quarta-feira, 11 de julho de 2012

EXAGEROS


Tenho que confessar que exagerei um pouco quando disse que, a partir da chegada de Letícia, todas as cenas estavam exaustivamente elaboradas até o final da história. O que acontece, para ser mais precisa, é que, a partir da chegada de Letícia, há mais cenas importantes para a estrutura da trama – estas, sim, foram criadas, recriadas e repetidas muitas vezes. Os momentos fundamentais estão bem detalhados, mas há cenas intermediárias de menor importância – e estas não foram elaboradas exaustivamente. Então, ainda estou sujeita a momentos de indecisão, de não saber como conduzir o texto, para chegar na próxima cena-fundamental-exaustivamente-elaborada. Outras pessoas chamariam de “branco” mas eu não tenho “brancos”, tecnicamente falando. Meus momentos de indecisão seriam mais próximos de um “cinza 70%”, pois eu só tenho que pensar qual é o próximo evento fundamental, ordenar os eventos intermediários, e escrever todos.
Um exemplo dessa não-elaboração-exaustiva de todas as cenas é a presença de Toni na Semana de Arte Moderna. Não é um trecho fundamental para a história, então eu só tinha de certo que ele estaria presente. Acabei fazendo um texto descritivo (e um pouco didático) do que foi a Semana de Arte Moderna, quais os eventos, quem eram os artistas (meu lado historiadora da arte não resiste nessas horas) mas tive que deixar espaços em branco, porque a programação completa da Semana de Arte Moderna está num arquivo no computador e, se meus leitores bem se lembram, eu escrevo a mão. Ou o computador está ligado, ou eu estou escrevendo. São atividades excludentes, e ainda não juntei as duas, para preencher os buracos no texto, que não são poucos, pois houve palestras e/ou concertos em três dias, e é óbvio que eu não decorei a programação para narrar.
Então a Semana de Arte Moderna acabou, e já estamos no final de março. Toni está passando por algumas transformações, deixando de lado algumas características do Toni da primeira fase e se tornando o Toni da segunda fase. Com isso, ele perde aspectos da própria identidade. É interessante fazê-lo mudar gradativamente, um processo que para ele é imperceptível, e que ele só vai perceber quando chegar à terceira fase.
Quando eu escrevi o texto exagerado, eu estava no meio do turbilhão, com uma seqüência grande de cenas fundamentais para escrever. Agora estou num momento mais calmo, por isso reconheço o exagero daquela vez. Como estou sempre elaborando com antecedência, muitas vezes tenho pensado em cenas da terceira fase, e também fico com a impressão de que só ali é que a história vai realmente começar, pois será quando o conflito principal vai ser finalmente abordado, em conjunto com outros sub-temas, que estão sendo construídos na primeira e na segunda fases. A verdade é que são pontos de virada, pequenos momentos de clímax para manter o leitor interessado e atento.
Estou chegando à página 200... e ainda tenho muito para contar...

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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