segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

À PROCURA

Como já disse aqui em 11/12/2009, estou transformando o conto À procura em romance. Sugiro a leitura da sinopse antes da leitura deste texto.
A tarefa era reelaborar os elementos da história, desenvolvê-los e reescrever tudo de uma forma mais detalhada, de maneira que o conto se tornasse um romance curto (o que eu consigo com cerca de 50 páginas manuscritas).
Primeiro passo: situar a gruta no mapa. Para isso, tive que pesquisar a distribuição de grutas pelo país. Da escolha do local da gruta dependia a caracterização das personagens, especialmente do guia local. Quase me cadastrei (de novo) no site da SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia, de tanto visitá-lo. Lá descobri quantas grutas já foram descobertas em cada estado do Brasil, em que municípios elas estão, quais são as maiores e as mais profundas. Pesquisei mais a fundo as grutas de Minas Gerais, São Paulo e Bahia, para situar a história num desses estados, já que meu estado do Rio de Janeiro não é rico em grutas. Não é rico em grutas? Perfeito! Isso facilita minha pesquisa, pois restringe as minhas escolhas e ainda faço a divulgação das poucas grutas que há no estado. Além disso, a caracterização das personagens se torna mais fácil, pois não terei que pesquisar muito, nem correrei risco de reproduzir os estereótipos de cada gentílico. Então escolhi a região do norte do estado, mais rica em grutas. Como o maciço principal fica no município de Itaocara, este foi o escolhido. Mas onde, exatamente, ficam as grutas? O site da SBE não divulga. Foi preciso descobrir o site da RedeSpeleo, vasculhá-lo todo, para encontrar a localização das grutas de Itaocara.
Bem, há um evento na história que exigia que eu escolhesse uma gruta com certas características pré-determinadas e muito específicas, e eu achei melhor não “brincar” com o que existe e é conhecido. Preferi manter a estrutura, o formato e as características da gruta que eu já tinha inventado no conto, e apenas situá-la na mesma região das grutas reais. Então meus pesquisadores não estão querendo aprofundar o conhecimento que se têm da Gruta do Escorpião (nome da gruta fictícia do conto), mas eles serão os primeiros pesquisadores a entrar na Gruta dos Meninos (nome da gruta fictícia do romance).
Uma palavra sobre a mudança do nome da gruta: nessa pesquisa mais aprofundada que fiz da fauna característica dos ambientes cársticos, descobri que cavernas não são habitat usual de escorpiões. Como uma das personagens é picada por um escorpião, tive que manter um na história (não quis mudar para picada de aranha, menos ainda picada de cobra), mas a população de escorpiões deixou de ser a característica principal da gruta.
Definida a localização da gruta, decidi que os pesquisadores seriam ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, pela proximidade dos municípios. Seria muito estranho eles virem de outros estados estudar um estado pobre em grutas, sendo que os estados vizinhos (exceção ao Espírito Santo) têm mais grutas, e grutas mais interessantes. Era preciso então saber a estrada percorrida, o tempo de viagem, mapa da cidade e dos distritos de Itaocara. Consegui localizar os principais edifícios públicos da cidade e os caminhos por onde andaram os pesquisadores.
Era hora de desenvolver a personalidade dos pesquisadores, que eu não tinha feito no conto. Elaborei a personalidade de cada um mas tive dificuldade em descrever as características físicas, acho que por nunca ter tido com eles um contato mais próximo e duradouro. Mas, por fim, consegui construir cinco pessoas diferentes entre si, aproveitando a riqueza étnica da população brasileira.
Criei novas cenas, em que as características psicológicas das personagens pudessem se expressar, situei a localização da gruta. Dediquei-me, então, a re-escrever a história com todas essas novas informações – era quanto bastava para ter um romance.
Ah, ledo engano! Coloquei o ponto final na página 25! E eu precisava de pelo menos 50 páginas! Eu tinha duas alternativas: 1) desistir do projeto, deixar a história como conto e, portanto, inconsistente; 2) procurar pontos da trama menos desenvolvidos e incrementá-los.
Faço aqui um parêntesis para contar um aspecto da minha personalidade. Sei jogar xadrez mas não sou exímia jogadora. Gosto do desafio de tentar vencer mas jogo pelo prazer de jogar. Não tenho muita paciência para elaborar jogadas de longo prazo, então perco mais do que ganho. Mas eu só perco com um xeque-mate explícito. Não me rendo, não me entrego, vou até o fim. Quantas vezes, jogando com meu irmão, ele dizia: “Desista, Mônica, você só tem o rei!” E eu respondia: “Não: eu ainda tenho o rei”.
Uma breve historinha para explicar minha escolha quanto À procura  resolvi ir até o fim do projeto. Comecei então a procurar onde eu poderia incluir mais informações, onde caberiam novas cenas. Tive que pesquisar atrações turísticas na cidade, para os pesquisadores verem, nas horas que têm livre, antes da expedição. Acabei também criando novas grutas, menores e menos importantes, é claro, que foram visitadas no caminho para a gruta principal. Resolvi também explicar detalhadamente as características geológicas da Gruta dos Meninos. Não preciso dizer que tive que pesquisar mais para poder criar e descrever tudo isso.
Ao mesmo tempo em que todo esse desenvolvimento – desde a melhor caracterização dos pesquisadores – está me ajudando em relação ao número de páginas, está me criando um problema novo: no conto, onde nada era desenvolvido, o destaque era a história do guia, que era contada do meio para o fim do conto. Agora, está tudo tão desenvolvido que a história do guia perdeu a importância, no meio de tanta informação. Ou seja, quando eu terminar essa fase de incrementos, terei que retomar a história do guia e devolvê-la a seu lugar de ponto-chave de toda a trama. Ainda não sei como vou fazer isso. Talvez terei que aumentar o clima de mistério e suspense em tudo o que se refere a ele, com o cuidado de não deixar antever o que acontecerá. Gosto da técnica de Hithcock: o espectador sabe do que a personagem não sabe, e aí está o suspense. Vamos ver se vou conseguir fazer corretamente, ou se vou resolver de outra forma.
Há ainda um outro problema, de caráter ético: eu me sinto “enchendo linguiça”. Tudo o que escrevi após o ponto final me soa desnecessário. Mas eu resolvi não pensar nisso. De qualquer forma, o julgamento será feito no futuro: depois que eu tiver as 50 páginas necessárias, o texto vai ficar guardado por um ano. Só depois disso eu decidirei se minhas soluções foram válidas, se a história ficou boa e consistente, se está tudo coerente, se a história tem valor suficiente para ser digitada e entrar na fila de publicação.
Então vou continuar a “encher a linguiça”, e depois conto como ficou.

Um comentário:

  1. Anônimo2/2/10 09:57

    Parabéns por se aventurar pelo mundo subterrâneo.
    É um tema que sempre vai despertar a curiosidade de qualquer um, mas infelizmente, poucas obras literárias ou filmes o tratam com o devido respeito. Geralmente o colocam como um inferno cheio de animais "alienígenas".
    Bom... quando tiver concluido o trabalho, temos interesse em divulgá-lo nos canais da SBE.
    Uma boa jornada...

    Marcelo Rasteiro
    Secretário executivo da Sociedade Brasileira de Espeleologia - SBE
    sbe@sbe.com.br

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Um pouco sobre mim

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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