sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ENCENAR



Lá em 1985, eu comecei a inventar as histórias antes de dormir – hábito que mantenho até hoje, embora atualmente a atividade me absorva em outros momentos também. Nesse início, eu não me contentava em criar mentalmente, mas vivia as cenas que inventava, falava, gesticulava, e é por isso que a maioria das cenas de Odestino pelo vão de uma janela, por exemplo, acontece à noite, quando Marie se deita para dormir.
Aos poucos, fui melhorando meu processo de criação e focando mais nas necessidades das histórias do que na minha realidade de estar inventando na hora de dormir. A atividade ficou mais mental e menos física. Mesmo assim, muitas vezes tenho necessidade de encenar o que escrevi para me assegurar de que os gestos ficaram naturais, de que a fala não é um trava-línguas, ou não ficou com vício de linguagem (exemplos que eu tive que trocar: “não sei se eu sei ser assim”; “rondando as redondezas”). Em geral, faço isso quando estou sozinha, mas já precisei pedir ajuda para saber se um determinado gesto era possível – e aí sobra para o marido e para a melhor amiga, que são pessoas pacientes e dispostas a me ajudar, e que vão aceitar, sem maiores questionamentos, um simples “é pr’uma história que estou escrevendo” como resposta ao óbvio “pra que você quer saber isso?”
O caso mais pitoresco aconteceu em Amor de redenção. Há uma cena em que Camila sai da escola, encontra Ágila e briga com ele, enquanto anda pela rua. Como eu construí a ambientação para que ela estude num colégio específico – embora eu não diga o nome dele – eu resolvi que precisava saber em que ponto exato da rua cada fala era dita, cada gesto era feito. A cena já estava escrita quando eu encenei. Na época, eu morava na Glória e estava fazendo um curso (por acaso, de escrita criativa) quase chegando em Botafogo. Como a cena da minha história acontece no Catete, resolvi ir a pé para o curso, para passar pelo local da cena. Quando me aproximei do colégio, tirei os papéis da bolsa e me preparei. No portão do colégio, parei e comecei a ler as falas em voz baixa e a caminhar conforme a descrição que eu tinha feito: sai andando rápido, para, continua devagar, acelera o passo, para de novo. Fiz o possível para ser discreta mas percebi que algumas pessoas me olharam, estranhando eu andar lendo, alterando o passo e parando sem motivo nenhum. E o que a princípio até para mim parecia uma excentricidade mostrou-se muito útil pois a cena é mais curta do que eu tinha imaginado (ou a rua é mais longa) e eu tive que ajustar algumas descrições de forma que combinassem com a realidade.
Eu tinha que ter feito algo parecido em Difícil conquista, na cena em que Pedro e Lisa atravessam do Copacabana Palace para a praia mas, na época em que escrevi, tinha vergonha de fazer isso e depois essa história foi descartada, de forma que a averiguação se tornou desnecessária.
Ambientar histórias na cidade em que se mora tem essa vantagem, de se poder facilmente marcar as cenas no cenário. Quando se escreve histórias ambientadas em outras cidades (a própria cidade em outros tempos também é outra cidade), é preciso usar outras estratégias para esse tipo de marcação, e recorrer a fotografias, mapas e cálculos matemáticos, sempre correndo o risco da marcação não ficar correta. É bem mais fácil simplesmente encenar.

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Mestre em História e Crítica da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se à literatura desde 1985, escrevendo principalmente romances. É Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni desde 1998 e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras desde 1999. Publicou oito romances, além de contos e poesias em antologias. Desde junho de 2009 publica em seu blog textos sobre seu processo de criação e escrita, e curiosidades sobre suas histórias. Em 2015, uniu-se a mais 10 escritores e juntos formaram o canal Apologia das Letras, no Youtube, para falar de assuntos relacionados à literatura.

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