segunda-feira, 21 de março de 2011

REVOLTA E VINGANÇA

Minhas personagens em geral têm dificuldade de inserção social, e às vezes chegam a embates violentos contra instituições e práticas da sociedade. Mesmo quando se submetem às imposições, na verdade estão procurando meios de burlar ou vencer as instituições que cercearam o que se considerava um direito. Essa luta entre o que a personagem acredita que seja seu direito e o que a sociedade lhe permite é uma constante nas minhas histórias. Cabe lembrar que a família também é uma instituição social e, portanto, pode ser contra ela que a personagem se põe. Quando o desejo pessoal da personagem esbarra em algum preceito social, cria-se na personagem uma revolta e, às vezes, desejo de vingança, que ela busca resolver por meios pacíficos, com superação da dificuldade, mas sem medo de chegar a atitudes extremas. Algumas personagens perdem a noção do limite moral e podem ser bastante violentas.

Mas por outro lado, como o que a personagem quer é justamente conseguir inserir-se na sociedade, ela defende as instituições com a mesma fúria com que se contrapõe a elas. A vingança, nas minhas histórias, é quase sempre contra quem faz algo contra a família da personagem, pois qualquer desestruturação na família desestrutura a psique da personagem a e leva a agir, de todas as formas que considera possíveis, desde uma simples superação pessoal, até a tentativa de assassinato do agente desestruturador.

É interessante notar esse conflito que muitas vezes acomete as personagens: ao mesmo tempo em que se revoltam contra uma sociedade que não aceita seus desejos e necessidades pessoais, elas defendem essa sociedade, que tem por dever submeter todos os sujeitos às mesmas normas, indiferente aos interesses pessoais.

Um comentário:

  1. Tem muito a ver com a época também, digo, da história. Esse desejo de libertação vem de muito tempo atrás, e hoje está manifesto especialmente na rebeldia dos jovens.

    Como estou escrevendo para adolescentes e jovens, identifico alguns traços semelhantes em meus personagens, e isso independe da imagem deles. Uma EMO se mostra super cabeça, bastante equilibrada, enquanto a recatada patricinha tenta burlar regrinhas impostas pela família. Assim, em certos momentos, cada uma delas pode tanto defender, quanto atacar a instituição "família".

    Essa é mesmo uma via de mão dupla.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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