sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DIÁLOGOS

Meu fascínio pelos diálogos nos textos dos outros (para aprender a fazer nos meus) é intuitivo e emocional, e não tem um motivo racional que eu possa usar como argumento. Acho que o texto fui com mais facilidade e leveza quando os assuntos são tratados em forma de diálogo.

Essa é minha opinião e meu gosto pessoal, mas eu não estou sozinha. A uns bons anos atrás, meu pai, jornalista e repórter, me contou como os noticiários da televisão vinham mudando, dando-se cada vez mais espaço a matérias externas, em vez nas notícias de estúdio. E ele me explicou: as pessoas querem ver a sua cidade, querem saber quem foi que disse o que o jornalista está contando. Trazendo para as histórias: as pessoas não querem um narrador que conta o que está acontecendo; elas querem ver e ouvir as pessoas interagindo em seu próprio ambiente.

É claro que, para descrever as personagens e contar seus pensamentos mais íntimos, só a narração é possível... Claro nada! Eu posso descrever uma personagem com diálogos. Como? Outras pessoas comentam a aparência e o jeito de ser da personagem em questão. É claro que, dessa forma, temos apenas a opinião das outras personagens, e não a descrição “isenta” do narrador, muitas vezes uma espécie de deus onisciente. Mas quem precisa de uma opinião isenta? Gostei muito da forma como descrevi Inês Martins, em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Ayraci destacando características que a tornam feia e Fernão tentando suavizar os defeitos para convencê-los de que ela é bonita. Ficou mais ou menos assim (estou repetindo de memória, então não garanto que o texto tenha ficado exatamente assim):

- O que viste nela, Fernão? Ela é feia! –Duarte opinou.
- Não é feia, não! –Fernão defendeu.
- Ela tem olhos arregalados!
- Não são arregalados, são grandes.
- Sim, e bem abertos –Duarte completou.
- Não vejo problema nenhum nisso. Eu gosto dos olhos dela.
- Ela não tem queixo –Ayraci disse, em voz baixa.
- Tem sim. Só que... é pequenino.
- Não adianta, Fernão –Duarte concluiu- Ela é feia.
- Eu não acho. Para mim, ela é bonita. A moça mais bonita da cidade. E não vou ficar aqui a ouvir insultos.

Isso é só um pedacinho, porque descrevo também outras características da moça. Usando diálogos, posso também usar exageros. Não fica bem um narrador sério e “isento” dizer que a moça teria olhos arregalados e não teria queixo. Eu acabaria usando os termos de Fernão, e o leitor acharia que os olhos de Inês eram apenas grandes e bem abertos quando me agrada passar a imagem de olhos arregalados.

Quanto aos pensamentos íntimos das personagens: embora eu conte em terceira pessoa (como é a voz do meu narrador), faço de forma a usar o jeito de falar da personagem, como se ela estivesse falando consigo mesma. E, se o parágrafo ficar muito extenso, faço a personagem falar em voz alta, para escrever um travessão e quebrar a massa pesada do parágrafo. Um exemplo hipotético ficaria assim (de propósito vou fazer o conteúdo vazio e sem sentido, para enfatizar a forma):

Tinha que ser assim –ele pensou- Afinal, há anos sabia dessa questão e evitava enfrentar o problema. Ninguém mais podia ajudá-lo, pois afastara-se dos amigos e perdera contato também com os inimigos (segue o blá-blá-blá)
- Não adianta lamentar. Agora está feito.
Mas, em seus pensamentos, ainda tinha a imagem dos eventos passados, como aquele dia em que sua mãe lhe dissera como era importante resolver os problemas na hora em que se apresentam. E ele nunca dera ouvidos a sua mãe... (segue o blá-blá-blá)


O uso de diálogos é, portanto, uma ferramenta importante não apenas para fazer as personagens se comunicarem, mas também para passar informações para o leitor de uma forma interessante, quebrando a monotonia da voz do narrador.

Um comentário:

  1. Legal, o tempo passa, mas as lições ficam. obrigado pelas dicas.
    J.C.Hesse - Cartas & Sombras

    ResponderExcluir

Receba os textos no seu e-mail

Outros textos interessantes

Um pouco sobre mim

Minha foto
Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

Quer falar comigo? É aqui mesmo.

Nome

E-mail *

Mensagem *

Amigos leitores (e escritores)