama única; unidade temporal; unidade espacial. É uma narrativa rápida, que, por ser breve, precisa ser interessante do começo ao fim. Não há espaço para erros num conto. Há quem diga que, no conto, o mais importante é saber terminar, pois o final deve resolver, ou envolver, ou surpreender. O conto termina no clímax, e não depois (como muitas vezes acontece no romance). Escrever contos parece fácil. Escrever bons contos é bastante difícil. Há pessoas que acham que escrever contos é uma etapa na formação do escritor anterior a escrever romances. Eu não concordo. O trabalho do contista é diferente do trabalho do romancista. Conto não é “treino” para romance, nem vice-versa. Cada gênero tem suas características, suas especificidades, suas dificuldades, um modo de trabalho próprio, que requer do escritor certas características de personalidade e de atividade. É preciso ficar claro também que um romance não desenvolvido não é um conto. Ele só será conto se tiver a estrutura do conto. Outra coisa importante é que o conto precisa contar uma história: a trama (em inglês, plot) é um elemento fundamental e condição sine qua non. Foi por compreender tudo isso que eu parei de escrever contos.

A diferença entre romance e novela é tênue e é ponto de discussão mesmo entre os estudiosos. Há um acordo de que o diferencial é que a novela tem uma trama única e o romance tem, além da trama principal, várias tramas secundárias entrelaçadas, o que produz maior número de personagens e de ambientações. Diante disso, a novela seria um gênero a meio caminho entre o conto, com toda sua unicidade e objetividade, e o romance, com sua pluralidade e complexidade. Algo como um conto mais desenvolvido ou um romance simplificado. É importante não confundir o gênero literário “novela” com o gênero televisivo “novela”, pois são objetos com estruturas e características diferentes.

E finalmente temos o romance, com muitas tramas, muitas personagens, muitos ambientes, amplitude temporal e quantidade ilimitada de páginas para o autor escrever o quanto quiser. Por ser um texto em geral longo, o romance exige maior detalhamento na caracterização das personagens e ambientes, e a verossimilhança precisa ser mantida ao longo de toda a história. Por outro lado, o romance não precisa ser brilhante todo o tempo, mas pode ter partes mais interessantes e partes menos interessantes – no romance, há lugar para o erro e para a tentativa. Romance não é um conto longo, é um gênero específico. A mesma pessoa que me disse que no conto é importante saber terminar disse que, no romance, é importante saber começar. O primeiro capítulo é importantíssimo, pois é ele que vai apresentar o universo da ficção: quem são as personagens, qual é o ambiente, qual é o maior problema, que a personagem principal tem que resolver, e isso tem que ser feito de uma forma interessante (evitando o excesso de didatismo) para que o leitor queira ler o segundo capítulo. Por isso atualmente alguns autores estão preferindo começar o livro com uma cena de ação ou suspense, que chamam “Prólogo”, para só depois começar a contextualização necessária do primeiro capítulo, em geral usando o recurso do flashback.

Esta foi uma breve apresentação dos gêneros mais usados na prosa literária. Como isso é assunto de Teoria da Literatura, não me preocupei em dar detalhes. Há vários sites mais especializados no assunto e, na dúvida, quem tiver interesse pode começar o estudo pela Wikipedia mesmo: Crônica (literatura e jornalismo), Conto, Novela, Romance

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

JORNADA DO HERÓI

Pesquisando daqui e dali, visitando blogs de meus amigos, encontrei referência a um certo tipo de estrutura, usado especialmente para contar histórias fantásticas, que se chama Jornada do Herói (explicações aqui e aqui). Nas minhas histórias, a Jornada está relacionada a situações de exílio, que expliquei aqui. Os elementos dessa Jornada do Herói, com as devidas adaptações ao meu estilo e ao tipo de trama que eu conto, estão nitidamente presentes em sete das minhas histórias: Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Primeiro a honra, Amor de redenção, Fábrica, O canhoto, Rosinha.

Há duas diferenças importantes entre a Jornada do Herói e a estrutura dessas minhas histórias que de alguma forma acompanham esse modelo. Uma é a atuação do Mentor, que surge para encorajar o herói e entrar no mundo mágico. Nas minhas histórias, o Mentor em geral aparece depois que o herói já está fora de sua realidade, justamente para ajudá-lo a sair. E a segunda diferença, relacionada a essa primeira, é que minhas personagens não têm medo de enfrentar a Jornada, e não precisam de ajuda para entrar nesse “mundo mágico”- no meu caso, algum tipo de exílio – porque são jogadas dentro dele à força. Me faz lembrar da Divina Comédia, em que Dante de repente se vê na floresta escura (já é exílio) e Virgílio lhe aparece (Mentor) para guiá-lo até a nova realidade (Paraíso), embora passando pelos caminhos mais difíceis e sofridos (Inferno e Purgatório). É mais ou menos isso o que acontece nas minhas histórias: a personagem é forçada a algum tipo de exílio (ou por algum motivo o procura), onde encontra um Mentor para ajudá-la a amadurecer, resolver seus problemas e voltar.

Outro aspecto interessante de destacar é que nem sempre o herói da jornada é a personagem principal, como é o caso de O maior de todos, que tem Curt como personagem principal mas é Karl quem enfrenta a busca por si mesmo. Também é interessante o caso de Ninette, em Pelo poder ou pela honra, que supera a maior crise, enfrenta a morte, vence o medo mas perde o elixir. Quando fui ver se Nicolaas passava por essas etapas, tive dificuldade em definir os eventos de cada etapa e conclui que ele, na verdade, enfrenta três jornadas de uma só vez: uma de caráter religioso, com Maurits como Mentor e a superação do passado como Elixir; a segunda é pessoal, com Miguel como Mentor e a superação do sinistrismo como Elixir; a terceira é social, com Frans como Mentor e a Cruzada como Elixir. São três jornadas entrelaçadas, e as etapas de cada uma não acontecem ao mesmo tempo, mas cada uma em seu momento dentro de cada jornada.

É interessante pensar como essa estrutura está relacionada a uma espécie de inconsciente coletivo cultural uma vez que, mesmo sem buscar por ela, muitos escritores – eu inclusive – acabam por encontrá-la. Também é interessante que uma estrutura característica de romances de fantasia possa ser usada com sucesso em outros tipos de romances.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quando você acha que as mortes ultrapassam dos limites?

Tenho pensado muito sobre essa pergunta, que me foi feita pela Amanda, e a conclusão a que chego é sempre a mesma: nunca. As mortes na ficção nunca ultrapassam nenhum limite. Matar as personagens não é uma questão ética, mas ficcional, e a ficção segue leis próprias, que não se baseiam nos princípios do mundo real. Quando um autor cria uma história e se mete a escrevê-la, é porque quer tratar de um tema, com um determinado objetivo, mesmo que não tenha plena consciência disso. Então, quando acontecem mortes na ficção, é porque há um plano maior de desenvolvimento da história, que faz com que aquelas mortes sejam necessárias. Diante disso, o limite aceitável de mortes varia conforme os objetivos do autor. Em O maior de todos, eu tenho Peste Negra e um complô para tomada de poder. É óbvio que morre muita gente, pois tenho dois eventos altamente mortais. Em Vingança também morre gente, pois o objetivo da história é contar a tentativa de vingança do rapaz.

Quando estruturo uma história, já decido quem precisa morrer quando e como, e as conseqüências dessa morte na vida das personagens principais. Depois, à medida que vou escrevendo a história e desenvolvendo as personagens, fico com pena, e tento poupá-las do destino decidido, mas nunca tenho como fugir, pois aquela morte é apenas um elo numa cadeia maior e, se a morte não acontecer, o rumo da história muda e ela pode, inclusive, se tornar inviável. Então eu tento envolver o leitor, para que ele sofra comigo por aquela morte inevitável, e entenda como ela era necessária para o crescimento emocional do protagonista e a continuação da história em seus objetivos.

Como já contei que há uma – e apenas uma – morte que eu podia ter evitado, porque não era essencial ao prosseguimento da história. Foi a única vez que, ao chegar a hora, eu perguntei “essa personagem precisa mesmo morrer?” e, embora a resposta tenha sido “não”, eu segui em frente e a fiz morrer, e contei cada etapa do processo de morte com todos os detalhes que pude. Eu podia ter evitado essa morte mas não o fiz, justificando que “a morte não mata só quem tem que morrer”. Sempre leio esse capítulo com um lenço na mão, porque as lágrimas são inevitáveis.

Então, Amanda, minha opinião é de que não há limite para a quantidade de mortes numa história. Tudo vai depender dos objetivos do autor e da estrutura montada. Pode não ser necessária nenhuma morte, ou o autor pode ter que matar todas as personagens. Também considero que não há limite qualitativo para as mortes, pelos mesmos motivos. O autor pode precisar apenas da morte de uma personagem terciária, ou pode precisar da morte do próprio protagonista para atingir seus objetivos. Tenho algumas histórias assim (umas sete, numa conta rápida), que acabam porque o protagonista morreu.

Também não vejo necessidade de limite para a maneira como a personagem morre (doença, acidente, assassinato, suicídio), nem para a quantidade de detalhes que o autor decide contar ao leitor – e aqui vou fugir só um pouquinho do tema da pergunta. Eu gosto de descrever os sintomas, as sensações, os sentimentos e pensamentos da personagem que está morrendo. Acho que isso a torna humana, e cria empatia com o leitor, que pode ter experiência de morte sem precisar passar por ela. É bem verdade que eu também nunca morri para ter a experiência que estou contando mas, a partir dos sintomas (informação que um médico ou um bom artigo de medicina pode dar), e do conhecimento que tenho da personagem, consigo imaginar como ela deve estar vivendo essa experiência, e por isso conto. Conforme seja meu vínculo afetivo com a personagem (que eu suponho seja semelhante ao do leitor com a personagem), eu enfoco mais ou menos os detalhes desagradáveis do que elas estão passando. Isso fica bem nítido em dois enforcamentos que acontecem em O maior de todos. Em um deles, como eu tinha simpatia pela personagem, o texto ficou assim: “Ele fez um gesto ao carrasco, que puxou uma corda, e o chão abriu sob Fulano. Os amigos não contiveram mais as lágrimas. Fulano debateu-se com força quase um minuto mas logo acalmou: estava morto”. Como eu não gostava da outra personagem, o texto ficou assim: “Karl fez um gesto ao carrasco, que puxou uma corda e o chão abriu sob Beltrano. O corpo contorceu-se com violência alguns segundos e depois parou: o feio estava morto” (as expressões em itálico são para não dizer os nomes nem dar detalhes da trama).

Nenhuma morte é fácil de ser contada, seja uma doença que consome (peste bubônica, pneumonia, enfarto, falência renal, virose, sarampo, depressão), um enforcamento, um envenenamento, um desmoronamento, uma queda de um lugar alto, uma espada (ou adaga ou punhal) que atravessa os órgãos ou o corpo inteiro, uma pancada na cabeça, uma adaga que corta a traquéia, o frio que congela o sangue, um emparedamento, um ataque de onça (percebam que eu não uso arma de fogo). Todas são difíceis de descrever e detalhar, mas é um procedimento necessário para chamar o leitor para dentro da história. Assim como se descreve em detalhes as cenas de amor, os beijos e carinhos, acho que também cabe descrever as cenas de horror. É esse conjunto que dá verdade a um livro. Além de tudo, a vida é assim, e o destino de todos nós, reais ou fictícios, é o mesmo: a morte. Precisamos parar de ter medo do inexorável.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ESCREVER SOBRE A ROTINA

Muitos de meus romances provavelmente poderiam ser classificados como romance de ação, pois eu gosto de focar na sucessão de eventos relevantes. Eu estou sempre contando o momento da vida daquela personagem quando ela está decidindo o rumo de sua vida, tomando decisões, resolvendo conflitos com a sociedade e consigo mesma, superando todos os obstáculos que eu e a vida colocamos na frente dela.

Uma história eu quis fazer diferente e contar justamente uma vida sem grandes conflitos, sem grandes feios e eventos – quis falar da rotina da vida comum. Essa história foi Construir a terra, conquistar a vida. Acho que por isso precisei de tantas páginas (876 manuscritas) pois falar do cotidiano dá mais trabalho do que destacar eventos importantes, mesmo sem contar os dias um por um. Bem, essa história também tem a particularidade de falar da vida de duas gerações: com mais personagens, com certeza se tem mais páginas.

Escrever sobre a rotina pode se tornar enfadonho e cansativo, pois a primeira impressão é de mesmice e repetição. E aí está a graça: um dia nunca é igual ao outro. E há os eventos meteorológicos e históricos que interferem na vida das personagens e ajudam a fazer que os dias sejam diferentes. Então, uma história sobre a rotina não é uma história monótona, e serve até de reflexão para nós tomarmos consciência de que nossa vida não é rotina, não é mesmice, não é repetição, mas cada dia é diferente e único para a história da vida de cada um de nós. Cada dia de nossa vida é um livro, original e interessante, que nós escrevemos, da melhor forma que podemos, tentando fazê-lo único e maravilhoso. Assim foram as vidas de Duarte, Fernão e suas famílias: rotineiras, monótonas, maravilhosas e interessantes.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

LANÇAMENTO DE “PRIMEIRO A HONRA”

Conforme planejado, o evento de lançamento do meu sétimo livro aconteceu no último dia 7, no Centro Cultural M&C. Tudo correu muito bem, e foi ótimo encontrar os amigos que vejo com freqüência, e amigos que eu não via a meses e até anos. Adorei a oportunidade de falar do meu livro, do meu blog, da minha carreira.

A mesa de petiscos tinha biscoitos, pastinhas e refrigerante, e uma “bargirl” preparava na hora caipiroskas e mojitos. Embora o lançamento estivesse previsto para acabar às 21h, ficamos lá até 21h30, conversando e beliscando.

Graças ao frio (foi a semana mais fria do ano na cidade até agora) e à vida cheia de compromissos dos meus amigos e leitores, muitos não conseguiram estar presentes. Não tenho como mandar as bebidinhas pelo correio, mas o livro, sim. Então, quem tiver interesse pode adquirir o livro e recebê-lo em casa. Comemorando o lançamento, todos os livros estão com frete grátis durante o mês de julho.

Depois, no dia 13, fiz uma manhã de autógrafos na Curves. Foi muito interessante misturar atividade física, boa forma e literatura. As meninas são animadas não só para se exercitar mas também para ler.

As fotos dos dois eventos estão neste álbum.

Agradeço a quem esteve presente, e também a quem queria ir mas por algum motivo não pôde; e a todos que me desejaram sucesso, e ficaram torcendo por mim. Muito obrigada!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 1 MÊS

Faz exatamente um mês que estou escrevendo meu novo romance (Rosinha). Comecei pela contextualização da época, do local, da situação social e econômica; apresentei o casal principal e o relacionamento entre eles; também já inseri o mot da história: ele quer ir trabalhar em São Paulo para melhorar de vida. Acho que fiz de um jeito interessante, partindo do contexto mais abrangente até chegar ao problema pessoal da personagem principal.

Comecei a narração na década de 1870, apresentei as personagens em 1913 e estou chegando a 1915, quando há o primeiro ponto de virada importante na história. Há dois aspectos a comentar aqui. O primeiro é o estilo cinematográfico da introdução, como se uma câmera estivesse longe e viesse se aproximando, enquanto o tempo passa, para focar no meu casal, conversando à sombra de uma árvore. O segundo aspecto é essa questão do Ponto de Virada. Ano passado, encontrei na Internet um texto explicando como um romance deve ser estruturado, numa espécie de "fórmula dos Best Sellers". Segundo esse texto, uma história deve ter cinco pontos de virada; o primeiro deve acontecer a 10% do desenvolvimento do texto e o segundo a 25%. Ora, por mais que eu tenha toda a estrutura elaborada antes de começar a escrever – e essa história em particular tenha mesmo cinco pontos de virada previstos – eu não sei se o primeiro ficou em 10% e se o segundo vai cair em 25%. E depois que eu coloco os pontos de virada nos lugares deles, eu não posso ficar movendo “mais pra lá” ou “mais pra cá”, para que fiquem na posição “ideal”. É por isso que eu não gosto de fórmulas prontas, e minhas histórias não serão amoldadas por força a nenhuma estrutura pré-estabelecida que alguém (o mercado? os críticos?) decidiu que é a melhor. Fazer sucesso renunciando ao meu estilo e aos meus procedimentos é algo que não está nos meus planos. Mas não quero entrar em detalhes quanto às imposições do mercado editorial. Melhor falar da minha história.

Já percebi que não fiz descrições. Minhas personagens são tão comuns que eu esqueço que preciso dizer isso em algum lugar. Pelo menos já identifiquei a falha, e encontrei os pontos em que vou inserir as descrições, então vou resolver logo isso, para não ficar devendo para a hora da revisão.

Então estamos chegando a 1915, o primeiro ponto de tensão, quando Toni terá que decidir entre enfrentar a família e afastar-se de seu amor para viver seu sonho e tentar mudar seu destino; ou aceitar seu destino, renunciando a seu sonho, para ficar em paz com sua família e junto de seu amor. Será que ele vai escolher a dificuldade ou a tranquilidade?

terça-feira, 21 de junho de 2011

EXÍLIO

Refletindo sobre O canhoto, percebi aspectos interessantes e recorrentes nas minhas histórias. Percebi que muitas vezes alguma personagem precisa enfrentar algum tipo de exílio, em geral injustamente, mas esse exílio é o afastamento necessário para o amadurecimento da personagem: sair de si para se encontrar. Ao enfrentar uma situação-limite, a personagem é afastada do mundo, isolada, para que supere suas dificuldades emocionais e possa voltar ao mundo mais fortalecida e preparada para resolver seus problemas.

O local de exílio preferido é algum tipo de deserto, inabitado, de forma que a personagem possa ficar a sós consigo mesma (solidão) para encontrar seu caminho de crescimento pessoal, como acontece com Lucas, Ilya, Isabel (Nem tudo que brilha...), e Mário. Outras vezes o exílio se configura por a personagem simplesmente estar afastada de seu ambiente habitual e doméstico, que é o que acontece com Duarte, Rosala, Nicolaas e Caty. São exílios quase auto-impostos, embora não desejados pelas personagens – são o afastamento necessário para o amadurecimento, e a personagem se mantém nele até que tenha condições de solucionar seus problemas e voltar – ou não.

Nas 54 histórias que escrevi (ou estou escrevendo), 30 personagens enfrentam o exílio (o mesmo grupo no mesmo lugar ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo conta como uma personagem). 17 são isoladas num lugar deserto, e 13 são simplesmente afastadas de seu ambiente habitual. Dessas 30 personagens, 20 retornam a seu mundo para resolverem seus problemas mas 8 passam tanto tempo exiladas que, pela impotência em saírem do exílio, são forçadas a construir suas vidas ali – e alguns chegam mesmo a ser felizes, como é o caso de Duarte, exilado de Portugal, e que construiu o Rio de Janeiro, sua nova terra, para poder conquistar uma vida melhor. Há ainda dois casos em que a personagem volta para resolver assuntos pendentes (Vingança e Rosinha) mas na verdade já têm sua vida construída no exílio.

Quando a personagem retorna, ela nunca volta ao ponto exato de onde saiu, pois a realidade está diferente e ela mesma está diferente, mais madura e fortalecida. Então, mesmo quando há o retorno, é necessário reconstruir a própria vida, dentro da nova realidade dela e do mundo.

Embora o exílio seja injusto e não desejado (apesar de necessário e auto-imposto), minhas personagens não o temem, mas enfrentam com coragem, confiantes em que conseguirão superá-lo, ou resignadas por agora fazerem parte daquela situação desagradável – e é essa coragem que permite a elas amadurecerem para poderem voltar, ou construírem uma nova vida no ambiente do exílio. Tenho orgulho de dizer que essa coragem de todos eles é minha. Coragem de amadurecer, coragem de enfrentar novas realidades, coragem de mudar sempre que necessário, para me tornar uma pessoa melhor.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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