terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?


Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, Rosinha, O processo de Ser, O Além.

Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha..., que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.

Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.

E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Fábrica, Pelo poder ou pela honra, À procura.

Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

sábado, 11 de dezembro de 2010

LÍNGUAS ARCAICAS / TU x VOCÊ

Escrevo este texto a partir de uma pergunta que me foi feita no Fórum do Recanto das Letras, sobre o uso do bantu num romance histórico ambientado no Brasil do século XVIII, com personagens africanas ou descendentes. Na resposta que eu dei, procurei focar nos aspectos mais objetivos, mas aqui posso me estender em exemplos e citações.
Em primeiro lugar, não acho que seja uma necessidade o autor contextualizar também a língua, para que a história esteja bem contextualizada. Por outro lado, é um fator facilitador para o autor, e uma espécie de brinde para o leitor, como uma cereja num doce. Usar formas antigas da língua requer uma pesquisa específica, de filologia histórica. E só vale para histórias ambientadas em países que têm a mesma língua em que a história será escrita. Ou seja, é inútil eu usar português arcaico numa história que se passa em local que não fala português. Não acrescenta nada em contextualização eu fazer Nicolaas dizer “asinha”. Já Duarte pedir que Fernão faça alguma coisa, acrescentando “asinha” faz todo sentido e dá à história o sabor de arcaísmo que eu estou tentando evocar (“asinha” quer dizer “rápido”). Quando o local escolhido é um país que não fala português, meu único cuidado lingüístico é não usar gírias nem expressões coloquiais, e assim a linguagem fica formal, talvez em excesso, considerando que eles deviam ter expressões coloquiais. Mas descobrir as expressões coloquiais de outros povos em outras épocas e como traduzi-las corretamente para o português, de forma que sejam a expressão original e façam sentido em português é uma pesquisa muito específica e foge aos meus propósitos, que são apenas de contar uma história e contextualizá-la da forma mais verossímel possível. Não pretendo servir de fonte a pesquisas lingüísticas.
Quando fui escrever Construir a terra, conquistar a vida, resolvi que usaria a linguagem da época, tanto quanto não comprometesse a compreensão do leitor, sem que eu precisasse construir um glossário. A pesquisa foi mais longa do que a escrita e é algo que terei ainda que revisar. Aproveitei também a oportunidade para entrar em contato com o tupi, pois tenho Ayraci, uma personagem Tamuya (adoto a grafia registrada por José de Anchieta). Ela fala algumas palavras e frases em tupi, que são logo traduzidas, mas, quando precisei fazer um diálogo inteiro, preferi escrever em português, e apenas informar que o diálogo estava acontecendo em tupi, privilegiando a compreensão do leitor.
Acho que utilizar a língua como era na época ajuda o autor a contextualizar, e ajuda o leitor a entrar “no clima” da história, mas não é uma necessidade. O autor pode conseguir os mesmos objetivos sem utilizar a língua histórica. Tudo vai depender da habilidade dele, seja para usar a língua antiga, seja para dar clima de antiguidade sem usar a gramática e o vocabulário antigos. Quando eu estava escrevendo Construir a terra, conquistar a vida, toda hora eu consultava a parte de informação histórica do Dicionário Houaiss (que me foi gentilmente oferecido pela Gerente de Patrocínio da Petrobras à época). Eu queria escrever “garoto”, palavra que só aparece escrita no século XIX – portanto não me serve, pois não devia ser de uso corrente no século XVI. Então mudei para “moleque”, que tem registro escrito no século XVIII, mas é de origem africana, e os africanos estavam apenas chegando no Brasil, portanto ainda não influenciariam tanto a língua, a ponto de um português de Lisboa usar o neologismo. Fiquei então com “fedelho” que, embora tenha certa conotação pejorativa de imaturidade, é uma palavra da época (escrita desde o século XVI) e de origem portuguesa. Aí o tempo passou e eu quis escrever “prostituta”, que só começa a aparecer por escrito no século XIX, então fiquei mesmo com a antiga “meretriz” (do século XIV), que atendeu meus propósitos. Além disso, recolhi palavras e expressões especialmente de Gil Vicente, escritor para o povo, e também de Camões, e vou ver como acrescentar ao texto de forma que não prejudiquem a compreensão.
Sempre que vou escrever uma história ambientada no passado, paro para pensar se vou escrever os diálogos em segunda ou terceira pessoa (“tu” ou “você”). Como no Brasil é raro usarmos coloquialmente a segunda pessoa, às vezes opto por ela para caracterizar a antiguidade. Fiz isso em O maior de todos mas não nos outros publicados. Na época em que escrevi O destino pelo vão de uma janela, eu costumava alternar o uso da segunda e da terceira pessoa conforma o contexto da cena, usando a terceira nas situações normais e reservando a segunda para denotar intimidade. Meus romances ambientados no Brasil do século XIX são escritos em terceira pessoa, pois é justamente quando o Vossa Mercê estava se tornando você; mas nas conversas familiares às vezes uso a segunda pessoa, nessa idéia de denotar intimidade.
Na hora de re-escrever O canhoto, pensei em repetir o que fiz em O maior de todos e escrever tudo em segunda pessoa, mas uma das falas que eu queria aproveitar de Mosteiro era a despedida de Ester, quando ela diz “amo você, quero você, preciso de você”. Achei que não teria a mesma força na segunda pessoa, então, por causa de uma frase, escrevi toda a história em terceira pessoa. Cheguei a pensar em fazer os monges usarem a segunda pessoa, mas achei que seria muito forçado, como se a pessoa deixasse de ser o que é, deixasse para trás seus hábitos só porque se tornou monge, então meus monges usam a terceira pessoa como todas as outras personagens.
Tudo fica mais fácil ao se ambientar uma história no Brasil atual, quando esse cuidado na escolha das palavras e expressões não é necessário, pois vou mesmo usar o português atual em terceira pessoa. Mas aí que graça tem?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

SEGREDOS NAS HISTÓRIAS

Às vezes eu me vejo em situações complicadas na hora de escrever esses textos que publico aqui. Percebi que cito mais umas histórias do que outras, e estou tentando equilibrar essas contas mas não é tão simples como pensei.

É muito mais fácil falar de histórias longas, romances de mais de 200 páginas, pois são histórias com mais personagens, mais eventos, mais temas trabalhados, mais assunto para falar. Tratar de contos é difícil, pelas próprias características do conto: poucas personagens, trama simples, ambientação simples. Acabo não tendo muito o que dizer. Há histórias também que eu tenho que ter cuidado ao me referir, pois têm segredos que eu não gostaria de revelar antes da hora. É o caso de O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha..., O Cisne, O maior de todos, Vingança. Mesmo quando a história não tem grandes segredos, os caminhos da trama não devem ser contados em detalhes para não tirar do leitor a surpresa de descobrir certas coisas junto (ou antes!) da personagem. Então também por isso eu cito mais umas histórias do que outras. Pelo poder ou pela honra, por exemplo, é um problema para mim, pois há certos detalhes na caracterização das personagens que são decisivos na disputa entre os irmãos. Mantenho o mistério na página 1 mas começo a dar as informações a partir da página 2. Então, se eu for falar da história em geral, vou acabar revelando alguns segredos, e o trabalho que tive para ir entregando as informações em doses homeopáticas terá sido em vão. Então eu cito pouco essa história não por não gostar dela, mas porque eu não quero entregar os segredos que eu inventei para ela. O que posso dizer é que é uma história confusa, como o momento que eu estava vivendo. Consegui decifrar alguns símbolos, que me fizeram entender como o meu inconsciente sentiu aquele ano de 1993. E é só o que posso falar dela. O máximo de detalhes que posso contar já está na sinopse da história e no pequeno trecho que disponibilizei.

Enquanto isso, fico eu aqui inventando textos genéricos, que falam mais do processo do que das histórias em si, para não contar os segredos que minhas personagens guardam com tanto empenho.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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