sábado, 21 de maio de 2011

ESCREVER ROMANCES DE CAVALARIA

Pode parecer sem propósito escrever romances de cavalaria (ou novelas, conforme o gosto) em pleno século XX e XXI. De fato, é um estilo de escrita com uma definição temporal bastante determinada, e talvez não fale mais para os leitores do nosso mundo atual.

Mas como desprezar o desafio de criar personagens com certas características específicas e elaborar histórias que precisam necessariamente conter certos elementos? Como evitar o prazer de escrever num estilo que eu gosto de ler? Foi pensando nisso – no desafio e na satisfação – que eu me meti nessa empreitada. Os romances de cavalaria têm uma linguagem tão marcante que toda vez que eu leio muito, acabo escrevendo alguma coisa, nem que seja apenas um poema curtinho.

Essa febre começou por causa de A nova Camelot, história que uma amiga sugeriu. Eu não conhecia os romances de cavalaria, mas tive que procurar e ler, para poder recriar a personalidade dos cavaleiros na minha história. Aí acabei lendo quase tudo, e é difícil não se impregnar da atmosfera de aventuras depois das mais de 300 páginas do Parsifal de Wolfram Von Eschenbach, ou das mais de 500 páginas nos dois volumes de A morta de Artur, de Thomas Malory (só tenho os dois primeiros volumes). Como ao me envolver com a história de amor de Tristan e Iseu (minha preferida) ou com a história de Merlin, aprisionado pelos encantos de Viviane? Eu me transporto para aquele ambiente, e depois de um tempo, começo a falar como Chrestien de Troyes, ou como Robert de Boron. Aí não adianta tentar fazer outra coisa, porque a linguagem vai ser cavaleiresca. Então o jeito é fazer um romance de cavalaria e tentar seguir a linha desses grandes mestres.

O mais difícil é conter – ou melhor, conciliar – minha veia subversiva. Não consigo simplesmente imitar o estilo, tenho que mexer na caracterização das personagens. Por isso Linart é um incapaz, e conduz as aventuras de derrota em derrota. Por isso Daluvian e Denevole não gostam de resolver as questões pela espada, mas em torneios poéticos. Por isso eu termino as histórias antes que as personagens morram, e sem que sejam coroadas reis. Havia uma continuação de Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, justamente contando a morte do herói, mas não consegui escrever. Gosto do final que fiz, e não suportei a idéia de contar ao mundo que meu mais valente cavaleiro encontrou quem o derrotasse definitivamente. Entendo que nos romances medievais se desejasse justamente mostrar que mesmo os heróis são humanos e morrem, mas eu não consegui. Então meus três romances de cavalaria não têm final trágico (que seria, se os protagonistas morressem) mas um belo final feliz, ao lado das damas que escolheram e tendo alcançado toda fama e vitórias de que são capazes.

Não posso deixar de citar aqui que meus três romances de cavalaria contêm louvações a Lancelot e Tristan, os dois melhores cavaleiros de todos os tempos (e de todos os romances originais). Se não louvo também Gawain, Parsifal e Gallahad é por não ter me identificado afetivamente com eles, não por lhes faltar valor. Por falar em afeto, nunca é demais repetir que Tristan de Leonis é meu cavaleiro preferido, e que ele desempenha papel-chave nas três histórias: em Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, Haliwain precisa vencê-lo para conquistar Adriane; em História da vingança do Cavaleiro Bretão, Linart quer matá-lo para vingar a morte do irmão; em Aventuras dos Cavaleiros Cantores, é a ele que Daluvian e Denevole querem se igualar no canto e no combate, e é com ele que eles descobrem o verdadeiro valor de um cavaleiro. Sir Lancelot do Lago aparece representado como amigo fiel e o melhor entre os melhores, mas o papel dele é secundário.

Há o projeto de um quarto romance, para contar a história da pessoa que escreveu os outros três livros e de como essa pessoa tomou conhecimento das histórias que contou. Mas não sei se algum dia vou acabar de inventar para escrever. Até o terceiro livro – Aventuras dos Cavaleiros Cantores – está incompleto, com apenas algumas cenas soltas escritas, mas sem o fio condutor da história. Na época em que eu estava escrevendo, aconteceu alguma coisa (de que não me lembro mais) e eu precisei interromper a escrita. E, sem estar impregnada pela linguagem, não consigo prosseguir no estilo. Estou há anos dizendo que vou reler os romances para poder acabar de escrever mas sempre aparece outra prioridade e eu vou adiando essa escrita. Mas a história está pronta e eu me lembro de tudo o que inventei para ela. Só falta mesmo o ajuste de linguagem para que eu possa escrever. E isso só conseguirei relendo tudo – mas aí, cadê o tempo? Depois quero publicar os três (ou quatro) juntos, como uma coletânea – a Biblioteca de Kerdeor.

Talvez seja divertido para o leitor encontrar-se com o gênero do romance de cavalaria numa releitura do século XX, que tenta seguir o estilo dos escritores dos séculox XII a XV. Eu não ousaria querer me igualar aos grandes Mestres da Matéria da Bretanha – Wolfram Von Eschenbach, Robert de Boron, Thomas Malory, Chréstien de Troyes, Béroul, além de Joseph Bédier e Auguste Magne, mestres recriadores daquele universo em tempos modernos – mas ouso homenagear todos eles com meus singelos romances de cavalaria.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

GRANDE E PEQUENO

Vou tentar explicar neste texto esse conceito meu de personagens de tipo grande-pequeno. Quando uma história acontece na minha cabeça, às vezes o protagonista não vem sozinho, mas com uma outra personagem, que é seu oposto e ao mesmo tempo seu complemento. Não formam um casal, mas um par. Podem ser irmãos, amigos, oponentes, e em geral o grande tem necessidade de proteger o pequeno, o que pode gerar um sentimento de amor paternal (ou maternal) e filial. Na maioria das vezes, o grande é mais velho; tem biotipo alto, largo, forte; e temperamento decidido e altivo, enquanto o pequeno costuma ser mais novo; de biotipo estreito, magro, frágil; e temperamento retraído e inseguro, podendo também ter alguma doença que o debilita. Por terem esse conjunto de características é que eu os chamei de “grande” e “pequeno”. É claro que o grande tem seus momentos de fraqueza, e que o pequeno também sabe tomar decisões e se impor, senão eles não seriam personagens, mas tipos-clichês. Além dessas características descritivas, para fazerem parte dessa categoria, eles precisam estar no mesmo nível de importância na história: os dois principais ou os dois secundários. Em geral, quando duas personagens configuram grande-pequeno, é porque estão no mesmo nível. Também não basta terem as características de biotipo e temperamento, e estarem no mesmo nível de importância: eles precisam ser complementares, um ser o contraponto do outro, não no sentido de que um é baixo e outro alto; ou um é otimista e outro pessimista, mas num sentido mais amplo de que um apóia (dá sustentação a) o outro e, quando um não sabe o que fazer, são as características do outro que resolvem o problema.

Eu só percebi essa correspondência quando Alian conta a Karl sobre sua amizade com Pralan, e Karl percebe que sua relação com Curt acontece de forma semelhante. Só então pude começar a refletir sobre essa característica de algumas de minhas personagens. Essa história é bastante emblemática nesse sentido, pois, embora Curt tenha Lisbet e Karl tenha Isabel, as relações amorosas não são importantes, mas tudo gira em torno do conflito de poder entre o Conde e o Rei – o Grande e o Pequeno.

Também formam pares de grande-pequeno as personagens Fréderic e Estienne, de Pelo poder ou pela honra, Pedro e Luís Augusto, de uma história descartada sem nome; Anthony e Andrew, de O castelo mal-assombrado (descartada); Pedro e Augusto, de Difícil conquista (descartada); Daluvian e Denevole, de Aventuras dos Cavaleiros Cantores (que ainda não escrevi).

Rudbert e Ailan (Primeiro a honra) formam uma exceção à regra, por serem um par formado por um homem e uma mulher, mas num momento em que ela está disfarçada de homem. Quando o disfarce acaba, a configuração também desaparece.

Ayraci e Inês são o único par de grande-pequeno feminino, acompanhando um pouco Duarte e Fernão, que também são fortemente grande-pequeno (como Curt e Karl), numa relação de amizade que é sentida como se fosse sanguínea. Fernão foi inventado meio que para ser o pequeno de Duarte. Propositadamente ele é mais novo, mais estreito de ossatura e, no início da história, depende de Duarte para ter seu sustento e tomar decisões. Ele também tem características psicológicas e habilidades que Duarte não tem, para poder ser seu contraponto e seu complemento, o que também era meu objetivo para ele ao criá-lo.

Se explicar o que acontece e como acontece já me é difícil, nem vou me aventurar no campo do “por que”. Como tudo no meu processo de criação, o aparecimento da configuração grande-pequeno foge ao meu controle, pois sua origem está no meu inconsciente. Mesmo Fernão, que teve suas características escolhidas de uma forma mais planejada, podia não ter formado par com Duarte, no decorrer da ação, quando a personagem consolida suas características e toma as rédeas de seu destino. De qualquer forma, o “por que” não é importante para a criação, apenas complementa a análise posterior, e essa é obra da razão, que teima em querer explicações racionais para aspectos que simplesmente existem e independem de explicação para continuarem a existir.

domingo, 1 de maio de 2011

A FELICIDADE DAS PERSONAGENS

Em outro texto, falei dos meus finais: felizes, infelizes e trágicos, e suas várias nuances. Depois percebi que há ainda um outro tipo de detalhe que interfere na felicidade ou infelicidade das minhas personagens: se elas são felizes com o que querem; ou se deve lhes bastar o que têm; ou se, depois de todas as perdas, precisam se contentar com o que lhes restou. Em alguns casos, nenhuma felicidade é possível (em geral, a personagem principal morreu, então não está mais aqui para ser feliz de jeito nenhum).

Como aconteceu na conta dos finais felizes e infelizes, os números me surpreenderam pois a maior quantidade (19) é de personagens que chegam ao final da história tendo conseguido o que queriam. Em 13 histórias, as personagens não conseguiram tudo mas são felizes com o que têm. Quase empatando com o primeiro caso, as personagens conseguem se sentir felizes com o que lhes resta em 17 histórias. E apenas 5 não são felizes de jeito nenhum.

É interessante cruzar as informações e perceber que, nas histórias com final mais feliz (30), a grande maioria dos casos é de personagens felizes com o que querem (17), enquanto 8 são felizes com o que têm e apenas 5 com o que lhes resta. Já nos finais infelizes e trágicos (24), o predomínio é de personagens felizes com o que lhes resta (12), enquanto 5 são felizes com o que têm, 5 absolutamente não são felizes e 2 personagens em histórias de final trágico conseguem atingir seus objetivos e ser felizes com o que querem – daí aquela explicação de que o trágico não é necessariamente infeliz.

É uma conta bastante interessante, pois significa que, mesmo nos finais felizes, há uma gradação de felicidade, e que a realização plena acontece apenas em 17 histórias (de um total de 54). Então não está de todo errada minha impressão de que eu não faço finais felizes, pois nas outras 13 histórias, mesmo o final sendo feliz, há uma sombra de incompletude, uma mágoa de tristeza lá no fundo. Se formos considerar o conjunto das 54 histórias escritas (ou em vias de escrever), apenas 32% das minhas personagens são realmente felizes, pois chegam ao fim da história com o que querem, num final feliz.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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